Gattaca: a vida como (a)caso

Gattaca (1997) é um filme de ficção científica, atravessado por um conjunto de motivos a um tempo inquietantes e envolventes: uma sociedade dividida em “válidos” e “inválidos”; a genética como desejo incontido de superação do ser pelo ser; a força oculta do destino, trocando as voltas às certezas da ciência; uma sucessão quase bíblica de encontros e desencontros entre dois irmãos; momentos acompanhados pela música etérea de Michael Nyman; actores que o futuro confirmaria, como Ethan Hawke ou Uma Thurman; a presença episódica de Gore Vidal, o escritor que levou mais longe que nenhum outro a ideia do acaso e da sorte. E muitas cenas memoráveis, como a de abertura:
“Costumava-se dizer que um filho concebido com amor tinha mais hipóteses de ser feliz. Hoje já não é assim. Nunca entendi por que razão a minha mãe deixou o destino nas mãos de Deus, em vez de se dirigir ao geneticista da área de residência. Antigamente bastavam 10 dedos nos pés e outros 10 nas mãos. Hoje, apenas alguns segundos depois do nascimento, ficamos a saber o dia e a causa exacta da nossa morte.»
