Duas recomendações para o tempo presente
1. Recomendaçao para a instalação de centros de preservação da fertilidade no SNS para doentes sujeitos a terapêuticas do foro oncológico:
O CNPMA entende por bem manifestar de novo a sua posição relativamente à necessidade de instituir no SNS uma estrutura dedicada à preservação da fertilidade para doentes que venham a ser submetidos a terapêuticas do foro oncológico. Ler mais…
2. Recomendaçao para a instalação de um centro público para recrutamento, selecção e recolha, criopreservação e armazenamento de gâmetas de dadores terceiros:
O CNPMA renova a recomendação já várias vezes apresentada para que, o mais urgentemente possível, seja criado no SNS um centro público para recrutamento, selecção e recolha, criopreservação e armazenamento de gâmetas de dadores terceiros, que dê resposta cabal e consistentre a esta necessidade social. Ler mais…
Voz emprestada: modelos familiares e parentalidade

«Logo a seguir à típica pergunta sobre o sexo do bebé que Catarina e Miguel esperavam, a questão de todos, sem excepção, era: “Quando é que se casam?” A resposta? “Nunca.” Os pais do pequeno Sebastião, de apenas um mês, nem querem ouvir falar nisso. “Não quero casar. Em termos fiscais não vejo benefícios, a nossa relação não se alterará em nada, não representa rigorosamente nada para nós”, diz Catarina Ribeiro, de 33 anos, para justificar a opção que tomou com o companheiro da mesma idade, apesar da “pressão” dos amigos e família.
O jovem casal que acabou de ter o primeiro filho está longe de ser caso único no país. Segundo os Indicadores Sociais de 2008 divulgados ontem pelo Instituto Nacional de Estatística (INE), o número de bebés nascidos fora do casamento disparou nos últimos anos: passou de cerca de um quarto do total de nascimentos em 2002 (25,5 por cento) para mais de um terço no ano passado (36,2 por cento). “É uma tendência consistente que vem na sequência da alteração do conceito de união na sociedade portuguesa. A família passou a ser concentrada nos aspectos afectivos e não nos aspectos institucionais”, explica Sofia Aboim, socióloga e investigadora no Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa. “As pessoas estão a construir a sua vida sem necessidade de um papel. A desconstrução do modelo de família tradicional é uma tendência consistente que se tem vindo a verificar já desde os anos 80. Diria até que a mudança se processou de forma mais intensa desde o ano 2000?, refere a investigadora.
A também socióloga Anália Torres, presidente da Associação Europeia de Sociologia, diz ao PÚBLICO que “as pessoas têm actualmente uma postura bastante pragmática relativamente às instituições, muito mais livre”. “Os estudos indicam que a coisa mais importante para as pessoas é a família. O seu conteúdo é que se torna bastante mais variável, menos ligado às instituições”, acrescenta a investigadora, que colaborou na fundamentação sociológica da nova lei do divórcio. “Isto faz parte de um processo de transformação dos modelos familiares mais vasto. Grande parte das pessoas que actualmente optam por não casar já foram casadas e pura e simplesmente não o querem fazer de novo, por uma série de motivos. Isso não significa que não queiram voltar a ter filhos. O casamento e a parentalidade podem estar descolados. Ter um filho acaba por ser um acto muito mais individual”, refere Anália Torres. “Antigamente, quando não existiam divórcios é que ter filhos era quase sinónimo de estar casado - agora não é assim.”
Antes da perspectiva da maternidade na vida de Catarina Ribeiro, ninguém lhe “reclamava” o casamento com Miguel. “A questão surgiu quando engravidei. As pessoas acham que tenho de casar porque tenho um filho”, conta a mãe de Sebastião. E acrescenta: “Ainda pensámos em fazer uma festa, para celebrar o facto de estarmos juntos, mas depressa abandonámos a ideia. Nem esse motivo nos fez dar esse passo.” Na opinião de Anália Torres, a adaptação da sociedade aos novos modelos familiares acontece de uma forma natural. “Os mais velhos percebem que tudo mudou relativamente ao seu tempo. As pessoas percebem que existe mais liberdade, que existem mudanças e apontam-nas como um aspecto positivo e não negativo”, refere.»
Fatherhood Dreams
Fatherhood Dreams é um documentário canadiano sobre as chamadas famílias alternativas. Com realização de Julia Ivanova, inclui uma série de entrevistas a pais gays e lésbicos, singulares ou em vida conjunta, aos seus filhos, amigos e familiares:
Homossexualidade e parentalidade
Tem sido longo e acidentado o reconhecimento da comunidade homossexual. O activismo LGBT, a mudança progressiva de mentalidades, o contributo de estudos na área da Psicologia, da Sociologia e da Medicina têm vindo a produzir alterações legais em muitos países. Deste modo, a situação é hoje bem diferente do que era no início do séc. XX, para não recuar mais atrás. Tal não significa que o preconceito e a homofobia tenham desaparecido; longe disso. Se deixou de ser viável a acusação de doença ou perversão, existem ainda áreas de grande “sobressalto” público, como a possibilidade de os homossexuais serem pais ou de recorrerem à procriação medicamente assistida (o acesso à PMA é permitido a todas as mulheres em Espanha e proibido às mulheres singulares em Portugal). A questão só não é mais visível, porque nesta área é ainda mais difícil “sair do armário” e também porque historicamente a questão da parentalidade se coloca num segundo momento. Em Portugal assistimos à transição, porventura demasiado lenta, para este segundo momento histórico. A investigação recente de Vanessa Ramalho, realizada sob orientação científica do Psicólogo Eduardo Sá, vem confirmar entre nós a experiência de outras nações. Em síntese: partindo da análise de algumas dezenas de pais do mesmo sexo, a autora conclui que estes são «afectuosos, tranquilos, confiantes e firmes nas decisões», contrariamente ao que se especula. Quando os pais homossexuais decidem ter ou adoptar filhos, os inquéritos mostram que tendem a fazê-lo após um período de reflexão pessoal, com grande determinação. O que a investigação internacional nos diz também, em centenas de estudos e relatórios, é que o problema não está nos novos modelos familiares em si mesmos, mas no preconceito e na pressão que se geram à sua volta. Quando se comparam estas famílias com as heterossexuais, em vários aspectos críticos (qualidade da relação parental, medido em testes e inquéritos às próprias crianças; percurso escolar; atitude das crianças em relação à sexualidade; possível influência sobre a identidade sexual das crianças etc. etc.), o que aparece como mais difícil de gerir é portanto o que está fora de casa, não o que está dentro de casa. Dir-se-ia que o problema somos “nós”. Mesmo nos Estados Unidos, onde existem milhões de pais homossexuais, um dos aspectos que mais os preocupa é a escolha de um ambiente social tolerante e, com grande prioridade, de uma escola tolerante, como se pode ler aqui: “Is This the Right School for Us? A Guide to Assessing School Climates for LGBT Parents of Elementary-Aged Children.”
Beta positiva (1): CNPMA lança website

Foi apresentado há alguns meses o website do “Conselho Nacional de Procriação Medicamente Assistida” (CNPMA). Vale a pena assinalar a ocasião, pois este vem permitir ao cidadão comum, e muito especialmente a quem tem problemas de fertilidade, o acesso directo às actividades do CNPMA. Organizado em 5 grandes secções (Cidadãos, Profissionais, Legislação, CNPMA e Centros), o sítio é um contributo importante para a transparência que se deseja presente nos assuntos públicos. Numa área marcada por um défice crónico de regulação, a leitura das actas deste órgão e o registo das suas diversas actividades, promete-nos um contributo muito positivo para a ordenação da PMA em Portugal. Apesar das exigências demasiado minimalistas da actual legislação em matéria de critérios para a abertura de centros, a simples existência do CNPMA, a sua acção fiscalizadora e a produção de documentação como os modelos de consentimento informado são, no seu conjunto, um exemplo do que estava por fazer nesta área. Façamos votos para que os relatórios anuais de actividades, a pedir futuramente a cada centro, sejam ambiciosos e que os cidadãos possam dispor em Portugal de estatística e dados concretos sobre os tratamentos realizados em cada centro, as respectivas taxas de sucesso, os índices de satisfação dos seus clientes, a caracterização das instalações, a qualificação dos recursos humanos, entre outros elementos.
Disponível para consulta aqui: www.cnpma.org.pt
Citações (2): Havia uma mulher que não queria ter filhos de seu ventre
«Lugar 1 - nesse lugar havia uma mulher que não queria ter filhos de seu ventre. Pedia aos homens que lhe trouxessem os filhos de suas mulheres para educá-los numa grande casa de um só quarto e de uma só janela; usava um xaile preto junto de seu rosto; tinha uma maneira distante de fazer amor: pelos olhos e pela palavra. Também pelo tempo, pois desde os tempos de sua bisavó, voltar a qualquer época era sempre possível»
M. Gabriela Llansol, In: O Livro das Comunidades, Ed. Afrontamento, 1977, p. 11
Saberes transmitidos pela mãe…
Paula Remoaldo (Geógrafa) e Helena Machado (Socióloga) publicaram em 2008 um livro intitulado O Sofrimento Oculto. Causas, Cenários e Vivências da Infertilidade (Edições Afrontamento, 12 euros). Dividido em oito capítulos, o volume cruza assuntos tão diversos como a caracterização médica da infertilidade, os índices de natalidade, as questões jurídicas e sociais relacionadas com a infertilidade, encerrando com algumas páginas dedicadas à experiência e ao quotidiano dos tratamentos de PMA na região de Guimarães. Esta estrutura generalista não deixa de ser um sinal das compensações que ainda é necessário fazer num país pouco atento ao estudo da PMA. Neste sentido, as autoras têm o mérito de organizar e enquadrar o estado das coisas em Portugal. Um momento particularmente interessante neste estudo tem que ver com a representação social da infertilidade em contexto minhoto, especialmente quando se articula com as crenças e as tradições locais: «Em Portugal, mas ainda mais no Minho, ainda prevalece uma cultura que influencia a mulher a testar a sua fertilidade logo após o casamento.» (p. 75). As mães e as sogras influenciam muito os valores e as opções de vida, por vezes competindo directamente com as opiniões médicas. A infertilidade tende a ser atribuída à mulher, mesmo quando o homem é a principal causa. O Minho, sobretudo nos meios rurais e menos escolarizados, pede filhos logo na noite de núpcias, facto confirmado em inúmeros ditos populares:
. Mãe, que é casar? Filha é fiar, parir e chorar.
. Mal casada é a mulher que não pare.
. Muito filho, mãe gulosa!…
Quando apesar da pressão familiar a natureza não responde, sobra a peregrinação a São Gonçalo de Amarante, onde a mulher seria simbolicamente fecundada por um santo, ao roçar a barriga na estátua de S. Gonçalo.
Citações (1): os filhos entre a economia e o afecto
«Em termos históricos, um filho era valorizado no sentido em que contribuía com o seu trabalho para a sobrevivência da tribo. À medida que a civilização evolui e entram em cena as relações monogâmicas, reguladas por autoridades civis e/ou religiosas, o papel e a importância dos filhos tornou-se mais complexo […] Com a Revolução Industrial, as mulheres e os filhos deixam progressivamente de constituir mão-de-obra potencial e são deslocados para a esfera doméstica. As leis que no início do século XX anunciam a proibição do trabalho infantil acabam por acelerar, um pouco por todo o mundo, uma mudança social de proporções monumentais: os filhos começam a ser valorizados pelos vínculos afectivos, pela companhia e pelo estímulo que proporcionam e as mulheres são ainda mais intimamente associadas à função maternal. Assim, à medida que os filhos deixam de ter um valor funcional e se tornam economicamente inúteis, em termos emocionais e afectivos, pelo contrário, tornam-se um bem precioso» (Linda Hammer Burns)
“Mãe há só duas”
«O que é que isto quer dizer? Que a lei, mesmo quando parece avançada e mesmo quando é objecto de contestação, não está a fazer engenharia social, mas sim a enquadrar situações que existem no terreno e que até nem são tão raras como se pensa. Isto não significa que elas devam ser aceites por esse facto – há comportamentos que a sociedade reprova e que não vai legalizar apenas pelo facto de serem comuns. Mas significa que um dos argumentos mais vezes avançados contra as leis socialmente mais liberais – o de que vão abrir uma caixa de Pandora com consequências imprevisíveis – não tem muitas vezes razão de ser. A caixa de Pandora, se existe, já foi aberta há muito e ninguém reparou.
Há outra coisa que decorre da abundância de situações deste tipo: houve tempo para realizar estudos e estudos com grupos de dimensão razoável e com um recuo temporal considerável – nomeadamente estudos sobre jovens adultos que cresceram em casas onde os pais eram duas pessoas do mesmo sexo (dois pais, duas mães) e que permitem extrair conclusões sobre o seu desenvolvimento geral e sobre uma das grandes interrogações: estes pais influenciam de alguma forma a identidade e a orientação sexual dos seus filhos?
‘Há muitos estudos feitos desde os anos 70, tanto no Reino Unido como nos Estados Unidos, sobre o desenvolvimento das crianças educadas por casais do mesmo sexo”, diz-nos Susan Golombok, directora do Centro de Investigação sobre a Família da Universidade de Cambridge e uma das autoridades mundiais em famílias lésbicas. “Nessa altura não se sabia nada sobre isto e estes estudos foram desencadeados por casos judiciais de custódia de crianças em casos de divórcio. Mais tarde, com a difusão do recurso a PMA por parte de casais de lésbicas, houve uma proliferação de estudos. E a verdade é que estas crianças – e estes jovens, porque nós seguimos as crianças até à idade adulta – não apresentam diferenças significativas em relação a quaisquer outras do ponto de vista do bem-estar psicológico, do comportamento, do ponto de vista do desenvolvimento do género, da identidade de género, quer, especificamente, do ponto de vista da sua orientação sexual. Não há mais homossexuais entre os jovens que foram educados por um casal homossexual do que na população em geral.’»
Excerto de um artigo de José Vitor Malheiros que vale a pena ler, aqui ou aqui.
Sobre os riscos da FIV

Existe uma espécie de tabu quando se fala dos riscos da procriação medicamente assistida. Há já algum tempo que timidamente se especulava sobre os riscos da PMA, mas apenas com um estudo recentemente divulgado pelo New York Times, entre outros jornais, se tornou mais claro para o grande público a natureza e o grau dos problemas eventualmente causados, sobretudo pela utilização da FIV. O estudo em causa confirma um aumento dos problemas ao nível do aparelho digestivo, malformações do palato e do coração. Estes dados poderão, no caso inglês, obrigar os médicos a informarem os doentes, como parece resultar da acção da entidade reguladora local (Human Fertilisation and Embryology Authority). No entanto, antes de generalizações catastrofistas, vindas sobretudo dos que são contra toda e qualquer prática associada à PMA, vale a pena dizer que os riscos não só são muito pequenos, como não se sabe ainda se o motivo se deve à técnica da FIV em si mesma ou aos gâmetas das pessoas com problemas de fertilidade.
Condenado ao sucesso…
A Áustria alberga as coisas mais insuspeitas. A imagem acima reproduzida ilustra a campanha de marketing PROfertil, um medicamento destinado a melhorar a qualidade do esperma, anunciado com toda a pompa, acompanhado de estudos, testemunhos e endereços. A crer pela foto, PROfertil está condenado ao sucesso. Pode visitar o site original clicando (gentilmente) sobre a foto…
“A Igreja, a sexualidade e a bioética”
As crónicas do Padre Anselmo Borges continuam a ser dos melhores motivos para se comprar o “Diário de Notícias” aos Sábados. Podemos discordar (e discordo muitas vezes), mas a sua escrita alimenta a reflexão e, em dias como o de hoje, interroga o fundamento das posições da Igreja institucional. Ao comentar o livro “A Sexualidade, a Igreja e a Bioética. 40 anos de Humanae Vitae”, o Padre Anselmo Borges questiona o que terá “envenenado” a relação da Igreja com o corpo e a sexualidade, passando pela ideia de pecado original, pela imposição (oficial e tardia) do celibato e, importante para o que aqui interessa, sobre os limites incertos entre o que é biológico/natural e o que é artificial:
«Neste domínio da contracepção, o equívoco fundamental da encíclica Humanae Vitae encontra-se numa concepção de lei natural fixa, estática e centrada na biologia. Ora, por natureza, o ser humano é cultural e histórico e a própria realidade é processual. A sexualidade humana não pode ser vista apenas na sua vertente biológica. Como pode o Magistério fixar-se na biologia, esquecendo que, para ser verdadeiramente humana, a sexualidade envolve o biológico, o afectivo, a ternura, o amor, o espiritual? Por outro lado, na perspectiva bíblica, não criou Deus o Homem como criatura co-criadora? Não é o Homem, por natureza, interventivo, aperfeiçoador e transformador da natureza? Então, no juízo moral, o critério não pode ser o natural identificado com o bem e o artificial identificado com o mal, mas a responsabilidade digna e a dignidade responsável.»
Versão completa:
http://dn.sapo.pt/2008/11/29/opiniao/igreja_sexualidade_e_bioetica.html
A infertilidade no mundo

Em 2007 tive oportunidade de ouvir o especialista Willem Ombelet falar sobre a infertilidade nos países em desenvolvimento. Nessa ocasião desfilaram perante a plateia números assustadores, representações cruéis da infertilidade noutras culturas, dificuldades em acomodar os tratamentos de PMA em países com inúmeras carências económicas, a necessidade de planos específicos e de formação básica em medicina da reprodução. Ora, o “Jornal de Angola” anunciava há dias a entrada da PMA no país, dando conta da ajuda decisiva de uma equipa de médicos brasileiros. O relato mostra-nos evidentemente o drama pessoal da infertilidade, mas acrescenta ao universo que nos é familiar outras percepções, relacionadas com a localidade angolana. Um excerto:
«Ciúmes, tristezas, traições, divórcios e desavenças tomam conta de muitos lares por falta de um herdeiro. Domingos Fernando, 41 anos, é apenas um, no universo de muitos parceiros, que luta dia e noite para manter o casamento. A infertilidade acomete a sua esposa há onze anos. (…) Domingos Fernando disse que já recorreu a pelo menos cinco ou seis terapeutas tradicionais, mas o tratamento não resultou na concepção de mais um filho por parte de companheira. “Já fui a Viana, Rocha Pinto, atrás da FTU, 1º de Maio, até Benguela e, por um fio, iria ao Dombe Grande, porque não imagina o sentimento de culpa e a pressão que recebo da parte da mulher”, acrescentou. A companheira de Domingos sentiu-se ainda mais revoltada quando este fez outros filhos com uma outra mulher. De lá para cá, segundo Domingos, “a minha mulher diz que não ligo à situação dela e para evitar dissabores tive de reduzir à ida a segunda esposa”. Estas histórias dramáticas relacionadas, quer com a infertilidade masculina, quer com feminina, a partir dos próximos tempos, terão solução. Uma equipa de médicos brasileiros especializados em reprodução assistida está a fazer as malas rumo a Angola para trabalhar no “Projecto vida”.»
Ter filhos (2)
O Artº 16 da “Declaração Universal dos Direitos Humanos” (1948) afirma que todo o indivíduo tem direito a «casar e constituir família». Este direito, inscrito num texto que reflectia o espírito gregário do pós-Guerra, tem sido nas últimas décadas abordado de diversas formas, mas algo parece reunir o consenso: é extremamente difícil conceber a existência de um direito à procriação, pois trata-se de um terreno onde as questões políticas, simbólicas e pessoais se cruzam a todo o momento, de forma intensa e por vezes contraditória. Talvez por isso a pergunta sobre o direito de ter filhos seja tão frequente. Não só as pessoas e os casais são questionados enquanto indivíduos, como a própria procriação medicamente assistida (PMA) é por vezes posta em causa.
Boa parte desta oposição social e moral à PMA assenta em valores profundamente enraizados na sociedade. Estas atitudes e valores poderiam ser associados a um misto de comunitarismo conservador e de naturalismo essencial: as pessoas acreditam que a procriação humana é algo que acontece e deve continuar a acontecer naturalmente, no contexto da vida social e familiar. A PMA deveria ser recusada porque pretende “controlar” este mundo em que as coisas acontecem simplesmente, segundo os desígnios da natureza e do acaso. Em geral, as mesmas pessoas não pensam o mesmo relativamente a outras condições médicas. Por exemplo, seria impensável deixar a natureza seguir o seu curso perante um problema cardíaco ou perante uma alergia persistente.
(continua)
Viver a vida…

A aceleração contemporânea tem motivado nos últimos tempos várias reacções a favor da lentidão, do abrandamento e da apreciação demorada das pequenas&grandes coisas da vida. Dois exemplos, tirados mais ou menos ao acaso:
1 – The School of Life
Uma escola para ensinar a degustar, a apreciar e a praticar o que chamam “biblioterapia”
http://www.theschooloflife.com/about.aspx
2 – In Praise of Slowness
Um elogio da lentidão, de Carl Honore, contra o culto da velocidade. Destaca as vantagens do tempo lento na mesa, no trabalho, nas férias… e também na cama. Termina com um capítulo sobre como educar uma criança para não ser apressada/estressada.
http://www.amazon.com/Praise-Slowness-Challenging-Cult-Speed/dp/0060750510/ref=sr_1_1?ie=UTF8&s=books&qid=1220918585&sr=1-1
Ter filhos (1)
Um artigo na revista Newsweek (edição da segunda semana de Julho) resume alguns estudos recentes sobre a relação entre os índices de felicidade no casal e a existência de filhos. A maior parte dos estudos indica que os casais que têm filhos não apresentam maiores níveis de felicidade do que os casais sem filhos. Depreende-se pelo artigo que os casais que não têm filhos o fazem por opção e não por impossibilidade “clínica “. Para quem tem dificuldades em ter filhos, estes estudos podem parecer algo como as discussões sobre o sexo dos anjos, mas os resultados apresentados são sugestivos justamente pelo facto de mostrarem como é complexa e intrincada a percepção da felicidade e o modo por vezes perturbador como “ser” feliz se relaciona ou não com o “ter” filhos. A reportagem original pode ser lida aqui:
http://www.newsweek.com/id/143792
Manual para fazer um esteriótipo (infértil)
a) Teoria
«A Historia da Filosofia mostra que existe uma tendência universal para a generalização de todas as classes presentes do mundo real. Numa determinada classe de seres, apenas costumamos considerar um determinado factor distintivo, deixando o resto de parte, separado da “nossa” realidade.»
b) Prática
«Simone tinha consultas de infertilidade há meses naquela unidade de saúde e parece claro que conhecia os cantos à casa. No dia do sequestro, terá sido muito rápida a actuar. Terá demorado pouco mais de oito minutos nas instalações. Subiu ao piso 6 da maternidade e terá verificado, previamente, o procedimento de mudança de turno. Na maternidade, saiu e voltou a entrar. Cruzou-se com um médico, a quem saudou e que lhe retribuiu o cumprimento. Em segundos, levou o berço com o bebé de um casal de S. Miguel de Paredes, com o pretexto de fazer exames de rotina, empurrando o carrinho até ao elevador, mas optou por pegar nele ao colo e descer as escadas, acabando por sair pela porta principal, com ele escondido. O berço foi encontrado junto ao elevador.
Simone deslocou-se do hospital num carro de aluguer até Felgueiras, onde esteve escondida da família, no apartamento de um amigo, desde quarta-feira. Recorde-se que o seu companheiro deixou-a no hospital de Penafiel nesse dia, em que Simone disse que “daria à luz”. Cerca do meio-dia, telefonou para uma vizinha dizendo que tivera um menino mas que não podia receber visitas porque ia ser operada a quistos no Porto e só regressaria a casa no sábado. E foi no sábado, após ter sequestrado o bebé, às 14.20 horas, que se encontrou com o companheiro junto ao Centro de Saúde de Felgueiras.»
Jornal de Notícias – 19/06/2008
http://jn.sapo.pt/PaginaInicial/Policia/Interior.aspx?content_id=959462
c) Música para acompanhar
BLUR - “Stereotypes”
Album: The Great Escape (1996)
http://www.youtube.com/watch?v=fH5ve6kKqYA
As taxas de sucesso…
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As taxas de sucesso são algo “desumanas”, porque falam de pessoas que não existem tal e qual; e são ”monstruosas”, porque feitas de partes desiguais. Mas como nos “monstros” nocturnos da infância, é bom vê-los à luz do dia, para não assustarem à noite…
Vale a pena espreitar alguns números creditados pela entidade reguladora do Reino Unido (The Human Fertilisation and Embryology), relativos ao ano de 2005. Considerando todas as mulheres que fizeram FIV com óvulos próprios e em transferência de embriões frescos (abstraindo portanto de todos os outros factores) as taxas de sucesso foram as seguintes:
• 29.6% - mulheres com menos de 35 anos
• 23.6% - mulheres entre 35-37 anos
• 18.2% - mulheres entre 38-39 anos
• 10.0% - para mulheres entre 40-42 anos
• 3.2% - mulheres entre 43-44 anos
• 0.8% - para mulheres com mais de 44 anos
Ciência e maternidade
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«Numa das clínicas, a sala de operações estava muito afastada do laboratório; os óvulos recolhidos após punção eram transferidos numa incubadora igual à das unidades de neo-natologia. A incubadora era usada para possibilitar o transporte dos óvulos a uma temperatura estável e com o mínimo de perturbação entre a sala de operações e o laboratório. A incubadora tinha a vantagem de funcionar como uma unidade móvel de trabalho, dentro da qual se poderiam contar, seleccionar e fertilizar os óvulos. O uso algo extravagante de uma incubadora criava uma aura de cuidados maternais nesta clínica e até o pessoal técnico dizia que estavam “a alimentar e a mudar as fraldas aos bebés” (…) A criação de um ambiente maternal no laboratório dedicado aos embriões, contrastava com a entrada da ciência (instrumentos, técnicas e saberes) no corpo da mulher, nas fases anteriores do tratamento.»
In: Charis Thomson, Making Parents. The Ontological Choreography of Reproductive Technologies, MIT Press, 2005.
Num país perto de si..
Childless Women

Childless Women
SYLVIA PLATH
The womb
Rattles its pod, the moon
Discharges itself from the tree with nowhere to go.
My landscape is a hand with no lines,
The roads bunched to a knot,
The knot myself,
Myself the rose you achieve -
This body,
This ivory
Ungodly as a child’s shriek.
Spiderlike, I spin mirrors,
Loyal to my image,
Uttering nothing but blood -
Taste it, dark red!
And my forest
My funeral,
And this hill and this
Gleaming with the mouths of corpses.



