Outras causas

Frequência das relações sexuais

Ao contrário do que se diz e se pensa, uma elevada frequência de relações sexuais é benéfica e não diminui a qualidade do sémen. Não devem é ser efectuadas com a intenção ou preocupação de se alcançar a concepção, pois causa ansiedade desnecessária. Devem ocorrer apenas por amor e prazer entre o casal. Deste modo, não é necessário estar atento ao dia provável da ovulação.

Antecedentes familiares

A infertilidade pode ser hereditária, pelo que se deve avaliar cuidadosamente a história familiar referente a casos de infertilidade, casamentos intrafamiliares e doenças genéticas, hematológicas, respiratórias, cardiovasculares, endócrinas, auto-imunes, renais, neurológicas, psiquiátricas e oncológicas.

Hábitos, Alimentação, Desporto, Profissão e Medicamentos

Várias substâncias químicas afectam a qualidade dos ovócitos e dos espermatozóides, podendo também atingir o desenvolvimento da placenta e do feto.


Aumento da temperatura escrotal. Ocorre com os motoristas, nos trabalhadores junto a fornos e fontes de radiação, nos indivíduos que passam horas consecutivas sentados no escritório, e com o uso de roupa apertada. Provoca perda da qualidade do sémen.


Nicotina. Provoca lesões no material genético dos ovócitos, tornando-os incompetentes para originar um embrião saudável. Nas fumadoras, quando o ovócito é normal e o embrião implanta, a nicotina, porque causa aterosclerose e espasmo arterial, condiciona risco de parto prematuro e atraso do crescimento fetal intra-uterino. Nos homens, a nicotina causa diminuição da líbido, défice da erecção, e perda da qualidade do sémen (oligozoospermia e astenozoospermia).


Drogas. Causam lesão genética dos ovócitos, anomalias fetais, parto prematuro, atraso do crescimento fetal intra -uterino e síndrome de abstinência do recém-nascido. Nos homens causa perda da libido, impotência, diminuição da qualidade e aumento de lesões genéticas dos espermatozóides.


Álcool. O alcoolismo crónico associa-se a distúrbios endócrinos, à perda da função renal e hepática, à aterosclerose e à hipertensão arterial. Estas causam desregulação endócrina do ovário (pode, por isso, condicionar défice da ovulação e diminuição da qualidade genética e morfológica dos ovócitos), perda da líbido e aumento das infecções genitais. Também facilitam as complicações na gravidez e no parto, e condicionam fetos com lesões cerebrais. O etanol provoca lesões directas no material genético dos ovócitos, tornando-os incompetentes para originar um embrião saudável. No homem, o alcoolismo provoca perda da líbido e da erecção, bem como perda da qualidade do sémen (oligo-terato-astenozoospermia).


Obesidade. Associa-se a distúrbios endócrinos (doenças da tiróide, diabetes), à perda da função renal e hepática, à aterosclerose e à hipertensão arterial. Estas causam disfunção ovulatória, diminuição da qualidade genética e morfológica dos ovócitos, lesão do endométrio, perda da libido, dispareunia (dor nas relações sexuais) e infecções genitais de repetição (diabetes, excesso de humidade nas pregas). Também facilitam as complicações na gravidez e no parto, e condicionam fetos macrossómicos e diabéticos. No homem, são responsáveis pela perda da líbido e da erecção.


Magreza. A perda excessiva da gordura pode condicionar disfunção ovulatória e amenorreia.


Sedentarismo. Favorece a obesidade e o sobreaquecimento escrotal.


Medicamentos. Podem diminuir a líbido e dificultar a erecção, como os antihipertensores e os antidepressivos.


Químicos industriais, poluição do ar e químicos alimentares. Dioxinas, hidrocarbonetos, cádmio, zinco, crómio, mercúrio, chumbo, carne (com hormonas esteróides) e peixe (com mercúrio). Causam lesões genéticas nos gâmetas, embriões e fetos.


Radiações. Proximidade de instalações geradoras de electricidade ou de energia rádio-activa, telemóveis de geração antiga, computadores. Causam lesões genéticas nos gâmetas, embriões e fetos.

Doenças sistémicas

Doenças cardiovasculares, eritrocitárias, da hemoglobina e da coagulação. Devido ao risco de hemorragia e trombose impõem um maior cuidado no tratamento hormonal da infertilidade e uma maior vigilância da gravidez e do parto (descolamento da placenta, parto prematuro). Podem interferir com a implantação e causar abortamentos de repetição. No homem podem causar dificuldade na erecção ou anejaculação.


Doenças respiratórias. A doença dos cílios imóveis (sinusite crónica, bronquite crónica, bronquiectasias) impede o movimento do embrião ao longo das trompas em direcção à cavidade uterina e causa imobilidade dos espermatozóides. A asma e as dificuldades respiratórias também dificultam a gravidez e o parto.


Doenças auto-imunes. Tiroidite, artrite reumatóide, espondilite anquilosante, lúpus eritematoso sistémico. Podem causar infertilidade, quer porque os auto-anticorpos impedem a fecundação ou a implantação, quer porque podem originar abortamentos de repetição por rejeição materno-fetal.


Doenças gastro-intestinais. Doença celíaca, doença de Chron, colite ulcerosa, hemocromatose, doença de Wilson, hepatites. Podem estar associadas a disfunção ovulatória, perda da qualidade do sémen, dificuldades na implantação e abortamentos de repetição.

Doenças neurológicas. Paraplegia, doenças neurodegenerativas. Podem causar perda da libido ou dispareunia na mulher, e perda da libido, dificuldade da erecção ou anejaculação no homem.


Doenças psiquiátricas e mentais. Legalmente, o atraso mental impede o recurso ao tratamento da infertilidade. Os medicamentos usados em psiquiatria causam perda da libido, disfunção eréctil, anejaculação e perda da qualidade do sémen. Podem também interferir com a implantação e induzir anomalias fetais.

Traumatismos e acidentes

Podem causar infertilidade se lesarem os órgãos genitais ou causarem incapacidade para ter relações sexuais. No homem, pode também causar ausência de erecção e anejaculação (paraplegia).

Stress ocupacional e stress associado à infertilidade e aos tratamentos de RMA

A ansiedade e a depressão não provocam directamente alterações dos espermatozóides nem dos ovócitos. Porém, indirectamente, o stress é causa de infertilidade, afectando a concepção espontânea, a qualidade do sémen e a implantação.


Vários exemplos testemunham o impacto da ansiedade e da depressão: os homens bloqueiam frequentemente quando têm de ter relações sexuais em dias e horas predeterminadas; a ausência de ligações afectivas fortes condiciona uma diminuição do número das relações sexuais e da qualidade do sémen; quando os homens se vão masturbar para colher o sémen destinado ao tratamento, cerca de 1-5% bloqueiam psicologicamente e não conseguem executar a tarefa, sendo necessário usar métodos alternativos; cerca de 10-15% das amostras de sémen colhidas para o tratamento apresentam piores parâmetros do que as amostras colhidas fora dos tratamentos; em cerca de 10% dos casais, após estes serem bem recebidos pelo médico e quando este os descansa e inicia o estudo correcto para o diagnóstico, surge uma gravidez espontânea apenas devido ao relaxamento; após a transferência dos embriões para a cavidade uterina, a mulher reage psicologicamente como se fosse seguro ir engravidar e desenvolve muita ansiedade na espera da análise da implantação e na ecografia da 5-7ª semana, o que causa muito sofrimento, provoca queixas psicossomáticas e baixa a taxa de gravidez.


Por esse motivo, quando vem a menstruação ou a análise da βhCG é negativa, entram muito facilmente em depressão; ocorrem divórcios durante os tratamentos, por culpabilização intraconjugal.


Existem também distúrbios psicológicos que podem gerar disfunção sexual, com incapacidade de ter relações sexuais (ausência de erecção ou vaginismo), muitas vezes por défice afectivo real entre o casal, outras vezes por um passado traumatizante (violação).


É, por isso, essencial um acompanhamento psicológico, se assim o desejarem, para além do suporte das consultas médicas.