A esterilidade é uma doença, afinal?
Toda a gente sabe que a Clara Pinto Correia é infértil. Ela fez questão de o afirmar, de contar o seu historial de tratamentos, de mostrar o orgulho pelas duas crianças - dois irmãos - adoptados há já vários anos. Goste-se ou não de Clara Pinto Correia, foi uma das primeiras “figuras públicas” a “dar a cara” pela infertilidade, quando este assunto era pouco mais que um sussurro envergonhado nas esquinas de um sofrimento que se vivia sobretudo a dois.
Por tudo isto vale a pena recuperar um excerto de um texto da sua autoria. Pode até parecer exagerado, mas acreditem…era assim. É assim?
“[…] Em poucas palavras: as pessoas, por tendência intrínseca e hábito civilizacional, não tendem a considerar a esterilidade um problema médico como qualquer outro, tão digno de apoio e cuidado como qualquer outro. Já me fartei de dar este exemplo, mas há fins que justificam os meios e por isso desculpem a redundância. Mas é que se a gente come marisco duvidoso e passa a noite a vomitar todos os nossos entes queridos se desmultiplicam em solicitudes. Se a gente parte uma perna, toda a gente nos enche de mimos e nos decora o gesso de autógrafos. Se a gente é estéril, os mesmíssimos entes queridos desviam a conversa e nadam-nos ir adoptar uma criança e parar de choramingar. O dilema da esterilidade é mais que médico. É cultural. Podem não acreditar, mas se somos estéreis e só queríamos encostar a cabeça no ombro de alguém por uns segundos é extremamente difícil encontrar o dito ombro.”
25 Outubro 2008 ás 10:50 am
Em parte, ainda é assim… A parte de desviar a conversa acontece, ninguém quer falar disso… já aconteceu ser o meu marido a puxar a conversa em familia, e a resposta ser “lá estás tu a bater sempre na mesma tecla!!!” … ele queria falar, ele precisava de falar, e foi mandado calar… isto magoa muito… outra resposta comum, revela mais informação, e felizmente maior compreensão “então já pensaram em inseminação?” “já, já fizemos, falhou…” “aaahhh… mas vão conseguir vais ver…” esta é menos má, e vai aumentando, mas às vezes queria poder falar mais, contar como é que nos sentimos, as dificuldades… e isso ainda nos é vedado…
Tânia
25 Outubro 2008 ás 1:58 pm
Por incrível que pareça, penso que o cenário continua muito parecido ao descrito pela Clara _aliás, uma amiga que adoro, mesmo à distância, que já prefaciou um dos meus livros, muito me ajudou nas minhas pesquisas para o mestrado e, sobretudo, me ensinou a tratar a infertilidade com menos peso, com menos mágoa. Concordo com a Ana: a Clara tem um papel muito importante na “história da infertilidade”. A maneira como ela se expôs, fez que muitas outras mulheres “saíssem do armário” e compartilhassem sua dor. Eu, aqui no Brasil, fui uma delas. Um beijo e bom fim de semana para todas. Cláudia
26 Outubro 2008 ás 2:12 am
Tb. de acordo com a Tânia e a Cláudia: ao contrário de outras doenças, esta ainda causa desconforto e demasiado preconceito. É curioso a Cláudia referir que também na infertilidade é preciso “sair do armário”, como sucede com a comunidade lgbt. É de facto também uma saída socialmente muito marcada. E se a infertilidade já tem um certo “passado” em Portugal, faltam-nos mais pessoas com o desassombro da Clara Pinto Correia relativamente a estas questões. Tinha a ideia de que no Brasil a situação era um pouco mais aberta.
30 Outubro 2008 ás 11:53 pm
Não conhecia o texto e adorei.
Seria uma boa madrinha?
Ocorreu-me… chuva de ideias…
Beijinhos