A minha vida secreta

“Não SOU adoptada; as minhas origens são misteriosas.”
Como pessoa que foi adoptada, repeti esta frase inúmeras vezes ao longo da minha vida. Gosto tanto dela que a coloquei na boca de uma personagem no romance que estou agora a escrever. Tanto a personagem como eu própria temos orgulho nesta afirmação. Imaginamo-nos a viver nas páginas densas da ficção do século XIX, uma época em que a questão da origem – saber quem era o pai e a mãe – não era tão importante quanto as “circunstâncias” de cada um de nós.
Alguns dirão que cheguei a esta conclusão porque até há pouco desconhecia tudo o que rodeou a minha adopção. Mesmo a data da sua ocorrência era um segredo. (A funcionária disse-me ao telefone, “Esses são dados reservados”; e eu perguntei “Sei que não os posso ver, mas posso ao menos saber a data que consta nos registos?”. Ela responde: “Até isso está selado” – uma declaração perturbadora, pois fazia-me imaginar uma sucessão infinita de envelopes dentro de outros envelopes.
Claro, ter origens misteriosas é um assunto complicado nos dias que correm. Uma pessoa pode ser gerada num ventre desconhecido e os genes serem uma combinação entre os nossos pais e uma estranha; o ventre materno pode até misturar apenas os genes da mãe com os de um estranho – para não falar no caso dos irmãos desconhecidos que podem andar por aí, após uma doação de esperma. Existem pais adoptivos e pais biológicos, mães gestacionais e dadores de gâmetas – toda uma diversidade de adultos que podem reclamar a paternidade/maternidade com base no sangue, nos genes, no nascimento, na lei ou no afecto.
Temos direito a conhecer estas pessoas todas? Se assim for, terão estas pessoas também o direito recíproco de conhecer as crianças em cujo nascimento participaram?
Não vou sequer tentar responder a estas perguntas. Parece que estamos destinados a ter uma longa conversa sobre este assunto nos anos que aí vêm. É certo que tudo aponta para uma maior abertura, para um “direito” em conhecer. Não sou contra esta tendência. Apenas quero dar ao desconhecimento a atenção que lhe é devida.
Gosto de mistérios. Gosto do sentido absolutamente singular que advém de termos uma origem desconhecida (por mais falso que esse sentido possa ser). Tenho uma amiga próxima que também é adoptada. Trocámos umas ideias quando considerámos a possibilidade de inscrevermos os nossos nomes no registo de adopção do Estado de Nova Iorque, onde poderíamos saber algo mais sobre o nosso passado.
A minha amiga cresceu numa pequena vila perto de uma universidade. Ela tinha inventado para si própria uma fantasia satisfatória, segundo a qual a mãe e o pai tinham estado na vila como bolseiros do Banco Mundial, desempenhavam os papéis de “rei” e “rainha”, numa região remota em que toda a gente gozava de boa saúde e sobrevivia em regime dietético, baseado em iogurte de iaque, até aos 110 anos de idade. Ela decidiu não avançar com o registo. “Para mim uma família é mais do que suficiente”, disse-me.
As minhas fantasias eram mais difusas: o conjunto de pais incluía uma actriz, músicos populares, escritores e intelectuais. Tenho a certeza de que nenhum deles era como os especialistas em computação e ciência que correm nas veias da família do meu pai adoptivo. Creio que é por sua causa, por causa do exemplo destes engenheiros e professores de matemática, que eu própria entrei para engenharia informática, um campo para o qual não tenho uma inclinação natural (era suficientemente boa, mas tive de estudar bastante). Se eu tivesse sido educada por sonhadores compulsivos - escritores, leitores ou os que escrevem cartas sem fim – pessoas que certamente incluíram os meus pais “naturais”, jamais teria passado vinte anos como programadora de computadores.
E este é exactamente o meu ponto. Imagino logo a minha mãe biológica percorrendo as páginas de “Daniel Deronda” (Livro V, “Mordecai”), de George Eliot, dizendo “Querida, andas para aí a lutar com esses programas austeros e ainda nem leste ‘Middlemarch’”. E assim eu teria desistido precocemente de tentar o meu algoritmo da sorte, tal como teria passado ao lado da profissão que define a época em que vivemos.
Ninguém é o equivalente genético dos seus pais. A Natureza deu-se ao trabalho de garantir que somos diferentes (mais uma boa razão para lutarmos contra a hipótese de juntar a clonagem ao leque das opções parentais). Através do milagre da recombinação genética, cada filho, com excepção de um gémeo monozigótico, constitui-se como um indivíduo único. Até o ambiente do ventre materno opera as suas subtilezas, de modo que quando nos confrontamos com a luz do dia, estamos já por nossa conta. Conhecer cada um dos nossos antepassados jamais resolverá o mistério mais profundo, justamente o insondável que é conhecer aquilo que um dia seremos.
New York Times, 1 de Janeiro de 2009
http://www.nytimes.com/2009/01/02/opinion/02ullman.html?_r=1
[Ellen Ullman é autora de diversos livros de programação informática e de dois romances]
A tradução é do Marco, no Fórum APFertilidade:
http://forum.apfertilidade.org/phpBB2/viewtopic.php?t=22272
“A Igreja, a sexualidade e a bioética”
As crónicas do Padre Anselmo Borges continuam a ser dos melhores motivos para se comprar o “Diário de Notícias” aos Sábados. Podemos discordar (e discordo muitas vezes), mas a sua escrita alimenta a reflexão e, em dias como o de hoje, interroga o fundamento das posições da Igreja institucional. Ao comentar o livro “A Sexualidade, a Igreja e a Bioética. 40 anos de Humanae Vitae”, o Padre Anselmo Borges questiona o que terá “envenenado” a relação da Igreja com o corpo e a sexualidade, passando pela ideia de pecado original, pela imposição (oficial e tardia) do celibato e, importante para o que aqui interessa, sobre os limites incertos entre o que é biológico/natural e o que é artificial:
«Neste domínio da contracepção, o equívoco fundamental da encíclica Humanae Vitae encontra-se numa concepção de lei natural fixa, estática e centrada na biologia. Ora, por natureza, o ser humano é cultural e histórico e a própria realidade é processual. A sexualidade humana não pode ser vista apenas na sua vertente biológica. Como pode o Magistério fixar-se na biologia, esquecendo que, para ser verdadeiramente humana, a sexualidade envolve o biológico, o afectivo, a ternura, o amor, o espiritual? Por outro lado, na perspectiva bíblica, não criou Deus o Homem como criatura co-criadora? Não é o Homem, por natureza, interventivo, aperfeiçoador e transformador da natureza? Então, no juízo moral, o critério não pode ser o natural identificado com o bem e o artificial identificado com o mal, mas a responsabilidade digna e a dignidade responsável.»
Versão completa:
http://dn.sapo.pt/2008/11/29/opiniao/igreja_sexualidade_e_bioetica.html
A infertilidade no mundo

Em 2007 tive oportunidade de ouvir o especialista Willem Ombelet falar sobre a infertilidade nos países em desenvolvimento. Nessa ocasião desfilaram perante a plateia números assustadores, representações cruéis da infertilidade noutras culturas, dificuldades em acomodar os tratamentos de PMA em países com inúmeras carências económicas, a necessidade de planos específicos e de formação básica em medicina da reprodução. Ora, o “Jornal de Angola” anunciava há dias a entrada da PMA no país, dando conta da ajuda decisiva de uma equipa de médicos brasileiros. O relato mostra-nos evidentemente o drama pessoal da infertilidade, mas acrescenta ao universo que nos é familiar outras percepções, relacionadas com a localidade angolana. Um excerto:
«Ciúmes, tristezas, traições, divórcios e desavenças tomam conta de muitos lares por falta de um herdeiro. Domingos Fernando, 41 anos, é apenas um, no universo de muitos parceiros, que luta dia e noite para manter o casamento. A infertilidade acomete a sua esposa há onze anos. (…) Domingos Fernando disse que já recorreu a pelo menos cinco ou seis terapeutas tradicionais, mas o tratamento não resultou na concepção de mais um filho por parte de companheira. “Já fui a Viana, Rocha Pinto, atrás da FTU, 1º de Maio, até Benguela e, por um fio, iria ao Dombe Grande, porque não imagina o sentimento de culpa e a pressão que recebo da parte da mulher”, acrescentou. A companheira de Domingos sentiu-se ainda mais revoltada quando este fez outros filhos com uma outra mulher. De lá para cá, segundo Domingos, “a minha mulher diz que não ligo à situação dela e para evitar dissabores tive de reduzir à ida a segunda esposa”. Estas histórias dramáticas relacionadas, quer com a infertilidade masculina, quer com feminina, a partir dos próximos tempos, terão solução. Uma equipa de médicos brasileiros especializados em reprodução assistida está a fazer as malas rumo a Angola para trabalhar no “Projecto vida”.»
Música às segundas…
Lady Saw
“No Less Than a Women”
NB: Lady Saw escreveu esta música especialmente para as mulheres que têm dificuldades em ter filhos.
Voz emprestada: teste de fertilidade
«Especialistas em fertilidade da Universidade de Sheffield, na Inglaterra, desenvolveram um teste que prevê quanto tempo de fertilidade as mulheres ainda têm pela frente. O teste mede o número de óvulos nos ovários femininos e indica qual deve ser o nível dele dentro de dois anos. O exame já está disponível em serviços de saúde da Europa e dos EUA, com o nome de “Plan Ahead Test” (Planeje com Antecedência, em tradução literal). Veja o site do produto http://www.early-pregnancy-tests.com/planahead-test.html
O especialista em fertilidade Bill Ledger, que desenvolveu o kit para o exame, disse que está confiante de que o teste é uma previsão exata da fertilidade, e que ele espera que permita às mulheres planejar melhor seu futuro e decidir por quanto tempo elas podem adiar a decisão de ter um filho. “Se ter uma família é a coisa mais importante, é melhor você começar a tentar ter filhos na faixa dos 20 anos – não há dúvidas de que quanto mais você adia, maior a chance de decepção”, disse ele.»
Continua aqui: http://claudiacollucci.blog.uol.com.br/
A esterilidade é uma doença, afinal?
Toda a gente sabe que a Clara Pinto Correia é infértil. Ela fez questão de o afirmar, de contar o seu historial de tratamentos, de mostrar o orgulho pelas duas crianças - dois irmãos - adoptados há já vários anos. Goste-se ou não de Clara Pinto Correia, foi uma das primeiras “figuras públicas” a “dar a cara” pela infertilidade, quando este assunto era pouco mais que um sussurro envergonhado nas esquinas de um sofrimento que se vivia sobretudo a dois.
Por tudo isto vale a pena recuperar um excerto de um texto da sua autoria. Pode até parecer exagerado, mas acreditem…era assim. É assim?
“[…] Em poucas palavras: as pessoas, por tendência intrínseca e hábito civilizacional, não tendem a considerar a esterilidade um problema médico como qualquer outro, tão digno de apoio e cuidado como qualquer outro. Já me fartei de dar este exemplo, mas há fins que justificam os meios e por isso desculpem a redundância. Mas é que se a gente come marisco duvidoso e passa a noite a vomitar todos os nossos entes queridos se desmultiplicam em solicitudes. Se a gente parte uma perna, toda a gente nos enche de mimos e nos decora o gesso de autógrafos. Se a gente é estéril, os mesmíssimos entes queridos desviam a conversa e nadam-nos ir adoptar uma criança e parar de choramingar. O dilema da esterilidade é mais que médico. É cultural. Podem não acreditar, mas se somos estéreis e só queríamos encostar a cabeça no ombro de alguém por uns segundos é extremamente difícil encontrar o dito ombro.”
Há momentos em que a gente se lembra da Deolinda…
Agora sim, damos a volta a isto!
Agora sim, há pernas para andar!
Agora sim, eu sinto o optimismo!
Vamos em frente, ninguém nos vai parar!
Agora não, que é hora do almoço…
Agora não, que é hora do jantar…
Agora não, que eu acho que não posso…
Amanhã vou trabalhar…
Agora sim, temos a força toda!
Agora sim, há fé neste querer!
Agora sim, só vejo gente boa!
Vamos em frente e havemos vencer!
Agora não, que me dói a barriga…
Agora não, dizem que vai chover…
Agora não, que joga o Benfica…
e eu tenho mais que fazer…
Agora sim, cantamos com vontade!
Agora sim, eu sinto a união!
Agora sim, já ouço a liberdade!
Vamos em frente, é esta a direcção!
Agora não, que falta um impresso…
Agora não, que o meu pai não quer…
Agora não, que há engarrafamentos…
Vão sem mim, que eu vou lá ter…
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Porque é que queremos ter filhos?
Há cerca de um ano coloquei no Fórum da APFertilidade a seguinte pergunta: “Porque é que queremos ter filhos?”. Esta é talvez a questão mais importante para nos ajudar a traçar o caminho a seguir. Eis as vossas respostas, transformadas nesta nuvem. Lanço então novo desafio: Será que algo mudou neste último ano? Serão estes ainda os mesmos motivos por que queremos ter filhos? Convido-vos a deixarem aqui o vosso comentário com as razões que vos levam a querer um filho, para assim ajustarmos (ou não!) a nuvem de Outubro, fazendo-a circular novamente pelo ciberespaço.
Ter filhos (2)
O Artº 16 da “Declaração Universal dos Direitos Humanos” (1948) afirma que todo o indivíduo tem direito a «casar e constituir família». Este direito, inscrito num texto que reflectia o espírito gregário do pós-Guerra, tem sido nas últimas décadas abordado de diversas formas, mas algo parece reunir o consenso: é extremamente difícil conceber a existência de um direito à procriação, pois trata-se de um terreno onde as questões políticas, simbólicas e pessoais se cruzam a todo o momento, de forma intensa e por vezes contraditória. Talvez por isso a pergunta sobre o direito de ter filhos seja tão frequente. Não só as pessoas e os casais são questionados enquanto indivíduos, como a própria procriação medicamente assistida (PMA) é por vezes posta em causa.
Boa parte desta oposição social e moral à PMA assenta em valores profundamente enraizados na sociedade. Estas atitudes e valores poderiam ser associados a um misto de comunitarismo conservador e de naturalismo essencial: as pessoas acreditam que a procriação humana é algo que acontece e deve continuar a acontecer naturalmente, no contexto da vida social e familiar. A PMA deveria ser recusada porque pretende “controlar” este mundo em que as coisas acontecem simplesmente, segundo os desígnios da natureza e do acaso. Em geral, as mesmas pessoas não pensam o mesmo relativamente a outras condições médicas. Por exemplo, seria impensável deixar a natureza seguir o seu curso perante um problema cardíaco ou perante uma alergia persistente.
(continua)
Voz emprestada: Maternidade tardia

“No começo eu pensava estar acima de qualquer coisa. Você se apresenta, o médico lhe mostra uma gama de opções de alta tecnologia e essa é uma coisa poderosa _a promessa de um filho. Mas antes que perceba você já fracassou pelo terceiro ano consecutivo e está começando a se sentir usada e abusada, sem mencionar que você está quebrada. Você se senta nas clínicas de reprodução cujas paredes estão cobertas de figuras de bebês, mas a despeito do fato de que está tentando tão duramente quanto sabe, não consegue nenhum daqueles bebês.
Não estou mais segura de que essa tecnologia seja remotamente um fato de poder. Você pega uma mulher da minha geração, alguém que é certamente realizada, mas que está em seus 40 anos e não tem um filho. Essa tenologia se torna uma maneira de dizer a ela que qualquer coisa que realizou não é o bastante. E então, quando ela fracassa em conseguir ficar grávida_e a maioria fracassa_ isso apaga seu senso de competência profissional e sua confiança como mulher. Sei que esses procedimentos deixaram-me mais deprimida que qualquer outra coisa em minha vida”.
O relato acima é de Wendy Wasserstein, uma das mais premiadas autoras de peças da Brodway, que durante dez anos lutou para conseguir gerar um bebê. Consegui tê-lo aos 48 anos, com óvulos doados. A menina Lucy nasceu prematura, aos seis meses de gestação.
O depoimento faz parte de um livro bem interessante que estou lendo chamado “Maternidade Tardia”. Na obra, a autora Sylvia Hewlett constata que quanto mais bem-sucedida profissionalmente é a mulher, mais dificuldades ela encontrará para achar um parceiro ou ter um bebê. E o mais triste: essa situação não foi uma escolha delas. Simplesmente o tempo passou e e elas estavam ocupadas demais para perceber isso.
(Versão completa: http://claudiacollucci.blog.uol.com.br/ )
Nuvem da infertilidade
Aqui fica a “Nuvem da infertilidade”, construída pela comunidade APF. A todos os que participaram, os nossos agradecimentos. O tamanho das palavras está relacionado com a frequência com que apareceram na nossa lista. Como podem constatar, nem tudo é negro na “Nuvem da Infertilidade”; também há clareiras e palavras com força positiva.
Desafio: Fica ainda o convite a todos os nossos amigos, para que copiem esta imagem, com link para o Blog APFertilidade. Vamos pôr a nossa nuvem a circular pelo ciberespaço, ilustrando os sentidos e as emoções da infertilidade.
PS: Deixem dp. comentário aqui, para fazermos uma visita ao vosso blog.
Ter filhos (1)
Um artigo na revista Newsweek (edição da segunda semana de Julho) resume alguns estudos recentes sobre a relação entre os índices de felicidade no casal e a existência de filhos. A maior parte dos estudos indica que os casais que têm filhos não apresentam maiores níveis de felicidade do que os casais sem filhos. Depreende-se pelo artigo que os casais que não têm filhos o fazem por opção e não por impossibilidade “clínica “. Para quem tem dificuldades em ter filhos, estes estudos podem parecer algo como as discussões sobre o sexo dos anjos, mas os resultados apresentados são sugestivos justamente pelo facto de mostrarem como é complexa e intrincada a percepção da felicidade e o modo por vezes perturbador como “ser” feliz se relaciona ou não com o “ter” filhos. A reportagem original pode ser lida aqui:
http://www.newsweek.com/id/143792
30 anos de FIV
«Conhece Louise Brown? E a sigla FIV? Pois Louise Brown, o primeiro ser humano concebido por FIV, faz hoje 30 anos. Desde então já nasceram mais de três milhões de bebés-proveta - e vêm aí mais revoluções… Lesley Brown tinha 32 anos; ela e o marido, John, andavam há anos a tentar ter filhos. Mas tal não era possível, porque Lesley tinha as trompas de Falópio - os tubinhos por onde os ovócitos viajam dos ovários até ao útero - bloqueadas. Em finais de 1977, dois médicos britânicos, Patrick Steptoe e Robert Edwards, especialistas em fertilidade, decidiram tentar algo de absolutamente pioneiro: uma fertilização in vitro.
No laboratório, colheram um ovócito nos ovários de Lesley e fertilizaram-no, fora do corpo de Lesley, com o esperma de John. Dessa maneira, numa “proveta”, foi concebido um embrião que a seguir implantaram no útero da jovem mulher.
Nove meses mais tarde, no hospital de Oldham, nos arredores de Manchester, nascia por cesariana, pouco antes da meia-noite de 25 de Julho de 1978, uma menina, Louise Joy, com dois quilos e 600 de peso. “Joy” significa “alegria” em inglês.
Ao longo desses nove meses, os médicos tentaram manter secreta a gravidez de Lesley. Mas não conseguiram: Louise tornou-se famosa no útero da mãe, que teve mesmo de se esconder temporariamente para fugir aos jornalistas “que a perseguiam por toda a cidade de Bristol”, onde morava, contou Edwards há dias à BBC. O próprio Steptoe (entretanto falecido), receoso de que o stress estivesse a pôr a gravidez em risco, escondeu-a no seu carro e levou-a para casa da mãe dele.
A prova da sensação que o caso provocou é que, quando Lesley deu finalmente entrada no hospital para ter a filha, os repórteres fizeram tudo para tentar ver a futura mãe - desde lançar um alerta de bomba para fazer evacuar as instalações até mascarar-se de empregados da limpeza. Nem os gémeos de Angelina Jolie e Brad Pitt suscitaram tal febre jornalística… Os primeiros instantes de vida de Louise foram filmados e o vídeo tornou-se famoso.
Olhando hoje para as fotografias de Louise e lendo os pormenores do seu percurso de vida, nada indica que a sua estreia na vida tenha sido algo de tão espectacular, de tão inédito - “milagroso” dizem alguns, “revolucionário”, contrapõem outros. Louise é uma pessoa de aparência banal com uma vida pacata e banal. Já trabalhou como funcionária dos correios de Bristol e como enfermeira numa escola. Casou-se e, há 18 meses, tornou-se por sua vez mãe de um menino, Cameron (concebido naturalmente).
A fertilização in vitro também ganhou em banalidade e passou a ser procedimento vulgar de procriação medicamente assistida. Poucos anos depois do nascimento de Louise, os seus pais tiveram, também por FIV, uma outra menina, Natalie. E hoje já são mais de três milhões os bebés-proveta concebidos por FIV a nível mundial. A FIV é tão comum na medicina actual que, segundo um artigo do New York Times, “quase todos os norte-americanos conhecem hoje uma família que poderia não ter existido sem a FIV ou uma das suas variantes.”
Na altura, porém, a mera existência de Louise, concebida em condições consideradas dignas da ficção científica, foi notícia no mundo inteiro e causou furor - tanto a favor como contra. Houve sectores religiosos que consideraram que os médicos estavam a brincar aos deuses e, também no New York Times, um editorialista comentou que “nunca tinha havido tanta ambivalência face a um avanço científico desde a invenção das armas nucleares”.
Uma coisa é certa: a entrada em cena da FIV significou uma revolução na medicina da reprodução e é considerada “como um dos mais notáveis avanços médicos do século XX”.»
Ler artigo completo no Público: http://jornal.publico.clix.pt/magoo/noticias.asp?a=2008&m=07&d=25&uid=&id=270024&sid=54367
A imagem da infertilidade
«Esta é a minha imagem da infertilidade. Sim, quando esta foto foi tirada eu estava na lista de espera para um dos mais avançados tratamentos de fertilidade num dos mais conceituados hospitais do nosso planeta. Estávamos lá porque um médico do instituto “Silicon Valley” disse-nos que seria praticamente impossível conceber sem recorrer a procedimentos de alta tecnologia.
Enquanto brindava a mais um aniversário (na foto), secretamente estava a pensar que no aniversário seguinte estaria a segurar um bebé e não um copo de vinho na mão.
Naquele tempo de esperança e inocência (e quando ainda era loira) eu não tinha ideia nenhuma o quanto me iria apegar às imagens das ecografias a meio do ciclo. O embriologista aumentava ainda mais a minha esperança ao dizer-me que os meus embriões pareciam ser de uma mulher 10 anos mais nova. Eram “lindos”, dizia ela.
Quantos sonhos não associei a eles! E que difícil que era chegar tão perto da maternidade; passando com uma perna às costas todos os testes da medicina reprodutiva, mas chumbando o exame final! Entrei em negação nos anos que se seguiram. Ainda era jovem o suficiente para engravidar espontaneamente e, tendo sido educada na religião católica, ainda acreditava em milagres. Simplesmente não conseguia desligar-me da ideia que tínhamos chegado tão perto de criar os nossos filhos.
Apenas nestes últimos 18 meses é que decidi que estava na altura de finalmente abrir mão da esperança, enterrar o sonho e fazer o meu luto devidamente. Desde então tenho sentido de forma instintiva as emoções dolorosas que eu tinha fechado a sete chaves dentro de mim. Tem sido difícil. Nunca pensei que seria possível sentir uma tristeza tão profunda, mas houve tempo suficiente para essa tristeza ir crescendo dentro de mim. Já se passaram 12 anos desde que primeiro imaginei como seria conceber, estar grávida, e depois ver os olhos do meu marido ou o sorriso da minha mãe ou o humor do meu pai ter continuidade num filho meu. Agora estou a fechar um capítulo da minha vida.
Está na altura de olhar para a frente e não para trás (…) E para todas que ainda tentam engravidar, eu espero que compreendam que caso tenham sucesso ou não, é sempre possível apanhar os cacos e refazer a vida.»
http://coming2terms.com/2008/06/08/becoming-me.aspx
Pamela Tsigdinos, 44 anos, desistiu de tratamentos depois de longos anos a lutar contra a infertilidade, optando por uma vida sem filhos. Hoje ela dedica-se ao seu blog coming2terms, ajudando outros casais inférteis que “optaram” por uma vida sem filhos a lidar com as suas emoções.
Monsanto: Lendas e Festas da Antiguidade
«As ruelas tornam-se mais estreitas e quase capilares, aproximando as muralhas do castelo. Deste ponto alto da serra a aldeia é só já um conjunto de telhados incrustados em declive rochoso. Obeliscos graníticos irrompem na paisagem grandiosa. As serras, os vales e uma vista quase infinita sobre a terra e o céu, o espaço…
Pela porta arqueada do castelo, onde outrora existiu um fosso com ponte levadiça, segue a procissão. No pátio, o rancho folclórico inicia a penúltima fase deste ritual milenar. Ao som do acordeão, as bonecas marafonas não param de dançar.
Adoradas como símbolo, amuleto ou potestade, não há noiva que ao casar não a coloque sobre o leito na noite de núpcias. Funciona então como a deusa da fertilidade. Não tem olhos, nada vê do que se passa na cama. E se não tem olhos, como dizem com ironia as mulheres, não pode ver a «badalica» do noivo.
Não tem boca nem ouvidos, nada ouve, nada conta. Deidade silenciosa e cúmplice que, em troca do seu silêncio, garante a continuidade da família.
Ao fim de hora e meia extenuados, músicos, bonecas e mulheres dão por finda a actuação. Mais um lanço de escadas e o bezerro chega finalmente ao destino. A amurada mais alta do castelo. Num ri-tual pagão é dita a reza e agrupados junto à muralha os lançadores esperam o momento do arremesso. Em gritaria colectiva, os objectos rituais são atirados «borda fora» e, ao embaterem nas escarpas rochosas, quebram-se abandonando as flores ao vento.
Os adufes calam-se suavemente. Debaixo do braço das mulheres repousam no regresso a casa. Instrumento de origem árabe, toda a aldeã que se preze sabe executá-lo.
Adufe é isso: uma caixa musical cujo som vai bem ao modo do cantar das gentes da Beira Baixa e das melodias ritmadas, ao «jeito» da terra cantaroladas, para exaltar a Virgem Maria, a mulher desposada, o castelo da terra ou a Senhora do Almortão.
A brisa traz o aroma de churrasco. Está na hora de descer para a aldeia. O caminho torna-se mais fácil e a arquitectura mais definida.
A construção das habitações, térreas ou de um só piso, são de traço típico popular beirão e apresentam uniformidade de estilo. Sobressaem na paisagem morena os solares pertencentes à fidalguia. Nos pátios das casas de pedra que parecem nascer entre rochas e flores assam-se febras, frangos e bacalhau. O vinho não se faz por esperar. A euforia das festas continua tarde fora até ao anoitecer pelas ruas de Monsanto: O burgo mais português.»
Infertilidade: 7 vozes, 7 rostos
Pamela Tsigdinos, 44: «Para mim, com o avançar da idade, dou-me conta o quanto a infertilidade tem a ver com perder importantes acontecimentos da vida: o primeiro dia de escola, o Dia da Mãe (…) Todas as pequenas coisas que fazem parte do quotidiano da maioria das pessoas e que, para quem não pode ser filhos, são recordações do que nos faltam na vida.»
Barbara Collura, 44: «As pessoas dizem-nos para adoptar, mas a verdade é que demorou 2 anos, desde que paramos os tratamentos, para que o meu marido e eu tomássemos essa decisão.»
Rebecca Flick, 32: «A infertilidade é uma doença. Eu tenho uma doença. Essa doença não desaparece só porque tenho um bebé de 5 meses.»
Angela Cochran, 34 : «Eu sentia que estava a desiludir o meu marido cada vez que lhe dizia que não estava grávida. Mas ele não se sentia assim (…) Desde que comecei esta caminhada nunca mais perguntei às pessoas quando planeavam ter filhos.»
Susan Slotnick, 47: «A dor nunca desaparece, aprende-se a lidar com ela, como outras dores crónicas na vida. É difícil para quem passa por tratamentos de infertilidade ver a luz ao fundo do túnel, mas chega-se a uma solução. Quer através de tratamentos, quer através de adopção, ou mesmo optando por uma vida sem filhos. Decidirmos ser uma família de 2, foi uma boa solução para nós.»
Michelle Segar, 41: «Vamos experimentar isto, e depois outra coisa, e depois aparece um novo protocolo que se pode tentar. Sinto que as pessoas não são aconselhadas a irem mais devagar nas suas decisões (…) Depois de 2 anos de tratamentos, estávamos preparados para avançar por um novo caminho. Descobrimos que o que queríamos era sermos pais.»
Karen Abraham, 32: «Acho a Educação Sexual algo fantástico. No entanto, a maioria das raparigas não compreendem a realidade das variações que ocorrem no corpo da mulher (…) Nem todas têm ovulações ao 14º dia do ciclo, ou têm ovulações todos os meses e nem todas têm o período depois de 28 ou 30 dias.»
Oiçam estas vozes da infertilidade no New York Times
Freakonomics
Medicine and Statistics Don’t Mix
Stevin D. Levitt - New York Times
Some friends of mine recently were trying to get pregnant with the help of a fertility treatment. At great financial expense, not to mention pain and inconvenience, six eggs were removed and fertilized. These six embryos were then subjected to Pre-Implantation Genetic Diagnosis (P.G.D.), a process which cost $5,000 all by itself.
The results that came back from the P.G.D. were disastrous.
Four of the embryos were determined to be completely non-viable. The other two embryos were missing critical genes/D.N.A. sequences which suggested that implantation would lead either to spontaneous abortion or to a baby with terrible birth defects.
The only silver lining on this terrible result is that the latter test had a false positive rate of 10 percent, meaning that there was a one-in-ten chance that one of those two embryos might be viable.
So the lab ran the test again. Once again the results came back that the critical D.N.A. sequences were missing. The lab told my friends that failing the test twice left only a 1 in 100 chance that each of the two embryos were viable.
My friends — either because they are optimists, fools, or perhaps know a lot more about statistics than the people running the tests — decided to go ahead and spend a whole lot more money to have these almost certainly worthless embryos implanted nonetheless.
Nine months later, I am happy to report that they have a beautiful, perfectly healthy set of twins.
The odds against this happening, according to the lab, were 10,000 to 1.
So what happened? Was it a miracle? I suspect not. Without knowing anything about the test, my guess is that the test results are positively correlated, certainly when doing the test twice on the same embryo, but probably across embryos from the same batch as well.
But, the doctors interpreted the test outcomes as if they were uncorrelated, which led them to be far too pessimistic. The right odds might be as high as 1 in 10, or maybe something like 1 in 30. (Or maybe the whole test is just nonsense and the odds were 90 percent!)
Anyway, this is just the latest example of why I never trust statistics I get from people in the field of medicine, ever.
My favorite story concerns my son Nicholas:
Relatively early on in the pregnancy we had an ultrasound. The technician said that although it was very early, he thought he could predict whether it would be a boy or a girl, if we wanted to know. We said, “Yes, absolutely we want to know.” He told us he thought it would be a boy, although he couldn’t be certain.
“How sure are you?” I asked
“I’m about 50-50,” he replied.
Voz emprestada: os limites e os motivos da maternidade
«Nesta semana, outro caso inusual de maternidade me chamou a atenção: uma indiana de 70 anos deu à luz um casal de gêmeos prematuros, na cidade de Muzaffarnagar (Índia). Ela já está sendo considerada a mulher mais velha do mundo a parir. É verdade que ninguém pode provar a idade dela porque Omkari não tem certidão de nascimento e não sabe ao certo quando nasceu, segundo o jornal britânico Daily Telegraph. Até então, a mãe mais velha do mundo era Adriana Iliescu, uma romena que deu à luz uma filha, aos 66 anos, em 2005.
A idade da indiana foi estimada em 70 anos porque Omkari disse que tinha nove anos quando acabou o governo britânico sobre a Índia e países vizinhos, em 1947. A aposentada, que tem duas filhas adultas e cinco netos, se submeteu a um tratamento de fertilização in vitro _com óvulos doados de uma mulher mais jovem, obviamente_ para gerar um herdeiro homem.
Seu marido, Charan Singh Panwar, 77, afirmou que o casal ficou endividado para financiar o tratamento. “Finalmente temos um filho e herdeiro”, disse ele. “Nós rezamos a Deus, visitamos santos e locais sagrados para rezar por um herdeiro. Posso morrer como um homem feliz e um pai orgulhoso”.
“Se eu sou a mãe mais velha do mundo, isso não significa nada para mim. Eu só quero ver meus bebês e cuidar deles enquanto eu ainda posso”, disse Omkari. “Minhas filhas ganharam um irmãozinho, meu marido e eu ganhamos um herdeiro - é tudo que sempre quisemos”, acrescentou.
Tanto esforço e risco para se ter um filho nessa idade tem uma explicação. A preferência por filhos homens está fortemente enraizada em muitos países asiáticos, como a Índia e a China, tanto por questões culturais quanto por questões econômicas. As filhas podem ser vistas como fonte de prejuízo, especialmente quando é preciso pagar dotes. Pais mais velhos usualmente esperam receber apoio de seus filhos e suas esposas. E filhos homens também podem ser necessários para realizar ritos funerários ou reverência a ancestrais.
Por isso, para eles, vale a pena o risco. A mãe indiana septuagenária, por exemplo, quase morreu. Chegou ao hospital inconsciente e sangrando muito. A ginecologista Nisha Malik afirmou que quando a viu, pensou primeiro que ela tivesse sofrido um acidente ou tivesse câncer. “Eu fiquei chocada quando esta senhora me disse que estava grávida. […]”»
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Um selo a fazer história…
Is This the World’s First Infertility Postage Stamp?
http://www.stampsofdistinction.com/2008/06/is-this-worlds-first-infertility.html
In March, 2008, Portugal’s postal authority CTT Correios de Portugal, S.A. may have made postal history when it issued the stamp shown on the left. It is thought that this stamp was the first ever stamp specifically issued to raise awareness of the struggles of infertility. In a March, 2008, article in Linn’s Stamp News, the de-facto industry standard for philatelic news, suggests that this is, in fact, the first stamp on this topic.
Infertility is the inability of a couple to conceive a child or, if conceived, the inability to successfully carry the child to delivery. The condition is usually associated with strong emotions such as angst, grief, anger, a sense of incompleteness, and depression. The emotional impact to the affected individual or couple can be devastating.
For years, there were only three primary options available to infertile couples. One was to try home-remedies and “quack” cures, which had successes rates attributable to simple luck. Another was to accept their childlessness, which many did reluctantly. The last, and in my opinion, most noble option, was adoption.
As doctors searched for additional options for this debilitating illness, a new technique, called in vitro fertilization, or IVF, was successfully pioneered by British doctors, Patrick Steptoe and Robert Edwards. On July 24, 1978, their technique led to the birth of Louise Joy Brown, the first baby to have been conceived outside of her mother’s body.
Louise’s parents had tried for a number of years to conceive a child, but with physically blocked Fallopian tubes, Louise’s mother was unable to conceive through natural methods. By removing her eggs, fertilizing them outside of the body, and then implanting them, Louise’s mother was finally able to become pregnant and bear a child.
This event became a watershed event in the efforts to find a cure for infertility. It meant that couples who had previously been unable to conceive due to physical impairments stood a much-greater chance of conception. While in the best case, it offers about a 50% success rate in younger women, such a percentage is a marked improvement over the miniscule success rates without IVF. It offered a ray of hope and led to more attempts in finding a cure for the illness.
Unfortunately, the high cost of in vitro fertilization has kept the procedure out of reach of many infertile couples. But each year advances are made and many procedures have come down in cost.
The stamp issued by Portugal is beautifully designed and conveys the hopes of infertile couples with its imagery. The stamp shows a stylized silhouette image of a man and woman embracing a child. The image of the child is almost ghost-like in appearance, symbolizing the hope for the child, yet at the same time highlighting the fragility of conception for infertile couples.
The stamp is denominated as 0.30 Euro (approx $0.47 USD). It is currently available for purchase from Portugal’s postal authority.
Manual para fazer um esteriótipo (infértil)
a) Teoria
«A Historia da Filosofia mostra que existe uma tendência universal para a generalização de todas as classes presentes do mundo real. Numa determinada classe de seres, apenas costumamos considerar um determinado factor distintivo, deixando o resto de parte, separado da “nossa” realidade.»
b) Prática
«Simone tinha consultas de infertilidade há meses naquela unidade de saúde e parece claro que conhecia os cantos à casa. No dia do sequestro, terá sido muito rápida a actuar. Terá demorado pouco mais de oito minutos nas instalações. Subiu ao piso 6 da maternidade e terá verificado, previamente, o procedimento de mudança de turno. Na maternidade, saiu e voltou a entrar. Cruzou-se com um médico, a quem saudou e que lhe retribuiu o cumprimento. Em segundos, levou o berço com o bebé de um casal de S. Miguel de Paredes, com o pretexto de fazer exames de rotina, empurrando o carrinho até ao elevador, mas optou por pegar nele ao colo e descer as escadas, acabando por sair pela porta principal, com ele escondido. O berço foi encontrado junto ao elevador.
Simone deslocou-se do hospital num carro de aluguer até Felgueiras, onde esteve escondida da família, no apartamento de um amigo, desde quarta-feira. Recorde-se que o seu companheiro deixou-a no hospital de Penafiel nesse dia, em que Simone disse que “daria à luz”. Cerca do meio-dia, telefonou para uma vizinha dizendo que tivera um menino mas que não podia receber visitas porque ia ser operada a quistos no Porto e só regressaria a casa no sábado. E foi no sábado, após ter sequestrado o bebé, às 14.20 horas, que se encontrou com o companheiro junto ao Centro de Saúde de Felgueiras.»
Jornal de Notícias – 19/06/2008
http://jn.sapo.pt/PaginaInicial/Policia/Interior.aspx?content_id=959462
c) Música para acompanhar
BLUR - “Stereotypes”
Album: The Great Escape (1996)
http://www.youtube.com/watch?v=fH5ve6kKqYA
Maternidade: experiência e função
Que significado teve para si uma experiência como a maternidade?
Pina Bausch: É um assunto sobre o qual não posso, nem quero, falar. Dou-lhe um exemplo. Durante toda a vida, as mulheres têm seios e, naturalmente, sabem porquê, mas nunca pensam nisso. De repente, descobre-se a sua verdadeira função.
(in: O Teatro de Pina Bausch, de Leonetta Bentivoglio)
Voz emprestada: Antes de adotar…

Antes de adotar, é preciso elaborar o luto pelo filho não-gerado
«Aproveitando a proximidade do Dia das Mães e o recém-aprovado cadastro único de adoção no país, a psicóloga Luciana Leis nos escreveu um artigo muito interessante sobre o tema. Assino embaixo as colocações, especialmente quando ela diz que, antes de partir para a adoção, é preciso elaborar o luto pela perda do filho biológico que não foi gerado.
Penso que elaborar esse luto não significa, muitas vezes, enterrar em definitivo o sonho de gestação. Conheço dezenas de histórias de gravidezes improváveis após uma adoção. O importante, porém, é reconhecer que as tentativas frustradas de gravidez implicam luto e elaborá-lo é fundamental para o exercício de outras formas de maternidade.»
Versão completa: http://claudiacollucci.blog.uol.com.br/
Tudo por um Filho…
A capa do P2 da edição de hoje do jornal Público (17/06/2008; ed. online, 5h:33m) abre com a imagem que se supõe ser do rosto algo macerado, embora ainda jovem e inocente, da mulher que raptou um bebé no Hospital Padre Américo,
http://jornal.publico.clix.pt/
Voz emprestada: “É preciso escoar a tristeza”
«Dr. Ricardo me liga pedindo ajuda para a divulgação de um evento na clínica de reprodução. Diz que freqüentemente acessa o blog e que, ultimamente, vem me achando triste. Pergunta se está tudo bem e se tem algo que ele possa fazer para me ajudar. Agradeço e digo que a tristeza faz parte do processo da dificuldade de gravidez. E que eu não me furto de vivê-la e nem de dividi-la neste espaço. Do contrário, não estaria sendo honesta com vocês, minhas queridas amigas virtuais.
Disse a ele que o meu lema é sempre abrir os canais para que a tristeza escoe. Deixá-la represada é o mesmo represar um rio. Uma hora ele estoura e a inundação é sempre muito pior. Também falei para o Ricardo não se impressionar com os posts tristes porque nesse espaço também há mensagens de esperança, de otimismo e de alegrias. Afinal de contas, essa também sou eu.»
Versão completa: http://claudiacollucci.blog.uol.com.br/
Viva o Stº António
«As festas juninas guardam sinais de tradições. Inúmeros povos da Antiguidade, como os celtas, os egípcios e os persas, celebravam Juno, o deus da fertilidade, durante o solstício de verão – o dia mais longo e a noite mais curta do ano, que no hemisfério norte ocorre em junho. Ao pé da fogueira, eram feitas oferendas para garantir a boa colheita, espantar os maus espíritos e trazer a prosperidade. Com o tempo, a Igreja Católica aliou essas tradições a seu calendário.
Por aqui [Brasil], as comemorações do mês de Junho foram trazidas pelos portugueses e se uniram aos costumes indígenas (que também cultuavam o fogo) e aos dos negros. Desse caldeirão de culturas, veio o nosso jeito de festejar, com dança (quadrilhas), bandeiras coloridas e comida à base de amendoim e milho. Para agradar a Santo Antônio, que recebeu o título de casamenteiro, em seu dia, 13 de Junho, é erguido um mastro com sua imagem na ponta. Quem quer encontrar seu par tem que colocar a mão nele. Essa e outras simpatias fazem parte da festa. »
http://bonsfluidos.abril.com.br/livre/edicoes/0098/03/03.shtml
S. Pedro de Rates

«S. Pedro de Rates é a maior freguesia do concelho da Póvoa de Varzim (com uma área de 1.383 ha). Desconhece-se a sua origem: a maior parte dos estudiosos afirma-a anterior à ocupação romana ou, pelo menos, do tempo desta (o que o termo “ratis” parece comprovar).»
www.cm-pvarzim.pt/municipio/juntas-de-freguesia/s-pedro-de-rates
«Conta a tradição que S. Pedro de Rates foi convertido ao Cristianismo pelo Apóstolo S. Tiago, aquando da sua peregrinação pela Hispânica, no século I. Durante essa viagem, cumprindo a missão de difundir a mensagem de Cristo, morto e ressuscitado havia pouco tempo, foi deixando sementes que germinaram e fortaleceram as raízes da Igreja Católica Apostólica Romana, num império hostil à nova Fé. Pedro seria um dos 7 varões ordenados pelo Apóstolo, em Santiago de Compostela, e nomeado bispo de Braga.
Na lenda, o episódio que fez dele um mártir teve origem num milagre: solicitado para curar de doença fatal a filha de um poderoso pagão, S. Pedro de Rates conseguiu-lhe tal dádiva. Reconhecida, converteu-se ao Cristianismo, o que causou a ira do pai e consequente desejo de vingança. Avisado, o Santo refugiou-se em Rates, mas foi aí encontrado e assassinado. Ficou sepultado sob as ruínas da pequena capela onde tudo aconteceu, pois, à semelhança da vida do religioso, também foi destruída.
Tempos mais tarde, do alto do monte onde se refugiara, o eremita S. Félix vislumbrava uma luz na escuridão. Guiado pela curiosidade e pela convicção de um chamamento piedoso. Dirigiu-se ao local, procedeu à remoção das pedras e encontrou a causa de tal clarão: o corpo de S. Pedro de Rates.
A transladação do corpo intacto para a Sé de Braga faz, também, parte da lenda. Os factores reportam-se somente à transferência, no século XVI, pelo arcebispo Frei Baltazar Limpo, de relíquias do Santo (pequenos ossos que análises realizadas apontam ter pertencido a uma criança com cerca de 12 anos). O corpo, se alguma vez existiu, teria já desaparecido.
Muito devoto do seu Santo, a Vila de Rates colocou-se sob o seu cuidado. Nos limites definidos pelo caminho do cerco ele vela para que nem fome, nem peste, nem a guerra toquem nos seus protegidos. Para tal pode contar com o apoio de S. Sebastião, que é igualmente celebrado pela paróquia, a 20 de Janeiro.
Invocado para muitas graças, S. Pedro de Rates é, no entanto, associado à esterilidade. De uma antiga fonte com o seu nome diz-se que se poderia obter a cura da enfermidade, cumprindo o seguinte ritual: a mulher deveria sentar-se sobre uma pedra furada que aí existia. Talvez por ser mercê tão divina, tem o Santo fama de vingativo para com quem não cumpre o prometido. É, provavelmente por receio desse “humor”, que muitas mulheres grávidas guardam o dia do Santo – 26 de Abril – e até para os animais fêmeas no mesmo estado não é aconselhável a utilização nos trabalhos.»
www.cm-pvarzim.pt/turismo/conhecer-a-povoa/lendas-e-crencas
O sexo errado…

As diferenças entre as legislações nacionais sobre a procriação medicamente assistida são um assunto cada vez mais crítico num mundo globalizado, onde o turismo na área médica se tem vulgarizado ao ritmo da mobilidade das pessoas, à custa das ‘low-cost” e de agências de viagens com nomes como tão sugestivos como ”Taki Talá”. Nos últimos anos têm aparecido relatos crescentes de práticas eticamente questionáveis em países algo “desregulados” no que diz respeito à PMA, como é o caso da Índia, onde os limites de idade para a adopção da gâmetas são extremamente “fluidos”. Notícias cruzadas em jornais do Reino Unido referem um casal de cidadãos ingleses (ela com 59 anos e ele com 72 anos), de origem indiana, que acaba de dar à luz gémeos que aparentemente não queriam levar para casa, por serem do “sexo errado”, uma vez que nasceram meninas em vez de rapazes. Ora, na tradição “macho” da sua comunidade de origem, apenas os homens garantem o prolongamento honrado do nome da família. Casos como este tornam mais premente que nunca a regulação internacional da PMA, mas ilustram sobretudo algo que a História recente tem sido pródiga a mostrar: não há tecnologia que por si só consiga reformar o atavismo das mentalidades.
Da infertilidade como jogo e acaso
«Os chamados ‘jogos de sorte e azar’ são jogos nos quais a possibilidade de ganhar ou perder não dependem da habilidade do jogador, mas sim exclusivamente da sorte (ou do azar) do apostador. Encabeçando essa categoria temos o jogo da roleta… Neste tipo de jogos, os prémios são determinados pela probabilidade estatística de acerto ou de erro.»






