30 anos de FIV
«Conhece Louise Brown? E a sigla FIV? Pois Louise Brown, o primeiro ser humano concebido por FIV, faz hoje 30 anos. Desde então já nasceram mais de três milhões de bebés-proveta - e vêm aí mais revoluções… Lesley Brown tinha 32 anos; ela e o marido, John, andavam há anos a tentar ter filhos. Mas tal não era possível, porque Lesley tinha as trompas de Falópio - os tubinhos por onde os ovócitos viajam dos ovários até ao útero - bloqueadas. Em finais de 1977, dois médicos britânicos, Patrick Steptoe e Robert Edwards, especialistas em fertilidade, decidiram tentar algo de absolutamente pioneiro: uma fertilização in vitro.
No laboratório, colheram um ovócito nos ovários de Lesley e fertilizaram-no, fora do corpo de Lesley, com o esperma de John. Dessa maneira, numa “proveta”, foi concebido um embrião que a seguir implantaram no útero da jovem mulher.
Nove meses mais tarde, no hospital de Oldham, nos arredores de Manchester, nascia por cesariana, pouco antes da meia-noite de 25 de Julho de 1978, uma menina, Louise Joy, com dois quilos e 600 de peso. “Joy” significa “alegria” em inglês.
Ao longo desses nove meses, os médicos tentaram manter secreta a gravidez de Lesley. Mas não conseguiram: Louise tornou-se famosa no útero da mãe, que teve mesmo de se esconder temporariamente para fugir aos jornalistas “que a perseguiam por toda a cidade de Bristol”, onde morava, contou Edwards há dias à BBC. O próprio Steptoe (entretanto falecido), receoso de que o stress estivesse a pôr a gravidez em risco, escondeu-a no seu carro e levou-a para casa da mãe dele.
A prova da sensação que o caso provocou é que, quando Lesley deu finalmente entrada no hospital para ter a filha, os repórteres fizeram tudo para tentar ver a futura mãe - desde lançar um alerta de bomba para fazer evacuar as instalações até mascarar-se de empregados da limpeza. Nem os gémeos de Angelina Jolie e Brad Pitt suscitaram tal febre jornalística… Os primeiros instantes de vida de Louise foram filmados e o vídeo tornou-se famoso.
Olhando hoje para as fotografias de Louise e lendo os pormenores do seu percurso de vida, nada indica que a sua estreia na vida tenha sido algo de tão espectacular, de tão inédito - “milagroso” dizem alguns, “revolucionário”, contrapõem outros. Louise é uma pessoa de aparência banal com uma vida pacata e banal. Já trabalhou como funcionária dos correios de Bristol e como enfermeira numa escola. Casou-se e, há 18 meses, tornou-se por sua vez mãe de um menino, Cameron (concebido naturalmente).
A fertilização in vitro também ganhou em banalidade e passou a ser procedimento vulgar de procriação medicamente assistida. Poucos anos depois do nascimento de Louise, os seus pais tiveram, também por FIV, uma outra menina, Natalie. E hoje já são mais de três milhões os bebés-proveta concebidos por FIV a nível mundial. A FIV é tão comum na medicina actual que, segundo um artigo do New York Times, “quase todos os norte-americanos conhecem hoje uma família que poderia não ter existido sem a FIV ou uma das suas variantes.”
Na altura, porém, a mera existência de Louise, concebida em condições consideradas dignas da ficção científica, foi notícia no mundo inteiro e causou furor - tanto a favor como contra. Houve sectores religiosos que consideraram que os médicos estavam a brincar aos deuses e, também no New York Times, um editorialista comentou que “nunca tinha havido tanta ambivalência face a um avanço científico desde a invenção das armas nucleares”.
Uma coisa é certa: a entrada em cena da FIV significou uma revolução na medicina da reprodução e é considerada “como um dos mais notáveis avanços médicos do século XX”.»
Ler artigo completo no Público: http://jornal.publico.clix.pt/magoo/noticias.asp?a=2008&m=07&d=25&uid=&id=270024&sid=54367

