Votos de um Ano Novo muito Feliz

“The Newborn” (1920) / C. Brancusi (1876-1957)
Momentos (2): L. Cohen, sobre Kavafis
Voz emprestada: modelos familiares e parentalidade

«Logo a seguir à típica pergunta sobre o sexo do bebé que Catarina e Miguel esperavam, a questão de todos, sem excepção, era: “Quando é que se casam?” A resposta? “Nunca.” Os pais do pequeno Sebastião, de apenas um mês, nem querem ouvir falar nisso. “Não quero casar. Em termos fiscais não vejo benefícios, a nossa relação não se alterará em nada, não representa rigorosamente nada para nós”, diz Catarina Ribeiro, de 33 anos, para justificar a opção que tomou com o companheiro da mesma idade, apesar da “pressão” dos amigos e família.
O jovem casal que acabou de ter o primeiro filho está longe de ser caso único no país. Segundo os Indicadores Sociais de 2008 divulgados ontem pelo Instituto Nacional de Estatística (INE), o número de bebés nascidos fora do casamento disparou nos últimos anos: passou de cerca de um quarto do total de nascimentos em 2002 (25,5 por cento) para mais de um terço no ano passado (36,2 por cento). “É uma tendência consistente que vem na sequência da alteração do conceito de união na sociedade portuguesa. A família passou a ser concentrada nos aspectos afectivos e não nos aspectos institucionais”, explica Sofia Aboim, socióloga e investigadora no Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa. “As pessoas estão a construir a sua vida sem necessidade de um papel. A desconstrução do modelo de família tradicional é uma tendência consistente que se tem vindo a verificar já desde os anos 80. Diria até que a mudança se processou de forma mais intensa desde o ano 2000?, refere a investigadora.
A também socióloga Anália Torres, presidente da Associação Europeia de Sociologia, diz ao PÚBLICO que “as pessoas têm actualmente uma postura bastante pragmática relativamente às instituições, muito mais livre”. “Os estudos indicam que a coisa mais importante para as pessoas é a família. O seu conteúdo é que se torna bastante mais variável, menos ligado às instituições”, acrescenta a investigadora, que colaborou na fundamentação sociológica da nova lei do divórcio. “Isto faz parte de um processo de transformação dos modelos familiares mais vasto. Grande parte das pessoas que actualmente optam por não casar já foram casadas e pura e simplesmente não o querem fazer de novo, por uma série de motivos. Isso não significa que não queiram voltar a ter filhos. O casamento e a parentalidade podem estar descolados. Ter um filho acaba por ser um acto muito mais individual”, refere Anália Torres. “Antigamente, quando não existiam divórcios é que ter filhos era quase sinónimo de estar casado - agora não é assim.”
Antes da perspectiva da maternidade na vida de Catarina Ribeiro, ninguém lhe “reclamava” o casamento com Miguel. “A questão surgiu quando engravidei. As pessoas acham que tenho de casar porque tenho um filho”, conta a mãe de Sebastião. E acrescenta: “Ainda pensámos em fazer uma festa, para celebrar o facto de estarmos juntos, mas depressa abandonámos a ideia. Nem esse motivo nos fez dar esse passo.” Na opinião de Anália Torres, a adaptação da sociedade aos novos modelos familiares acontece de uma forma natural. “Os mais velhos percebem que tudo mudou relativamente ao seu tempo. As pessoas percebem que existe mais liberdade, que existem mudanças e apontam-nas como um aspecto positivo e não negativo”, refere.»
Boas Festas
“Não tive coragem para confessar que não estava grávida…”

“Não tive coragem para confessar que não estava grávida. Era a alegria de toda a família – do meu pai, que estava doente, e queria um neto.” Estas foram as palavras usadas há dias por Simone Ferreira, para justificar perante o Tribunal de Lousada um acto em si injustificável: o rapto de um bebé numa maternidade do Norte do país. Não é contudo um gesto que possamos ignorar, porque ele mostra como pode ser irreprimível o desejo de um filho. Um desejo que é simultaneamente de cada um e expectativa de todos, uma espécie de cobrança, por vezes tão violenta em si mesma que desespera o próprio desespero. Simone merece um ano de 2010 mais feliz; está arrependida, como de certo modo estamos todos nós.
Voz emprestada: sobre o congelamento de óvulos

A Sociedade Britânica de Fertilidade e a Associação dos Embriologistas Clínicos emitiram novas diretrizes na revista “Human Fertility” sobre a eficácia e a segurança do congelamento de óvulos para fins médicos. As orientações seguem uma profunda revisão das pesquisas publicadas em diferentes tecnologias utilizadas no congelamento de óvulos e apresentam uma série de recomendações clínicas a serem seguidas. As principais são:
1 - O congelamento de óvulos é uma tecnologia emergente com resultados iniciais promissores. O valor do congelamento de óvulos é atualmente limitado por vários fatores, incluindo o número de ovos que podem ser obtidos e as taxas de sucesso alcançado. Há necessidade de uma grande escala mais adequada de ensaios clínicos controlados para melhorar a nossa base de conhecimentos das técnicas mais eficazes.
2 - As mulheres que desejam congelar seus óvulos devem receber informações precisas sobre a segurança e as taxas de sucesso prováveis. Devem ser dadas orientações sobre os benefícios e as limitações do congelamento de óvulos, em comparação com outras opções. Atualmente, o maior sucesso é provavelmente por meio do embrião congelado, em vez do armazenamento de óvulos.
3 - Existem dois métodos principais de congelamento de ovos: resfriamento lento e vitrificação. Estudos iniciais indicam que a vitrificação pode produzir maiores taxas de sucesso do que o resfriamento lento. Mais estudos são necessários para confirmar a segurança dos produtos químicos utilizados para congelar os ovos e a eficiência da vitrificação.
4 - Para melhores resultados, óvulos maduros devem ser recolhidos após a estimulação ovariana, semelhante ao tratamento de FIV (Fertilização In Vitro). O tipo de estimulação ovariana utilizado deve ser ditado pelas necessidades de cada paciente. Por exemplo, as mulheres com câncer hormonodependente (alguns tipos de tumor de mama, por exemplo) podem preferir os tratamentos que minimizem a exposição ao estrogênio.
A diretriz assinala ainda que, até o momento, o congelamento de óvulos está indicado apenas para mulheres que vão se defrontar com uma futura infertilidade por conta de uma cirurgia, quimioterapia ou radioterapia. Não deve ser usado como opção de preservação da fertilidade tendo em vista apenas o declínio da idade.
O professor Adam Balen, da Sociedade Britânica de Fertilidade, é enfático em dizer: “As atuais taxas de gravidez usando óvulos descongelados são muito pequenas, em torno de 2%. É fundamental que haja mais pesquisas e o desenvolvimento de técnicas que aumentem a segurança e o sucesso do congelamento de óvulos.”
Essa é uma informação muito importante porque, no afã de conseguir clientes e aparecer na comunicação, há clínicas brasileiras vendendo gato por lebre. Ou seja, estimulando mulheres na faixa dos 30, que ainda não tem um parceiro, a congelar seus óvulos para que no futuro realizem o sonho da maternidade. Como vocês bem notaram nas diretrizes britânicas, a coisa não é bem assim. Entendo que, para uma mulher com chances reais de se tornar estéril por conta de uma doença, o congelamento de óvulo seja sua última esperança de maternidade. Dentro desse contexto, 2% de chance é melhor do que nada. É bem diferente da situação de uma mulher jovem e saudável, que pode ser induzida a acreditar que, congelando seus óvulos, seu passaporte futuro para maternidade estará garantido.
Em parceria com Claudia Collucci:
http://claudiacollucci.blog.uol.com.br/
Loreena McKennitt - Penelope’s Song
A pedido da Anna Pires:
Now that the time has come
Soon gone is the day
There upon some distant shore
You’ll hear me say
Long as the day in the summer time
Deep as the wine dark sea
I’ll keep your heart with mine.
Till you come to me.
There like a bird I’d fly
High through the air
Reaching for the sun’s full rays
Only to find you there
And in the night when our dreams are still
Or when the wind calls free
I’ll keep your heart with mine
Till you come to me
Now that the time has come
Soon gone is the day
There upon some distant shore
You’ll hear me say
Long as the day in the summer time
Deep as the wine dark sea
I’ll keep your heart with mine.
Till you come to me.
Voz emprestada: ICSI reduz nascimento de meninos

A técnica ICSI (injeção intracitoplasmática de espermatozoides)
O número de meninos concebidos pela técnica de reprodução assistida conhecida como ICSI pode ser inferior ao que é produzido pela “Mãe Natureza”, sugere um novo estudo. Em média, existem 105 meninos nascidos para cada 100 meninas _ uma vantagem natural que ajuda a equilibrar o fato de que os meninos morrem mais no primeiro ano de vida em relação às meninas.
Entre os mais de 15 mil bebês nascidos nos EUA em 2005, por meio de reprodução assistida, os pesquisadores descobriram que, entre aqueles que foram gerados por meio da ICSI, a taxa de meninos foi de menos de 50%. Já as meninas representaram 52,5% dos nascimentos em 2005, de acordo com os resultados publicados na revista “Fertility and Sterility”.
A ICSI é normalmente usada para tratar problemas de infertilidade masculina, como uma baixa contagem de espermatozoides ou espermatozoides de má qualidade. No entanto, às vezes, ela também é utilizada quando a causa da infertilidade do casal não é clara, e algumas clínicas de fertilidade optam pela utilização de ICSI para todos os pacientes.
As implicações dos resultados atuais não são claras, de acordo com os pesquisadores, liderados pela médica Barbara Lucas, da Michigan State University em East Lansing. Cerca de 1% dos nascimentos nos EUA é resultado das técnicas de reprodução assistida. Portanto, é improvável que os efeitos dessa diminuição dos nascimentos de meninos tenha “implicações importantes para a saúde pública”, avaliam os pesquisadores. Ainda assim, eles recomendam que a ICSI só seja feita se necessário em um esforço para evitar este efeito colateral em potencial
Em parceria com Claudia Collucci:
http://claudiacollucci.blog.uol.com.br/
