Ponte da Misarela
“É uma ponte de arquitectura extravagante, louca, de um só arco, com mais de treze metros de vão, lançada com arrojo sobre dois rochedos, onde as águas do Rabagão se estreitam e despedaçam com fragor e saltam a grande altura, transformando-se em vaporosa chuva. O pavimento, abaúlado, mede 27 metros de comprimento. Fica no fundo de um desfiladeiro alcantilado, a um quilómetro da confluência do Rabagão com o Cávado. Tão medonho e agreste é o sítio e tão severo o aspecto da ponte, que a vivíssima imaginação do povo não tardou a tecer-lhe lendas.
Diz-se que um padre, querendo fazer uma pirraça ao Diabo, se disfarçou em salteador perseguido pelas justiças de Montalegre, e foi certo dia, à meia-noite, àquele lugar para passar o rio. Como o não pudesse passar, por meio de esconjuros, invocou o auxílio do Inimigo. Ouve-se um rumor subterrâneo e eis que aparece, afável e chamejante, o anjo rebelde:
- ‘Que queres de mim?’ - perguntou ele.
- ‘Passa-me para o outro lado e dar-te-ei a minha alma.’
Satanás, que antegozava já a perdição do sacerdote, estendeu-lhe um pedaço de pergaminho garatujado e uma pena molhada em saliva negra, dizendo:
- ‘Assina!’.
O padre assinou. O Demónio fez um gesto cabalístico e uma ponte saiu do seio horrendo das trevas.
O clérigo passa e, enquanto o diabo esfrega um olho, saca da caldeirinha da água benta, que escondera debaixo da capa de burel, e asparge com ela a infernal alvenaria, fazendo o sinal da cruz e pronunciando bem vincadas as palavras do exorcismo.
Lúcifer, logrado, deu um berro bestial e desapareceu num boqueirão aberto na rocha, por onde sairam línguas de fogo, estrondos vulcânicos e fumos pestilenciais. O vulgo das redondezas, na sua ignorância e ingenuidade, e não sabemos a origem, aproveitaa-se da ponte para ali exercer um rito singular.
Quando uma mulher, decorridos que sejam dezoito meses após o seu enlace matrimonial, não houver concebido, ou, quando pejada, se prevê um parto difícil ou perigoso, não tem mais que ir à Mizarela, à noite, para obter um feliz sucesso. Ali, com o marido e outros familiares, espera que passe o primeiro viandante. Este é então convidado para proceder à cerimónia, a qual consiste no baptismo in ventris do novo ou futuro ser. Para isso, o caminhante colhe, por meio de uma comprida corda com um vaso adaptado a uma das extremidades, um pouco de água do rio e com a mão em concha deita-a no ventre da paciente por um pequeno rasgão aberto no vestuário para este efeito, acompanhando a oração com a seguinte ladaínha:
Eu te baptizo
criatura de Deus,
Pelo poder de Deus,
e da Virgem Maria.
Se for rapaz, será ‘Gervás’;
se for rapariga, será Senhorinha.
Pelo poder de Deus e da Virgem Maria,
um Padre-Nosso e uma Avé-Maria.
O barulhar iracundo da cachoeira no abismo imprime a estas cenas um cunho de tétrica magia. Segue-se depois uma lauta ceia, assistindo, geralmente, o improvisado padrinho. E o êxito é completo: um neófito virá alegrar a família. Claro que se na primeira noite não passar o viandante desejado, a viagem à Mizarela repetir-se-á até o cerimonial se realizar nas condições devidas.
De um dos lados ergue-se um enorme rochedo que o povo denominou ‘Púlpito do Diabo’, por crer que o Demo vai ali pregar à meia-noite, quando as bruxas das redondezas se reunem em magno concílio…”
A ponte da Misarela em 360º (imagem lindíssima que dá parar rodar em 360º)
[excerto do romance histórico “O mutilado de Ruivães - Das invasões francesas às lutas civis”, de Mário Moutinho e A. Sousa e Silva, Braga, 1980]


22 Maio 2008 ás 9:56 am
Um post mágico…
22 Maio 2008 ás 11:42 pm
Coloquei este post porque também eu fiz a minha “peregrinação” à ponte da Miserela no verão antes de engravidar do Zezé, mas usei o pretexto que íamos pelo passeio e pela paisagem. Yeah right! Quando o desespero é tanto recorremos a tudo. Embora não cumprisse a tradição, fiz o meu próprio ritual. Estou bem ciente que foi a ciência que me trouxe o meu filho, mas aquele passeio trouxe-me a esperança. E, por vezes, é nas crenças, rituais, tradições que nos vamos abastecer com a esperança e a força que começam a escassear.
23 Maio 2008 ás 10:09 am
Quando vi o titulo deste post parei logo para o ler.
É que o meu marido farta-se de falar na Misarela, aliás anda a preparar um fim de semana para lá irmos. E agora ao ver este post fiquei a pensar se ele já conheceria esta história… e não posso deixar de sorrir.
Escusado será dizer que adorei e concordo completamente contigo, Anna. Podemos não ter a crença, mas recuperamos a esperança. E em última análise é ela que nos faz seguir em frente.
25 Novembro 2009 ás 7:16 am
é verdade. há seculos que esta “lenda“ é praticada pelas mulheres ansiosas por filhos. nas aldeias transmontanas, origem dos meus avós, me lembro claramente de a ouvir; minha avó teria hoje 115 anos e suas amigas da aldeia usaram esta cura.
no próximo verão minha irmã atravessará o atlântico com seu filho e nora para ajudar o casal que tanto espera encher os seus braços com o doce perfume dum bébé.