“A Igreja, a sexualidade e a bioética”
As crónicas do Padre Anselmo Borges continuam a ser dos melhores motivos para se comprar o “Diário de Notícias” aos Sábados. Podemos discordar (e discordo muitas vezes), mas a sua escrita alimenta a reflexão e, em dias como o de hoje, interroga o fundamento das posições da Igreja institucional. Ao comentar o livro “A Sexualidade, a Igreja e a Bioética. 40 anos de Humanae Vitae”, o Padre Anselmo Borges questiona o que terá “envenenado” a relação da Igreja com o corpo e a sexualidade, passando pela ideia de pecado original, pela imposição (oficial e tardia) do celibato e, importante para o que aqui interessa, sobre os limites incertos entre o que é biológico/natural e o que é artificial:
«Neste domínio da contracepção, o equívoco fundamental da encíclica Humanae Vitae encontra-se numa concepção de lei natural fixa, estática e centrada na biologia. Ora, por natureza, o ser humano é cultural e histórico e a própria realidade é processual. A sexualidade humana não pode ser vista apenas na sua vertente biológica. Como pode o Magistério fixar-se na biologia, esquecendo que, para ser verdadeiramente humana, a sexualidade envolve o biológico, o afectivo, a ternura, o amor, o espiritual? Por outro lado, na perspectiva bíblica, não criou Deus o Homem como criatura co-criadora? Não é o Homem, por natureza, interventivo, aperfeiçoador e transformador da natureza? Então, no juízo moral, o critério não pode ser o natural identificado com o bem e o artificial identificado com o mal, mas a responsabilidade digna e a dignidade responsável.»
Versão completa:
http://dn.sapo.pt/2008/11/29/opiniao/igreja_sexualidade_e_bioetica.html
A infertilidade no mundo

Em 2007 tive oportunidade de ouvir o especialista Willem Ombelet falar sobre a infertilidade nos países em desenvolvimento. Nessa ocasião desfilaram perante a plateia números assustadores, representações cruéis da infertilidade noutras culturas, dificuldades em acomodar os tratamentos de PMA em países com inúmeras carências económicas, a necessidade de planos específicos e de formação básica em medicina da reprodução. Ora, o “Jornal de Angola” anunciava há dias a entrada da PMA no país, dando conta da ajuda decisiva de uma equipa de médicos brasileiros. O relato mostra-nos evidentemente o drama pessoal da infertilidade, mas acrescenta ao universo que nos é familiar outras percepções, relacionadas com a localidade angolana. Um excerto:
«Ciúmes, tristezas, traições, divórcios e desavenças tomam conta de muitos lares por falta de um herdeiro. Domingos Fernando, 41 anos, é apenas um, no universo de muitos parceiros, que luta dia e noite para manter o casamento. A infertilidade acomete a sua esposa há onze anos. (…) Domingos Fernando disse que já recorreu a pelo menos cinco ou seis terapeutas tradicionais, mas o tratamento não resultou na concepção de mais um filho por parte de companheira. “Já fui a Viana, Rocha Pinto, atrás da FTU, 1º de Maio, até Benguela e, por um fio, iria ao Dombe Grande, porque não imagina o sentimento de culpa e a pressão que recebo da parte da mulher”, acrescentou. A companheira de Domingos sentiu-se ainda mais revoltada quando este fez outros filhos com uma outra mulher. De lá para cá, segundo Domingos, “a minha mulher diz que não ligo à situação dela e para evitar dissabores tive de reduzir à ida a segunda esposa”. Estas histórias dramáticas relacionadas, quer com a infertilidade masculina, quer com feminina, a partir dos próximos tempos, terão solução. Uma equipa de médicos brasileiros especializados em reprodução assistida está a fazer as malas rumo a Angola para trabalhar no “Projecto vida”.»
IVF Fashion
Música às segundas…
Lady Saw
“No Less Than a Women”
NB: Lady Saw escreveu esta música especialmente para as mulheres que têm dificuldades em ter filhos.
Voz emprestada: teste de fertilidade
«Especialistas em fertilidade da Universidade de Sheffield, na Inglaterra, desenvolveram um teste que prevê quanto tempo de fertilidade as mulheres ainda têm pela frente. O teste mede o número de óvulos nos ovários femininos e indica qual deve ser o nível dele dentro de dois anos. O exame já está disponível em serviços de saúde da Europa e dos EUA, com o nome de “Plan Ahead Test” (Planeje com Antecedência, em tradução literal). Veja o site do produto http://www.early-pregnancy-tests.com/planahead-test.html
O especialista em fertilidade Bill Ledger, que desenvolveu o kit para o exame, disse que está confiante de que o teste é uma previsão exata da fertilidade, e que ele espera que permita às mulheres planejar melhor seu futuro e decidir por quanto tempo elas podem adiar a decisão de ter um filho. “Se ter uma família é a coisa mais importante, é melhor você começar a tentar ter filhos na faixa dos 20 anos – não há dúvidas de que quanto mais você adia, maior a chance de decepção”, disse ele.»
Continua aqui: http://claudiacollucci.blog.uol.com.br/
A esterilidade é uma doença, afinal?
Toda a gente sabe que a Clara Pinto Correia é infértil. Ela fez questão de o afirmar, de contar o seu historial de tratamentos, de mostrar o orgulho pelas duas crianças - dois irmãos - adoptados há já vários anos. Goste-se ou não de Clara Pinto Correia, foi uma das primeiras “figuras públicas” a “dar a cara” pela infertilidade, quando este assunto era pouco mais que um sussurro envergonhado nas esquinas de um sofrimento que se vivia sobretudo a dois.
Por tudo isto vale a pena recuperar um excerto de um texto da sua autoria. Pode até parecer exagerado, mas acreditem…era assim. É assim?
“[…] Em poucas palavras: as pessoas, por tendência intrínseca e hábito civilizacional, não tendem a considerar a esterilidade um problema médico como qualquer outro, tão digno de apoio e cuidado como qualquer outro. Já me fartei de dar este exemplo, mas há fins que justificam os meios e por isso desculpem a redundância. Mas é que se a gente come marisco duvidoso e passa a noite a vomitar todos os nossos entes queridos se desmultiplicam em solicitudes. Se a gente parte uma perna, toda a gente nos enche de mimos e nos decora o gesso de autógrafos. Se a gente é estéril, os mesmíssimos entes queridos desviam a conversa e nadam-nos ir adoptar uma criança e parar de choramingar. O dilema da esterilidade é mais que médico. É cultural. Podem não acreditar, mas se somos estéreis e só queríamos encostar a cabeça no ombro de alguém por uns segundos é extremamente difícil encontrar o dito ombro.”
Há momentos em que a gente se lembra da Deolinda…
Agora sim, damos a volta a isto!
Agora sim, há pernas para andar!
Agora sim, eu sinto o optimismo!
Vamos em frente, ninguém nos vai parar!
Agora não, que é hora do almoço…
Agora não, que é hora do jantar…
Agora não, que eu acho que não posso…
Amanhã vou trabalhar…
Agora sim, temos a força toda!
Agora sim, há fé neste querer!
Agora sim, só vejo gente boa!
Vamos em frente e havemos vencer!
Agora não, que me dói a barriga…
Agora não, dizem que vai chover…
Agora não, que joga o Benfica…
e eu tenho mais que fazer…
Agora sim, cantamos com vontade!
Agora sim, eu sinto a união!
Agora sim, já ouço a liberdade!
Vamos em frente, é esta a direcção!
Agora não, que falta um impresso…
Agora não, que o meu pai não quer…
Agora não, que há engarrafamentos…
Vão sem mim, que eu vou lá ter…
IVF Fashion
A tua assinatura pode fazer a diferença…
Caras(os) Amigas(os),
Permitam-nos um momento político no blog da APFertilidade:
Assinem e divulguem. Todos juntos somos mais!
APFertilidade
Porque é que queremos ter filhos?
Há cerca de um ano coloquei no Fórum da APFertilidade a seguinte pergunta: “Porque é que queremos ter filhos?”. Esta é talvez a questão mais importante para nos ajudar a traçar o caminho a seguir. Eis as vossas respostas, transformadas nesta nuvem. Lanço então novo desafio: Será que algo mudou neste último ano? Serão estes ainda os mesmos motivos por que queremos ter filhos? Convido-vos a deixarem aqui o vosso comentário com as razões que vos levam a querer um filho, para assim ajustarmos (ou não!) a nuvem de Outubro, fazendo-a circular novamente pelo ciberespaço.
A Respiração dos Poetas…
No coração da neve
e no espaço
no silêncio e na infância
no amor na solidão na liberdade
na gentileza na fraternidade
o mesmo puro delírio
de iluminar as trevas
sem diminuir o sonho
e fazê-las cantar
à luz do dia
[in À Memória de Paul Éluard]
NÃO POSSO ADIAR O AMOR
Não posso adiar o amor para outro século
não posso
ainda que o grito sufoque na garganta
ainda que o ódio estale e crepite e arda
sob montanhas cinzentas
e montanhas cinzentas
Não posso adiar este abraço
que é uma arma de dois gumes
amor e ódio
Não posso adiar
ainda que a noite pese séculos sobre as costas
e a aurora indecisa demore
não posso adiar para outro século a minha vida
nem o meu amor
nem o meu grito de libertação
Não posso adiar o coração
[in Viagem Através de uma Nebulosa]
PASSAGEM
(…)
É onde agora ninguém me vem chamar
e uma outra luta prossegue imponderável.
O tempo vai chegar mas eu aqui passei
ou algo em mim passou quando o final chegar
deste fim que escuto e sou no seu passar.
[in Terraço Aberto]
A Respiração de António Ramos Rosa. Sobre o amor, nas suas múltiplas faces. Sobre a espera, a procura e o caminho. Sobre a virtude do silêncio e a exigência da voz. Sobre os retalhos das vidas de cada um(a) de nós, e sobre o que sentimos, enquanto sustemos a respiração.
Música às segundas…

Jorge Palma, sobre ilusões e situações…
“O Centro Comercial Fechou” [Vôo Nocturno, 2007]
http://www.youtube.com/watch?v=XOkbBZNgskM
«O centro comercial fechou
E a Maria vai viver a vida mais longe
Longe das ilusões
Em cima das situações
Perigosas
O Toino não morreu no mar
Acabou de adquirir um castelo na Escócia
Enfim, não é bem na Escócia
É uma cave sombria
Em Gaia.
O passado já lá está
Raio de uma sorte cinzenta
E o presente é uma réstia de esperança enquanto houver saúde
Há que cuidar do aspecto
Fazê-lo parecer natural
Por mais que seja cruel não há ninguém que ajude
Ninguém nos ensinou a usar
Nada do que recolhemos pelo caminho
Perto das ilusões
Entre o amor e as razões
Perversas
O passado já lá está
Raio de uma sorte cinzenta
E o presente é uma réstia de esperança enquanto houver saúde
Há que cuidar do aspecto
Fazê-lo parecer natural
Por mais que seja cruel não há ninguém que ajude.»
Para a “AnaCristinaBatista”
Para a amiga, companheira de todos nós, autora de centenas de mensagens de incentivo, associada da APFertilidade que encontrou a morte, quando buscava um bebé para a vida… Até sempre.
«No fundo funcionamos como uma familia. E quem fala é o coração muito sentido sempre presente nas nossas respostas. Bjs e boa noite.»
AnaCristinaBatista (17 de Set. de 2008)
http://www.youtube.com/watch?v=d_Nq9fUX2WE
«Hope there’s someone
Who’ll take care of me
When I die, will I go
Hope there’s someone
Who’ll set my heart free
Nice to hold when I’m tired…
(…)
Ter filhos (2)
O Artº 16 da “Declaração Universal dos Direitos Humanos” (1948) afirma que todo o indivíduo tem direito a «casar e constituir família». Este direito, inscrito num texto que reflectia o espírito gregário do pós-Guerra, tem sido nas últimas décadas abordado de diversas formas, mas algo parece reunir o consenso: é extremamente difícil conceber a existência de um direito à procriação, pois trata-se de um terreno onde as questões políticas, simbólicas e pessoais se cruzam a todo o momento, de forma intensa e por vezes contraditória. Talvez por isso a pergunta sobre o direito de ter filhos seja tão frequente. Não só as pessoas e os casais são questionados enquanto indivíduos, como a própria procriação medicamente assistida (PMA) é por vezes posta em causa.
Boa parte desta oposição social e moral à PMA assenta em valores profundamente enraizados na sociedade. Estas atitudes e valores poderiam ser associados a um misto de comunitarismo conservador e de naturalismo essencial: as pessoas acreditam que a procriação humana é algo que acontece e deve continuar a acontecer naturalmente, no contexto da vida social e familiar. A PMA deveria ser recusada porque pretende “controlar” este mundo em que as coisas acontecem simplesmente, segundo os desígnios da natureza e do acaso. Em geral, as mesmas pessoas não pensam o mesmo relativamente a outras condições médicas. Por exemplo, seria impensável deixar a natureza seguir o seu curso perante um problema cardíaco ou perante uma alergia persistente.
(continua)
Música às segundas…
Dizem que é a melhor canção de amor…
Nick Kave, The ship song
http://www.youtube.com/watch?v=FdSzNPwILYA&feature=related
Come sail your ships around me
And burn your bridges down.
We make a little history baby
Every time you come around.
Come loose your dogs upon me
And let your hair hang down.
You are a little mystery to me
Every time you come around.
We talk about it all night long
We define our moral ground.
But when I crawl into your arms
Everything comes tumbling down.
Come sail your ships around me
And burn your bridges down.
We make a little history baby
Every time you come around.
Your face has fallen sad now
For you know the time is nigh
When I must remove your wings
And you, you must try to fly.
Come sail your ships around me
And burn your bridges down.
We make a little history baby
Every time you come around.
Come loose your dogs upon me
And let your hair hang down.
You are a little mystery to me
Every time you come around.
IVF Fashion
Estamos de volta com a colecção Outono/Inverno da nossa linha exclusiva “IVF Fashion”. Aqui temos uma linda “baseball jersey”. Esperamos ver um dia todos os nossos leitores vestidos com ela.
Viver a vida…

A aceleração contemporânea tem motivado nos últimos tempos várias reacções a favor da lentidão, do abrandamento e da apreciação demorada das pequenas&grandes coisas da vida. Dois exemplos, tirados mais ou menos ao acaso:
1 – The School of Life
Uma escola para ensinar a degustar, a apreciar e a praticar o que chamam “biblioterapia”
http://www.theschooloflife.com/about.aspx
2 – In Praise of Slowness
Um elogio da lentidão, de Carl Honore, contra o culto da velocidade. Destaca as vantagens do tempo lento na mesa, no trabalho, nas férias… e também na cama. Termina com um capítulo sobre como educar uma criança para não ser apressada/estressada.
http://www.amazon.com/Praise-Slowness-Challenging-Cult-Speed/dp/0060750510/ref=sr_1_1?ie=UTF8&s=books&qid=1220918585&sr=1-1
Voz emprestada: Maternidade tardia

“No começo eu pensava estar acima de qualquer coisa. Você se apresenta, o médico lhe mostra uma gama de opções de alta tecnologia e essa é uma coisa poderosa _a promessa de um filho. Mas antes que perceba você já fracassou pelo terceiro ano consecutivo e está começando a se sentir usada e abusada, sem mencionar que você está quebrada. Você se senta nas clínicas de reprodução cujas paredes estão cobertas de figuras de bebês, mas a despeito do fato de que está tentando tão duramente quanto sabe, não consegue nenhum daqueles bebês.
Não estou mais segura de que essa tecnologia seja remotamente um fato de poder. Você pega uma mulher da minha geração, alguém que é certamente realizada, mas que está em seus 40 anos e não tem um filho. Essa tenologia se torna uma maneira de dizer a ela que qualquer coisa que realizou não é o bastante. E então, quando ela fracassa em conseguir ficar grávida_e a maioria fracassa_ isso apaga seu senso de competência profissional e sua confiança como mulher. Sei que esses procedimentos deixaram-me mais deprimida que qualquer outra coisa em minha vida”.
O relato acima é de Wendy Wasserstein, uma das mais premiadas autoras de peças da Brodway, que durante dez anos lutou para conseguir gerar um bebê. Consegui tê-lo aos 48 anos, com óvulos doados. A menina Lucy nasceu prematura, aos seis meses de gestação.
O depoimento faz parte de um livro bem interessante que estou lendo chamado “Maternidade Tardia”. Na obra, a autora Sylvia Hewlett constata que quanto mais bem-sucedida profissionalmente é a mulher, mais dificuldades ela encontrará para achar um parceiro ou ter um bebê. E o mais triste: essa situação não foi uma escolha delas. Simplesmente o tempo passou e e elas estavam ocupadas demais para perceber isso.
(Versão completa: http://claudiacollucci.blog.uol.com.br/ )
Michael Phelps at a very Young Age…

Nuvem da infertilidade
Aqui fica a “Nuvem da infertilidade”, construída pela comunidade APF. A todos os que participaram, os nossos agradecimentos. O tamanho das palavras está relacionado com a frequência com que apareceram na nossa lista. Como podem constatar, nem tudo é negro na “Nuvem da Infertilidade”; também há clareiras e palavras com força positiva.
Desafio: Fica ainda o convite a todos os nossos amigos, para que copiem esta imagem, com link para o Blog APFertilidade. Vamos pôr a nossa nuvem a circular pelo ciberespaço, ilustrando os sentidos e as emoções da infertilidade.
PS: Deixem dp. comentário aqui, para fazermos uma visita ao vosso blog.
De férias…

Caras(os) amigas(os),
Os blogs são como as pessoas: também precisam de férias de vez em quando. Dentro de três semanas cá estaremos para retomar o diálogo, a (in)fertilidade e contribuir, na medida do possível, para trazer à luz do dia o quotidiano da nossa comunidade. No blog, como em tudo o que vamos conseguindo fazer, anima-nos a convicção de que é pela voz, pela escrita e pela presença que existimos, em todos os sentidos. Aos bloggers, especialmente, e a todos os que participaram com comentários, o nosso obrigado. Fica encontro marcado para muito breve! Até lá, fiquemos com ”Holiday”, da Madonna, um tema para quase todas as ocasiões: http://www.youtube.com/watch?v=0X7RyGBq2E8
APFertilidade
Ter filhos (1)
Um artigo na revista Newsweek (edição da segunda semana de Julho) resume alguns estudos recentes sobre a relação entre os índices de felicidade no casal e a existência de filhos. A maior parte dos estudos indica que os casais que têm filhos não apresentam maiores níveis de felicidade do que os casais sem filhos. Depreende-se pelo artigo que os casais que não têm filhos o fazem por opção e não por impossibilidade “clínica “. Para quem tem dificuldades em ter filhos, estes estudos podem parecer algo como as discussões sobre o sexo dos anjos, mas os resultados apresentados são sugestivos justamente pelo facto de mostrarem como é complexa e intrincada a percepção da felicidade e o modo por vezes perturbador como “ser” feliz se relaciona ou não com o “ter” filhos. A reportagem original pode ser lida aqui:
http://www.newsweek.com/id/143792
30 anos de FIV
«Conhece Louise Brown? E a sigla FIV? Pois Louise Brown, o primeiro ser humano concebido por FIV, faz hoje 30 anos. Desde então já nasceram mais de três milhões de bebés-proveta - e vêm aí mais revoluções… Lesley Brown tinha 32 anos; ela e o marido, John, andavam há anos a tentar ter filhos. Mas tal não era possível, porque Lesley tinha as trompas de Falópio - os tubinhos por onde os ovócitos viajam dos ovários até ao útero - bloqueadas. Em finais de 1977, dois médicos britânicos, Patrick Steptoe e Robert Edwards, especialistas em fertilidade, decidiram tentar algo de absolutamente pioneiro: uma fertilização in vitro.
No laboratório, colheram um ovócito nos ovários de Lesley e fertilizaram-no, fora do corpo de Lesley, com o esperma de John. Dessa maneira, numa “proveta”, foi concebido um embrião que a seguir implantaram no útero da jovem mulher.
Nove meses mais tarde, no hospital de Oldham, nos arredores de Manchester, nascia por cesariana, pouco antes da meia-noite de 25 de Julho de 1978, uma menina, Louise Joy, com dois quilos e 600 de peso. “Joy” significa “alegria” em inglês.
Ao longo desses nove meses, os médicos tentaram manter secreta a gravidez de Lesley. Mas não conseguiram: Louise tornou-se famosa no útero da mãe, que teve mesmo de se esconder temporariamente para fugir aos jornalistas “que a perseguiam por toda a cidade de Bristol”, onde morava, contou Edwards há dias à BBC. O próprio Steptoe (entretanto falecido), receoso de que o stress estivesse a pôr a gravidez em risco, escondeu-a no seu carro e levou-a para casa da mãe dele.
A prova da sensação que o caso provocou é que, quando Lesley deu finalmente entrada no hospital para ter a filha, os repórteres fizeram tudo para tentar ver a futura mãe - desde lançar um alerta de bomba para fazer evacuar as instalações até mascarar-se de empregados da limpeza. Nem os gémeos de Angelina Jolie e Brad Pitt suscitaram tal febre jornalística… Os primeiros instantes de vida de Louise foram filmados e o vídeo tornou-se famoso.
Olhando hoje para as fotografias de Louise e lendo os pormenores do seu percurso de vida, nada indica que a sua estreia na vida tenha sido algo de tão espectacular, de tão inédito - “milagroso” dizem alguns, “revolucionário”, contrapõem outros. Louise é uma pessoa de aparência banal com uma vida pacata e banal. Já trabalhou como funcionária dos correios de Bristol e como enfermeira numa escola. Casou-se e, há 18 meses, tornou-se por sua vez mãe de um menino, Cameron (concebido naturalmente).
A fertilização in vitro também ganhou em banalidade e passou a ser procedimento vulgar de procriação medicamente assistida. Poucos anos depois do nascimento de Louise, os seus pais tiveram, também por FIV, uma outra menina, Natalie. E hoje já são mais de três milhões os bebés-proveta concebidos por FIV a nível mundial. A FIV é tão comum na medicina actual que, segundo um artigo do New York Times, “quase todos os norte-americanos conhecem hoje uma família que poderia não ter existido sem a FIV ou uma das suas variantes.”
Na altura, porém, a mera existência de Louise, concebida em condições consideradas dignas da ficção científica, foi notícia no mundo inteiro e causou furor - tanto a favor como contra. Houve sectores religiosos que consideraram que os médicos estavam a brincar aos deuses e, também no New York Times, um editorialista comentou que “nunca tinha havido tanta ambivalência face a um avanço científico desde a invenção das armas nucleares”.
Uma coisa é certa: a entrada em cena da FIV significou uma revolução na medicina da reprodução e é considerada “como um dos mais notáveis avanços médicos do século XX”.»
Ler artigo completo no Público: http://jornal.publico.clix.pt/magoo/noticias.asp?a=2008&m=07&d=25&uid=&id=270024&sid=54367
IVF Fashion (Memórias)
E porque a vida é feita de memórias, iniciamos esta rúbrica com o slogan, criado pela nossa Sara, que fez furor no fórum quando ainda eramos API.
A imagem da infertilidade
«Esta é a minha imagem da infertilidade. Sim, quando esta foto foi tirada eu estava na lista de espera para um dos mais avançados tratamentos de fertilidade num dos mais conceituados hospitais do nosso planeta. Estávamos lá porque um médico do instituto “Silicon Valley” disse-nos que seria praticamente impossível conceber sem recorrer a procedimentos de alta tecnologia.
Enquanto brindava a mais um aniversário (na foto), secretamente estava a pensar que no aniversário seguinte estaria a segurar um bebé e não um copo de vinho na mão.
Naquele tempo de esperança e inocência (e quando ainda era loira) eu não tinha ideia nenhuma o quanto me iria apegar às imagens das ecografias a meio do ciclo. O embriologista aumentava ainda mais a minha esperança ao dizer-me que os meus embriões pareciam ser de uma mulher 10 anos mais nova. Eram “lindos”, dizia ela.
Quantos sonhos não associei a eles! E que difícil que era chegar tão perto da maternidade; passando com uma perna às costas todos os testes da medicina reprodutiva, mas chumbando o exame final! Entrei em negação nos anos que se seguiram. Ainda era jovem o suficiente para engravidar espontaneamente e, tendo sido educada na religião católica, ainda acreditava em milagres. Simplesmente não conseguia desligar-me da ideia que tínhamos chegado tão perto de criar os nossos filhos.
Apenas nestes últimos 18 meses é que decidi que estava na altura de finalmente abrir mão da esperança, enterrar o sonho e fazer o meu luto devidamente. Desde então tenho sentido de forma instintiva as emoções dolorosas que eu tinha fechado a sete chaves dentro de mim. Tem sido difícil. Nunca pensei que seria possível sentir uma tristeza tão profunda, mas houve tempo suficiente para essa tristeza ir crescendo dentro de mim. Já se passaram 12 anos desde que primeiro imaginei como seria conceber, estar grávida, e depois ver os olhos do meu marido ou o sorriso da minha mãe ou o humor do meu pai ter continuidade num filho meu. Agora estou a fechar um capítulo da minha vida.
Está na altura de olhar para a frente e não para trás (…) E para todas que ainda tentam engravidar, eu espero que compreendam que caso tenham sucesso ou não, é sempre possível apanhar os cacos e refazer a vida.»
http://coming2terms.com/2008/06/08/becoming-me.aspx
Pamela Tsigdinos, 44 anos, desistiu de tratamentos depois de longos anos a lutar contra a infertilidade, optando por uma vida sem filhos. Hoje ela dedica-se ao seu blog coming2terms, ajudando outros casais inférteis que “optaram” por uma vida sem filhos a lidar com as suas emoções.
Monsanto: Lendas e Festas da Antiguidade
«As ruelas tornam-se mais estreitas e quase capilares, aproximando as muralhas do castelo. Deste ponto alto da serra a aldeia é só já um conjunto de telhados incrustados em declive rochoso. Obeliscos graníticos irrompem na paisagem grandiosa. As serras, os vales e uma vista quase infinita sobre a terra e o céu, o espaço…
Pela porta arqueada do castelo, onde outrora existiu um fosso com ponte levadiça, segue a procissão. No pátio, o rancho folclórico inicia a penúltima fase deste ritual milenar. Ao som do acordeão, as bonecas marafonas não param de dançar.
Adoradas como símbolo, amuleto ou potestade, não há noiva que ao casar não a coloque sobre o leito na noite de núpcias. Funciona então como a deusa da fertilidade. Não tem olhos, nada vê do que se passa na cama. E se não tem olhos, como dizem com ironia as mulheres, não pode ver a «badalica» do noivo.
Não tem boca nem ouvidos, nada ouve, nada conta. Deidade silenciosa e cúmplice que, em troca do seu silêncio, garante a continuidade da família.
Ao fim de hora e meia extenuados, músicos, bonecas e mulheres dão por finda a actuação. Mais um lanço de escadas e o bezerro chega finalmente ao destino. A amurada mais alta do castelo. Num ri-tual pagão é dita a reza e agrupados junto à muralha os lançadores esperam o momento do arremesso. Em gritaria colectiva, os objectos rituais são atirados «borda fora» e, ao embaterem nas escarpas rochosas, quebram-se abandonando as flores ao vento.
Os adufes calam-se suavemente. Debaixo do braço das mulheres repousam no regresso a casa. Instrumento de origem árabe, toda a aldeã que se preze sabe executá-lo.
Adufe é isso: uma caixa musical cujo som vai bem ao modo do cantar das gentes da Beira Baixa e das melodias ritmadas, ao «jeito» da terra cantaroladas, para exaltar a Virgem Maria, a mulher desposada, o castelo da terra ou a Senhora do Almortão.
A brisa traz o aroma de churrasco. Está na hora de descer para a aldeia. O caminho torna-se mais fácil e a arquitectura mais definida.
A construção das habitações, térreas ou de um só piso, são de traço típico popular beirão e apresentam uniformidade de estilo. Sobressaem na paisagem morena os solares pertencentes à fidalguia. Nos pátios das casas de pedra que parecem nascer entre rochas e flores assam-se febras, frangos e bacalhau. O vinho não se faz por esperar. A euforia das festas continua tarde fora até ao anoitecer pelas ruas de Monsanto: O burgo mais português.»
Infertilidade: 7 vozes, 7 rostos
Pamela Tsigdinos, 44: «Para mim, com o avançar da idade, dou-me conta o quanto a infertilidade tem a ver com perder importantes acontecimentos da vida: o primeiro dia de escola, o Dia da Mãe (…) Todas as pequenas coisas que fazem parte do quotidiano da maioria das pessoas e que, para quem não pode ser filhos, são recordações do que nos faltam na vida.»
Barbara Collura, 44: «As pessoas dizem-nos para adoptar, mas a verdade é que demorou 2 anos, desde que paramos os tratamentos, para que o meu marido e eu tomássemos essa decisão.»
Rebecca Flick, 32: «A infertilidade é uma doença. Eu tenho uma doença. Essa doença não desaparece só porque tenho um bebé de 5 meses.»
Angela Cochran, 34 : «Eu sentia que estava a desiludir o meu marido cada vez que lhe dizia que não estava grávida. Mas ele não se sentia assim (…) Desde que comecei esta caminhada nunca mais perguntei às pessoas quando planeavam ter filhos.»
Susan Slotnick, 47: «A dor nunca desaparece, aprende-se a lidar com ela, como outras dores crónicas na vida. É difícil para quem passa por tratamentos de infertilidade ver a luz ao fundo do túnel, mas chega-se a uma solução. Quer através de tratamentos, quer através de adopção, ou mesmo optando por uma vida sem filhos. Decidirmos ser uma família de 2, foi uma boa solução para nós.»
Michelle Segar, 41: «Vamos experimentar isto, e depois outra coisa, e depois aparece um novo protocolo que se pode tentar. Sinto que as pessoas não são aconselhadas a irem mais devagar nas suas decisões (…) Depois de 2 anos de tratamentos, estávamos preparados para avançar por um novo caminho. Descobrimos que o que queríamos era sermos pais.»
Karen Abraham, 32: «Acho a Educação Sexual algo fantástico. No entanto, a maioria das raparigas não compreendem a realidade das variações que ocorrem no corpo da mulher (…) Nem todas têm ovulações ao 14º dia do ciclo, ou têm ovulações todos os meses e nem todas têm o período depois de 28 ou 30 dias.»
Oiçam estas vozes da infertilidade no New York Times
IVF Fashion
Um apelo à comunidade APFertilidade! Com tanta criatividade e imaginação que anda por aí, esta vossa fashion designer está a precisar de inspiração para a nova colecção. Enviam os vossos slogans para a nossa nova linha de t-shirts (in)férteis no blog. Publicaremos as t-shirts com os vossos slogans aqui no IVF Fashion. Conto convosco!
Fofoca (in)fértil
Hello Darlings!
Sabiam que beleza e sensualidade nem sempre são sinónimos de fertilidade? Peguemos no caso da lindíssima Cindy Margolis, modelo (ex-coelhinho Playboy), actriz (de Baywatch, se não me engano), apresentadora, escritora, enfim, “superstar”, que fala abertamente dos tratamentos a que se teve de submeter para conseguir os seus filhos.
Logo que casou com Guy Starkman, começaram as tentativas para construir uma família, mas todas infrutíferas. Os dois anos seguintes foram de grande tristeza para Cindy, com os meses a passarem sem sinais de gravidez. Depois de consultarem especialistas de infertilidade, vieram os tratamentos. A Cindy descreve esse tempo como ”de grande solidão e desespero”. Se isso não bastasse, a actriz também teve que encontrar formas de combater o aumento brusco de peso devido aos tratamentos. Ora, para quem vive da sua imagem, não deve ter sido nada fácil.
À 4ª FIV veio o tão desejado positivo! Mas o pior ainda estava para vir. A Cindy ao descrever a sua gravidez diz que por um lado era o tempo de “antecipação, optimismo e sonho”, mas por outro, significava “medo, insegurança e dúvidas”. Devido às numerosas complicações que colocavam em risco a vida do bebé, Cindy foi internada às 24 semanas, onde se manteve em repouso absoluto até ao fim da gravidez. Mas a dor, as orações e as lágrimas resultaram num milagre, com o nascimento do seu filho Nicholas Isaac. Depois de mais 3 tentativas de FIV e dos médicos desaconselharem uma nova gravidez devido aos riscos, a Cindy recorreu a uma “surrogate” (barriga de aluguer), algo comum na América, para aumentar a família. Esta nova ”gravidez” trouxe as suas filhas gémeas, Sabrina e Sierra, para completarem a família.
Hoje a Cindy dá a cara pela infertilidade, como porta-voz da RESOLVE. Diz ela: «Aqui na América damos tanta importância aos valores de família, no entanto as seguradoras não cobram todos os tratamentos de fertilidade. Algumas só cobram inseminações e a primeira ou segunda tentativa de FIV. Eu sujeitei-me a 7 FIVs.». Minha querida, desculpa lá, mas sempre é melhor do que cá em Portugal, onde as seguradoras nem reconhecem a infertilidade como uma doença.
Freakonomics
Medicine and Statistics Don’t Mix
Stevin D. Levitt - New York Times
Some friends of mine recently were trying to get pregnant with the help of a fertility treatment. At great financial expense, not to mention pain and inconvenience, six eggs were removed and fertilized. These six embryos were then subjected to Pre-Implantation Genetic Diagnosis (P.G.D.), a process which cost $5,000 all by itself.
The results that came back from the P.G.D. were disastrous.
Four of the embryos were determined to be completely non-viable. The other two embryos were missing critical genes/D.N.A. sequences which suggested that implantation would lead either to spontaneous abortion or to a baby with terrible birth defects.
The only silver lining on this terrible result is that the latter test had a false positive rate of 10 percent, meaning that there was a one-in-ten chance that one of those two embryos might be viable.
So the lab ran the test again. Once again the results came back that the critical D.N.A. sequences were missing. The lab told my friends that failing the test twice left only a 1 in 100 chance that each of the two embryos were viable.
My friends — either because they are optimists, fools, or perhaps know a lot more about statistics than the people running the tests — decided to go ahead and spend a whole lot more money to have these almost certainly worthless embryos implanted nonetheless.
Nine months later, I am happy to report that they have a beautiful, perfectly healthy set of twins.
The odds against this happening, according to the lab, were 10,000 to 1.
So what happened? Was it a miracle? I suspect not. Without knowing anything about the test, my guess is that the test results are positively correlated, certainly when doing the test twice on the same embryo, but probably across embryos from the same batch as well.
But, the doctors interpreted the test outcomes as if they were uncorrelated, which led them to be far too pessimistic. The right odds might be as high as 1 in 10, or maybe something like 1 in 30. (Or maybe the whole test is just nonsense and the odds were 90 percent!)
Anyway, this is just the latest example of why I never trust statistics I get from people in the field of medicine, ever.
My favorite story concerns my son Nicholas:
Relatively early on in the pregnancy we had an ultrasound. The technician said that although it was very early, he thought he could predict whether it would be a boy or a girl, if we wanted to know. We said, “Yes, absolutely we want to know.” He told us he thought it would be a boy, although he couldn’t be certain.
“How sure are you?” I asked
“I’m about 50-50,” he replied.










