(2) O Sonho de Kokopelli
(1) A história de Kokopelli
Kokopelli é um deus da fertilidade, originário dos povos nativos da América do Norte, geralmente representado como humilde tocador de flauta, com penas exuberantes na cabeça. Eis umas das muitas versões sobre a origem de Kokopelli, o deus que preside ao nascimento das crianças e também à fertilidade dos campos:
Voz com corpo…

“A voz da rádio” é uma daquelas expressões feitas que tendem a esconder o significado das palavras. A reportagem “Sementes de Esperança”, da autoria de Teresa Bizarro, na TSF, lembra-nos como a rádio pode de facto ser voz autêntica, uma voz absoluta, sem a dispersão causada pelas imagens que saturam o espaço mediático. É esta voz com corpo e respiração que se ouve ao escutarmos a Maria, o João, a Mafalda, a Gisela, a Kitty, o Pedro, a Filomena, e ainda outras vozes de médicos e psicólogos que nos últimos anos vêm lidando com a infertilidade em Portugal. Na memória fica o eco e os danos causados a muitas vidas suspensas: “somos tantos, porque tardam em olhar para nós?”; “esta doença foi deixada para trás”; “aí o mundo desabou”; “as mulheres culpabilizam-se muito”; “foi preciso bater no fundo para reencontrar o sentido da vida”; “perdem o sentido da existência”; “um coração que faz profissão de fé na ciência”; “passei a ver a infelicidade com outros olhos”…
A reportagem pode ser ouvida na íntegra aqui:
http://tsf.sapo.pt/programas/programa.aspx?content_id=917979
Citações (1): os filhos entre a economia e o afecto
«Em termos históricos, um filho era valorizado no sentido em que contribuía com o seu trabalho para a sobrevivência da tribo. À medida que a civilização evolui e entram em cena as relações monogâmicas, reguladas por autoridades civis e/ou religiosas, o papel e a importância dos filhos tornou-se mais complexo […] Com a Revolução Industrial, as mulheres e os filhos deixam progressivamente de constituir mão-de-obra potencial e são deslocados para a esfera doméstica. As leis que no início do século XX anunciam a proibição do trabalho infantil acabam por acelerar, um pouco por todo o mundo, uma mudança social de proporções monumentais: os filhos começam a ser valorizados pelos vínculos afectivos, pela companhia e pelo estímulo que proporcionam e as mulheres são ainda mais intimamente associadas à função maternal. Assim, à medida que os filhos deixam de ter um valor funcional e se tornam economicamente inúteis, em termos emocionais e afectivos, pelo contrário, tornam-se um bem precioso» (Linda Hammer Burns)
Histórias de Encantar
Matthew adorava ler livros antes de dormir. Aconchegava-se todas as noites à mãe ou ao pai ou a ambos, para ler um livro. Umas noites era uma história de piratas, outras noites de algum rei ou mesmo histórias de monstros.
Mas havia uma história que era a preferida de Matthew. A mãe dizia que também era a sua predilecta, o conto de encantar a família. Matthew adorava ouvir essa história.
- “Mamã?” perguntava Matthew
- “Diz”, respondia a mãe
- “Conta-me a nossa história preferida”
- “Está bem. Estás pronto?”
- “Sim!”
Assim começa o livro “Hope and Will have a Baby”, a história dum menino que descobre a luta e sucesso que os pais tiveram em criar a sua família, tendo recorrido à adopção de um embrião. Este título faz parte duma colecção de 4 livros, escritos por Iréné Celcer e ilustrados por Horácio Gatto, redigidos numa linguagem própria para crianças, de modo a explicar quatro caminhos diferentes para a concepção: doação de óvulos, de esperma, de embrião ou maternidade de substituição.
“Mãe há só duas”
«O que é que isto quer dizer? Que a lei, mesmo quando parece avançada e mesmo quando é objecto de contestação, não está a fazer engenharia social, mas sim a enquadrar situações que existem no terreno e que até nem são tão raras como se pensa. Isto não significa que elas devam ser aceites por esse facto – há comportamentos que a sociedade reprova e que não vai legalizar apenas pelo facto de serem comuns. Mas significa que um dos argumentos mais vezes avançados contra as leis socialmente mais liberais – o de que vão abrir uma caixa de Pandora com consequências imprevisíveis – não tem muitas vezes razão de ser. A caixa de Pandora, se existe, já foi aberta há muito e ninguém reparou.
Há outra coisa que decorre da abundância de situações deste tipo: houve tempo para realizar estudos e estudos com grupos de dimensão razoável e com um recuo temporal considerável – nomeadamente estudos sobre jovens adultos que cresceram em casas onde os pais eram duas pessoas do mesmo sexo (dois pais, duas mães) e que permitem extrair conclusões sobre o seu desenvolvimento geral e sobre uma das grandes interrogações: estes pais influenciam de alguma forma a identidade e a orientação sexual dos seus filhos?
‘Há muitos estudos feitos desde os anos 70, tanto no Reino Unido como nos Estados Unidos, sobre o desenvolvimento das crianças educadas por casais do mesmo sexo”, diz-nos Susan Golombok, directora do Centro de Investigação sobre a Família da Universidade de Cambridge e uma das autoridades mundiais em famílias lésbicas. “Nessa altura não se sabia nada sobre isto e estes estudos foram desencadeados por casos judiciais de custódia de crianças em casos de divórcio. Mais tarde, com a difusão do recurso a PMA por parte de casais de lésbicas, houve uma proliferação de estudos. E a verdade é que estas crianças – e estes jovens, porque nós seguimos as crianças até à idade adulta – não apresentam diferenças significativas em relação a quaisquer outras do ponto de vista do bem-estar psicológico, do comportamento, do ponto de vista do desenvolvimento do género, da identidade de género, quer, especificamente, do ponto de vista da sua orientação sexual. Não há mais homossexuais entre os jovens que foram educados por um casal homossexual do que na população em geral.’»
Excerto de um artigo de José Vitor Malheiros que vale a pena ler, aqui ou aqui.

