Voz emprestada: sobre o congelamento de óvulos

A Sociedade Britânica de Fertilidade e a Associação dos Embriologistas Clínicos emitiram novas diretrizes na revista “Human Fertility” sobre a eficácia e a segurança do congelamento de óvulos para fins médicos. As orientações seguem uma profunda revisão das pesquisas publicadas em diferentes tecnologias utilizadas no congelamento de óvulos e apresentam uma série de recomendações clínicas a serem seguidas. As principais são:
1 - O congelamento de óvulos é uma tecnologia emergente com resultados iniciais promissores. O valor do congelamento de óvulos é atualmente limitado por vários fatores, incluindo o número de ovos que podem ser obtidos e as taxas de sucesso alcançado. Há necessidade de uma grande escala mais adequada de ensaios clínicos controlados para melhorar a nossa base de conhecimentos das técnicas mais eficazes.
2 - As mulheres que desejam congelar seus óvulos devem receber informações precisas sobre a segurança e as taxas de sucesso prováveis. Devem ser dadas orientações sobre os benefícios e as limitações do congelamento de óvulos, em comparação com outras opções. Atualmente, o maior sucesso é provavelmente por meio do embrião congelado, em vez do armazenamento de óvulos.
3 - Existem dois métodos principais de congelamento de ovos: resfriamento lento e vitrificação. Estudos iniciais indicam que a vitrificação pode produzir maiores taxas de sucesso do que o resfriamento lento. Mais estudos são necessários para confirmar a segurança dos produtos químicos utilizados para congelar os ovos e a eficiência da vitrificação.
4 - Para melhores resultados, óvulos maduros devem ser recolhidos após a estimulação ovariana, semelhante ao tratamento de FIV (Fertilização In Vitro). O tipo de estimulação ovariana utilizado deve ser ditado pelas necessidades de cada paciente. Por exemplo, as mulheres com câncer hormonodependente (alguns tipos de tumor de mama, por exemplo) podem preferir os tratamentos que minimizem a exposição ao estrogênio.
A diretriz assinala ainda que, até o momento, o congelamento de óvulos está indicado apenas para mulheres que vão se defrontar com uma futura infertilidade por conta de uma cirurgia, quimioterapia ou radioterapia. Não deve ser usado como opção de preservação da fertilidade tendo em vista apenas o declínio da idade.
O professor Adam Balen, da Sociedade Britânica de Fertilidade, é enfático em dizer: “As atuais taxas de gravidez usando óvulos descongelados são muito pequenas, em torno de 2%. É fundamental que haja mais pesquisas e o desenvolvimento de técnicas que aumentem a segurança e o sucesso do congelamento de óvulos.”
Essa é uma informação muito importante porque, no afã de conseguir clientes e aparecer na comunicação, há clínicas brasileiras vendendo gato por lebre. Ou seja, estimulando mulheres na faixa dos 30, que ainda não tem um parceiro, a congelar seus óvulos para que no futuro realizem o sonho da maternidade. Como vocês bem notaram nas diretrizes britânicas, a coisa não é bem assim. Entendo que, para uma mulher com chances reais de se tornar estéril por conta de uma doença, o congelamento de óvulo seja sua última esperança de maternidade. Dentro desse contexto, 2% de chance é melhor do que nada. É bem diferente da situação de uma mulher jovem e saudável, que pode ser induzida a acreditar que, congelando seus óvulos, seu passaporte futuro para maternidade estará garantido.
Em parceria com Claudia Collucci:
http://claudiacollucci.blog.uol.com.br/
