“A Igreja, a sexualidade e a bioética”
As crónicas do Padre Anselmo Borges continuam a ser dos melhores motivos para se comprar o “Diário de Notícias” aos Sábados. Podemos discordar (e discordo muitas vezes), mas a sua escrita alimenta a reflexão e, em dias como o de hoje, interroga o fundamento das posições da Igreja institucional. Ao comentar o livro “A Sexualidade, a Igreja e a Bioética. 40 anos de Humanae Vitae”, o Padre Anselmo Borges questiona o que terá “envenenado” a relação da Igreja com o corpo e a sexualidade, passando pela ideia de pecado original, pela imposição (oficial e tardia) do celibato e, importante para o que aqui interessa, sobre os limites incertos entre o que é biológico/natural e o que é artificial:
«Neste domínio da contracepção, o equívoco fundamental da encíclica Humanae Vitae encontra-se numa concepção de lei natural fixa, estática e centrada na biologia. Ora, por natureza, o ser humano é cultural e histórico e a própria realidade é processual. A sexualidade humana não pode ser vista apenas na sua vertente biológica. Como pode o Magistério fixar-se na biologia, esquecendo que, para ser verdadeiramente humana, a sexualidade envolve o biológico, o afectivo, a ternura, o amor, o espiritual? Por outro lado, na perspectiva bíblica, não criou Deus o Homem como criatura co-criadora? Não é o Homem, por natureza, interventivo, aperfeiçoador e transformador da natureza? Então, no juízo moral, o critério não pode ser o natural identificado com o bem e o artificial identificado com o mal, mas a responsabilidade digna e a dignidade responsável.»
Versão completa:
http://dn.sapo.pt/2008/11/29/opiniao/igreja_sexualidade_e_bioetica.html
A infertilidade no mundo

Em 2007 tive oportunidade de ouvir o especialista Willem Ombelet falar sobre a infertilidade nos países em desenvolvimento. Nessa ocasião desfilaram perante a plateia números assustadores, representações cruéis da infertilidade noutras culturas, dificuldades em acomodar os tratamentos de PMA em países com inúmeras carências económicas, a necessidade de planos específicos e de formação básica em medicina da reprodução. Ora, o “Jornal de Angola” anunciava há dias a entrada da PMA no país, dando conta da ajuda decisiva de uma equipa de médicos brasileiros. O relato mostra-nos evidentemente o drama pessoal da infertilidade, mas acrescenta ao universo que nos é familiar outras percepções, relacionadas com a localidade angolana. Um excerto:
«Ciúmes, tristezas, traições, divórcios e desavenças tomam conta de muitos lares por falta de um herdeiro. Domingos Fernando, 41 anos, é apenas um, no universo de muitos parceiros, que luta dia e noite para manter o casamento. A infertilidade acomete a sua esposa há onze anos. (…) Domingos Fernando disse que já recorreu a pelo menos cinco ou seis terapeutas tradicionais, mas o tratamento não resultou na concepção de mais um filho por parte de companheira. “Já fui a Viana, Rocha Pinto, atrás da FTU, 1º de Maio, até Benguela e, por um fio, iria ao Dombe Grande, porque não imagina o sentimento de culpa e a pressão que recebo da parte da mulher”, acrescentou. A companheira de Domingos sentiu-se ainda mais revoltada quando este fez outros filhos com uma outra mulher. De lá para cá, segundo Domingos, “a minha mulher diz que não ligo à situação dela e para evitar dissabores tive de reduzir à ida a segunda esposa”. Estas histórias dramáticas relacionadas, quer com a infertilidade masculina, quer com feminina, a partir dos próximos tempos, terão solução. Uma equipa de médicos brasileiros especializados em reprodução assistida está a fazer as malas rumo a Angola para trabalhar no “Projecto vida”.»
Ter filhos (2)
O Artº 16 da “Declaração Universal dos Direitos Humanos” (1948) afirma que todo o indivíduo tem direito a «casar e constituir família». Este direito, inscrito num texto que reflectia o espírito gregário do pós-Guerra, tem sido nas últimas décadas abordado de diversas formas, mas algo parece reunir o consenso: é extremamente difícil conceber a existência de um direito à procriação, pois trata-se de um terreno onde as questões políticas, simbólicas e pessoais se cruzam a todo o momento, de forma intensa e por vezes contraditória. Talvez por isso a pergunta sobre o direito de ter filhos seja tão frequente. Não só as pessoas e os casais são questionados enquanto indivíduos, como a própria procriação medicamente assistida (PMA) é por vezes posta em causa.
Boa parte desta oposição social e moral à PMA assenta em valores profundamente enraizados na sociedade. Estas atitudes e valores poderiam ser associados a um misto de comunitarismo conservador e de naturalismo essencial: as pessoas acreditam que a procriação humana é algo que acontece e deve continuar a acontecer naturalmente, no contexto da vida social e familiar. A PMA deveria ser recusada porque pretende “controlar” este mundo em que as coisas acontecem simplesmente, segundo os desígnios da natureza e do acaso. Em geral, as mesmas pessoas não pensam o mesmo relativamente a outras condições médicas. Por exemplo, seria impensável deixar a natureza seguir o seu curso perante um problema cardíaco ou perante uma alergia persistente.
(continua)
Viver a vida…

A aceleração contemporânea tem motivado nos últimos tempos várias reacções a favor da lentidão, do abrandamento e da apreciação demorada das pequenas&grandes coisas da vida. Dois exemplos, tirados mais ou menos ao acaso:
1 – The School of Life
Uma escola para ensinar a degustar, a apreciar e a praticar o que chamam “biblioterapia”
http://www.theschooloflife.com/about.aspx
2 – In Praise of Slowness
Um elogio da lentidão, de Carl Honore, contra o culto da velocidade. Destaca as vantagens do tempo lento na mesa, no trabalho, nas férias… e também na cama. Termina com um capítulo sobre como educar uma criança para não ser apressada/estressada.
http://www.amazon.com/Praise-Slowness-Challenging-Cult-Speed/dp/0060750510/ref=sr_1_1?ie=UTF8&s=books&qid=1220918585&sr=1-1
Ter filhos (1)
Um artigo na revista Newsweek (edição da segunda semana de Julho) resume alguns estudos recentes sobre a relação entre os índices de felicidade no casal e a existência de filhos. A maior parte dos estudos indica que os casais que têm filhos não apresentam maiores níveis de felicidade do que os casais sem filhos. Depreende-se pelo artigo que os casais que não têm filhos o fazem por opção e não por impossibilidade “clínica “. Para quem tem dificuldades em ter filhos, estes estudos podem parecer algo como as discussões sobre o sexo dos anjos, mas os resultados apresentados são sugestivos justamente pelo facto de mostrarem como é complexa e intrincada a percepção da felicidade e o modo por vezes perturbador como “ser” feliz se relaciona ou não com o “ter” filhos. A reportagem original pode ser lida aqui:
http://www.newsweek.com/id/143792
Manual para fazer um esteriótipo (infértil)
a) Teoria
«A Historia da Filosofia mostra que existe uma tendência universal para a generalização de todas as classes presentes do mundo real. Numa determinada classe de seres, apenas costumamos considerar um determinado factor distintivo, deixando o resto de parte, separado da “nossa” realidade.»
b) Prática
«Simone tinha consultas de infertilidade há meses naquela unidade de saúde e parece claro que conhecia os cantos à casa. No dia do sequestro, terá sido muito rápida a actuar. Terá demorado pouco mais de oito minutos nas instalações. Subiu ao piso 6 da maternidade e terá verificado, previamente, o procedimento de mudança de turno. Na maternidade, saiu e voltou a entrar. Cruzou-se com um médico, a quem saudou e que lhe retribuiu o cumprimento. Em segundos, levou o berço com o bebé de um casal de S. Miguel de Paredes, com o pretexto de fazer exames de rotina, empurrando o carrinho até ao elevador, mas optou por pegar nele ao colo e descer as escadas, acabando por sair pela porta principal, com ele escondido. O berço foi encontrado junto ao elevador.
Simone deslocou-se do hospital num carro de aluguer até Felgueiras, onde esteve escondida da família, no apartamento de um amigo, desde quarta-feira. Recorde-se que o seu companheiro deixou-a no hospital de Penafiel nesse dia, em que Simone disse que “daria à luz”. Cerca do meio-dia, telefonou para uma vizinha dizendo que tivera um menino mas que não podia receber visitas porque ia ser operada a quistos no Porto e só regressaria a casa no sábado. E foi no sábado, após ter sequestrado o bebé, às 14.20 horas, que se encontrou com o companheiro junto ao Centro de Saúde de Felgueiras.»
Jornal de Notícias – 19/06/2008
http://jn.sapo.pt/PaginaInicial/Policia/Interior.aspx?content_id=959462
c) Música para acompanhar
BLUR - “Stereotypes”
Album: The Great Escape (1996)
http://www.youtube.com/watch?v=fH5ve6kKqYA
As taxas de sucesso…
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As taxas de sucesso são algo “desumanas”, porque falam de pessoas que não existem tal e qual; e são ”monstruosas”, porque feitas de partes desiguais. Mas como nos “monstros” nocturnos da infância, é bom vê-los à luz do dia, para não assustarem à noite…
Vale a pena espreitar alguns números creditados pela entidade reguladora do Reino Unido (The Human Fertilisation and Embryology), relativos ao ano de 2005. Considerando todas as mulheres que fizeram FIV com óvulos próprios e em transferência de embriões frescos (abstraindo portanto de todos os outros factores) as taxas de sucesso foram as seguintes:
• 29.6% - mulheres com menos de 35 anos
• 23.6% - mulheres entre 35-37 anos
• 18.2% - mulheres entre 38-39 anos
• 10.0% - para mulheres entre 40-42 anos
• 3.2% - mulheres entre 43-44 anos
• 0.8% - para mulheres com mais de 44 anos
Ciência e maternidade
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«Numa das clínicas, a sala de operações estava muito afastada do laboratório; os óvulos recolhidos após punção eram transferidos numa incubadora igual à das unidades de neo-natologia. A incubadora era usada para possibilitar o transporte dos óvulos a uma temperatura estável e com o mínimo de perturbação entre a sala de operações e o laboratório. A incubadora tinha a vantagem de funcionar como uma unidade móvel de trabalho, dentro da qual se poderiam contar, seleccionar e fertilizar os óvulos. O uso algo extravagante de uma incubadora criava uma aura de cuidados maternais nesta clínica e até o pessoal técnico dizia que estavam “a alimentar e a mudar as fraldas aos bebés” (…) A criação de um ambiente maternal no laboratório dedicado aos embriões, contrastava com a entrada da ciência (instrumentos, técnicas e saberes) no corpo da mulher, nas fases anteriores do tratamento.»
In: Charis Thomson, Making Parents. The Ontological Choreography of Reproductive Technologies, MIT Press, 2005.
Num país perto de si..
Childless Women

Childless Women
SYLVIA PLATH
The womb
Rattles its pod, the moon
Discharges itself from the tree with nowhere to go.
My landscape is a hand with no lines,
The roads bunched to a knot,
The knot myself,
Myself the rose you achieve -
This body,
This ivory
Ungodly as a child’s shriek.
Spiderlike, I spin mirrors,
Loyal to my image,
Uttering nothing but blood -
Taste it, dark red!
And my forest
My funeral,
And this hill and this
Gleaming with the mouths of corpses.