Voz emprestada: modelos familiares e parentalidade

«Logo a seguir à típica pergunta sobre o sexo do bebé que Catarina e Miguel esperavam, a questão de todos, sem excepção, era: “Quando é que se casam?” A resposta? “Nunca.” Os pais do pequeno Sebastião, de apenas um mês, nem querem ouvir falar nisso. “Não quero casar. Em termos fiscais não vejo benefícios, a nossa relação não se alterará em nada, não representa rigorosamente nada para nós”, diz Catarina Ribeiro, de 33 anos, para justificar a opção que tomou com o companheiro da mesma idade, apesar da “pressão” dos amigos e família.
O jovem casal que acabou de ter o primeiro filho está longe de ser caso único no país. Segundo os Indicadores Sociais de 2008 divulgados ontem pelo Instituto Nacional de Estatística (INE), o número de bebés nascidos fora do casamento disparou nos últimos anos: passou de cerca de um quarto do total de nascimentos em 2002 (25,5 por cento) para mais de um terço no ano passado (36,2 por cento). “É uma tendência consistente que vem na sequência da alteração do conceito de união na sociedade portuguesa. A família passou a ser concentrada nos aspectos afectivos e não nos aspectos institucionais”, explica Sofia Aboim, socióloga e investigadora no Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa. “As pessoas estão a construir a sua vida sem necessidade de um papel. A desconstrução do modelo de família tradicional é uma tendência consistente que se tem vindo a verificar já desde os anos 80. Diria até que a mudança se processou de forma mais intensa desde o ano 2000?, refere a investigadora.
A também socióloga Anália Torres, presidente da Associação Europeia de Sociologia, diz ao PÚBLICO que “as pessoas têm actualmente uma postura bastante pragmática relativamente às instituições, muito mais livre”. “Os estudos indicam que a coisa mais importante para as pessoas é a família. O seu conteúdo é que se torna bastante mais variável, menos ligado às instituições”, acrescenta a investigadora, que colaborou na fundamentação sociológica da nova lei do divórcio. “Isto faz parte de um processo de transformação dos modelos familiares mais vasto. Grande parte das pessoas que actualmente optam por não casar já foram casadas e pura e simplesmente não o querem fazer de novo, por uma série de motivos. Isso não significa que não queiram voltar a ter filhos. O casamento e a parentalidade podem estar descolados. Ter um filho acaba por ser um acto muito mais individual”, refere Anália Torres. “Antigamente, quando não existiam divórcios é que ter filhos era quase sinónimo de estar casado - agora não é assim.”
Antes da perspectiva da maternidade na vida de Catarina Ribeiro, ninguém lhe “reclamava” o casamento com Miguel. “A questão surgiu quando engravidei. As pessoas acham que tenho de casar porque tenho um filho”, conta a mãe de Sebastião. E acrescenta: “Ainda pensámos em fazer uma festa, para celebrar o facto de estarmos juntos, mas depressa abandonámos a ideia. Nem esse motivo nos fez dar esse passo.” Na opinião de Anália Torres, a adaptação da sociedade aos novos modelos familiares acontece de uma forma natural. “Os mais velhos percebem que tudo mudou relativamente ao seu tempo. As pessoas percebem que existe mais liberdade, que existem mudanças e apontam-nas como um aspecto positivo e não negativo”, refere.»
