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Voz emprestada: “O problema da demografia em Portugal”

Publicado em APFertilidade por APFertilidade em 18 Maio 2008

“O problema da demografia em Portugal”
Faranaz Keshavjee
[in: Público, 18 de Maio de 2008]

«Em sociedades que perpetuam modelos de estereotipia e assimetria de género é difícil promover a natalidade. O saldo natural negativo revelado pelo INE devia servir para reflectirmos mais como ter um futuro demográfico mais promissor. É que não há condições em Portugal para o incentivo à natalidade. As causas são estruturais mas também culturais. Mulheres que trabalham mais horas por dia do que o resto das mulheres europeias; com salários inferiores aos homens e em situações de precariedade; poucos apoios a creches; incremento de nados-mortos, provavelmente pelo trabalho excessivo e stressante das mulheres; e, para mais, a mentalidade dos homens que, apesar das transformações sociais, não se alterou.

Numa realidade fortemente patriarcal e masculina como a portuguesa, que não está preparada para lidar com os problemas da natalidade e da responsabilidade no nascimento e crescimento dos bebés, por razões culturais, não podemos esperar que sejam os homens a contribuir de forma eficaz para a resposta a estas preocupações. E o facto é que as decisões sobre as vidas das mulheres ainda são fruto de uma gestão predominantemente masculina.

Um dos aspectos apontados pelos demógrafos é o facto de os pais não ajudarem ou ajudarem pouco nas tarefas domésticas. Na realidade, este absentismo deve-se, sobretudo, a educarmos os nossos filhos para a compartimentação das suas tarefas mundanas. Desde pequeninos ouvimos pais aflitos se virem os rapazes a brincar com bonecas, quando afinal o que a criança faz é apenas reproduzir os modelos e referências familiares que recebe. Achamos que deviam brincar com carros e tractores, armas e super-heróis, serem activos, detestarem aspiradores, panelas e biberões. Quando crescem, estes mesmos rapazes, embora se tornem, muitos deles, excelentes nos papéis de pais e companheiros, eles são-no sem uma noção prática, experimentada, da interacção no espaço doméstico com a mulher e os filhos.»





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