A pílula faz 50 anos!
Assinala-se por esta altura o cinquentenário da pílula. Desde a sua aprovação oficial, no ano de 1960, a pílula transformou de modo profundo o controlo da natalidade, permitindo à mulher um domínio inédito sobre o corpo e a fertilidade. Curiosamente, a produção do composto químico do comprimido mais famoso do mundo teve a participação de um médico e professor de medicina em Harvard, chamado John Rock, que procurava um tratamento para a infertilidade e não o contrário. A pílula resultou portanto da investigação conjunta de médicos que pretendiam facilitar a gravidez e de outros médicos que pretendiam impedir a gravidez. E se as descobertas científicas se alcançam por vezes através de caminhos insondáveis, esta dupla origem lembra-nos que foi sobre a própria experiência da maternidade que a pílula teve maiores consequências. O controlo da gravidez permitiu à mulher ‘tomar posse’ do seu corpo e viver a maternidade sobretudo como uma experiência desejada.
Geração FIV
Continuam a surgir estudos sobre a evolução física e psicológica das crianças nascidas através de FIV. Se numa fase inicial, como é sabido, era comum dizer-se que não existia qualquer diferença ou risco no uso da FIV, nos últimos anos tem sido possível chegar a resultados mais concretos. Em Fevereiro de 2010 a revista oficial da Sociedade Americana de Medicina Reprodutiva (Fertility and Sterility) publicou um trabalho que analisava quase duas centenas de crianças nascidas através de FIV, agora com idades entre os 18 e os 26 anos. Os resultados, apesar geralmente satisfatórios, revelam uma propensão acrescida para problemas psicológicos (sobretudo défice de atenção e hiperactividade) e uma incidência maior de alguns problemas congénitos. Trata-se realmente de uma área onde há muito para fazer e para conhecer, pois não estamos sequer em posição de compreender e isolar propriamente cada uma das causas e das consequências, entre os procedimentos relacionados com a FIV, os factores relacionados com a gravidez e a frequência de múltiplos, a especificidade dos casais que recorrem à FIV ou mesmo a influência de aspectos sócio-educativos. O estudo original pode ser consultado aqui. Uma versão jornalística está disponível aqui.
Voz emprestada: sobre o congelamento de óvulos

A Sociedade Britânica de Fertilidade e a Associação dos Embriologistas Clínicos emitiram novas diretrizes na revista “Human Fertility” sobre a eficácia e a segurança do congelamento de óvulos para fins médicos. As orientações seguem uma profunda revisão das pesquisas publicadas em diferentes tecnologias utilizadas no congelamento de óvulos e apresentam uma série de recomendações clínicas a serem seguidas. As principais são:
1 - O congelamento de óvulos é uma tecnologia emergente com resultados iniciais promissores. O valor do congelamento de óvulos é atualmente limitado por vários fatores, incluindo o número de ovos que podem ser obtidos e as taxas de sucesso alcançado. Há necessidade de uma grande escala mais adequada de ensaios clínicos controlados para melhorar a nossa base de conhecimentos das técnicas mais eficazes.
2 - As mulheres que desejam congelar seus óvulos devem receber informações precisas sobre a segurança e as taxas de sucesso prováveis. Devem ser dadas orientações sobre os benefícios e as limitações do congelamento de óvulos, em comparação com outras opções. Atualmente, o maior sucesso é provavelmente por meio do embrião congelado, em vez do armazenamento de óvulos.
3 - Existem dois métodos principais de congelamento de ovos: resfriamento lento e vitrificação. Estudos iniciais indicam que a vitrificação pode produzir maiores taxas de sucesso do que o resfriamento lento. Mais estudos são necessários para confirmar a segurança dos produtos químicos utilizados para congelar os ovos e a eficiência da vitrificação.
4 - Para melhores resultados, óvulos maduros devem ser recolhidos após a estimulação ovariana, semelhante ao tratamento de FIV (Fertilização In Vitro). O tipo de estimulação ovariana utilizado deve ser ditado pelas necessidades de cada paciente. Por exemplo, as mulheres com câncer hormonodependente (alguns tipos de tumor de mama, por exemplo) podem preferir os tratamentos que minimizem a exposição ao estrogênio.
A diretriz assinala ainda que, até o momento, o congelamento de óvulos está indicado apenas para mulheres que vão se defrontar com uma futura infertilidade por conta de uma cirurgia, quimioterapia ou radioterapia. Não deve ser usado como opção de preservação da fertilidade tendo em vista apenas o declínio da idade.
O professor Adam Balen, da Sociedade Britânica de Fertilidade, é enfático em dizer: “As atuais taxas de gravidez usando óvulos descongelados são muito pequenas, em torno de 2%. É fundamental que haja mais pesquisas e o desenvolvimento de técnicas que aumentem a segurança e o sucesso do congelamento de óvulos.”
Essa é uma informação muito importante porque, no afã de conseguir clientes e aparecer na comunicação, há clínicas brasileiras vendendo gato por lebre. Ou seja, estimulando mulheres na faixa dos 30, que ainda não tem um parceiro, a congelar seus óvulos para que no futuro realizem o sonho da maternidade. Como vocês bem notaram nas diretrizes britânicas, a coisa não é bem assim. Entendo que, para uma mulher com chances reais de se tornar estéril por conta de uma doença, o congelamento de óvulo seja sua última esperança de maternidade. Dentro desse contexto, 2% de chance é melhor do que nada. É bem diferente da situação de uma mulher jovem e saudável, que pode ser induzida a acreditar que, congelando seus óvulos, seu passaporte futuro para maternidade estará garantido.
Em parceria com Claudia Collucci:
http://claudiacollucci.blog.uol.com.br/
“Teste caseiro lê segredos dos genes”

“Dizer ou não dizer” é um dilema que confronta as pessoas que recorrem a tratamentos de procriação medicamente assistida, em muitas situações concretas: dizer ou não à família, aos amigos, aos colegas de trabalho, à entidade empregadora, à companhia de seguros, entre muitos outros. Mas há entre estas hipóteses uma especialmente difícil: dizer ou não dizer aos filhos que resultam da doação de gâmetas. Apesar da abertura cada vez maior, apesar da opinião favorável à verdade por parte de especialistas, apesar de ser defendida pelos próprios filhos que nas últimas décadas nasceram com a ajuda da doação de espermatozóides e/ou óvulos, há ainda (demasiados) pais que resistem em contar. Em geral, estes pais assumem que a verdade poderia prejudicar a relação com os filhos, quando sabemos que os estudos sobre estas crianças nas últimas décadas mostram precisamente o contrário. Há já algum tempo que se especulava sobre o facto de a ciência acabar de vez com este tabú. E de facto, começam a aparecer no mercado testes caseiros, baratos e eficazes, que analisam centenas de marcadores genéticos, incluindo doenças e ancestralidade. O que a empresa 23andme actualmente vende por cerca de 200 euros, mostra-nos que o futuro é hoje, em 4 passos simples: 1) comprar o kit; 2) recolher saliva; 3) enviar para o laboratório da empresa; 4) colocar a password no site da empresa e desvendar os segredos dos seus genes.
PS: Segundo informa o Jornal de Notícias: «Há portugueses que já descobriram os segredos inscritos nos seus genes através de um teste caseiro, o “23and Me”, considerado o invento mais importante do ano passado pela revista “Time”.»
Sobre os riscos da FIV

Existe uma espécie de tabu quando se fala dos riscos da procriação medicamente assistida. Há já algum tempo que timidamente se especulava sobre os riscos da PMA, mas apenas com um estudo recentemente divulgado pelo New York Times, entre outros jornais, se tornou mais claro para o grande público a natureza e o grau dos problemas eventualmente causados, sobretudo pela utilização da FIV. O estudo em causa confirma um aumento dos problemas ao nível do aparelho digestivo, malformações do palato e do coração. Estes dados poderão, no caso inglês, obrigar os médicos a informarem os doentes, como parece resultar da acção da entidade reguladora local (Human Fertilisation and Embryology Authority). No entanto, antes de generalizações catastrofistas, vindas sobretudo dos que são contra toda e qualquer prática associada à PMA, vale a pena dizer que os riscos não só são muito pequenos, como não se sabe ainda se o motivo se deve à técnica da FIV em si mesma ou aos gâmetas das pessoas com problemas de fertilidade.
Voz emprestada: teste de fertilidade
«Especialistas em fertilidade da Universidade de Sheffield, na Inglaterra, desenvolveram um teste que prevê quanto tempo de fertilidade as mulheres ainda têm pela frente. O teste mede o número de óvulos nos ovários femininos e indica qual deve ser o nível dele dentro de dois anos. O exame já está disponível em serviços de saúde da Europa e dos EUA, com o nome de “Plan Ahead Test” (Planeje com Antecedência, em tradução literal). Veja o site do produto http://www.early-pregnancy-tests.com/planahead-test.html
O especialista em fertilidade Bill Ledger, que desenvolveu o kit para o exame, disse que está confiante de que o teste é uma previsão exata da fertilidade, e que ele espera que permita às mulheres planejar melhor seu futuro e decidir por quanto tempo elas podem adiar a decisão de ter um filho. “Se ter uma família é a coisa mais importante, é melhor você começar a tentar ter filhos na faixa dos 20 anos – não há dúvidas de que quanto mais você adia, maior a chance de decepção”, disse ele.»
Continua aqui: http://claudiacollucci.blog.uol.com.br/
O fim da inseminação artificial?

Uma das ideias mais comuns para quem faz tratamentos de fertilidade é a noção de que existe uma escala crescente, segunda a qual, existindo condições mínimas (casais com infertilidade inexplicada ou factor masculino de média gravidade), se deve primeiro começar com a inseminação intra-uterina (IIU) e só depois com a fertilização in-vitro (FIV). No entanto, estudos recentes, aliados à própria evolução da FIV, têm mostrado que em grande parte dos casos é mais barato, mais rápido e emocionalmente menos pesado para os casais, avançarem directamente para a FIV, sem passar pela inseminação. Enquanto a IIU tem taxas de sucesso em torno dos 9-10%, a FIV ultrapassa geralmente os 30%. Uma vantagem adicional consiste na possibilidade de a FIV permitir uma diminuição da gravidez gemelar, pois é possível controlar o número de embriões a transferir. Estaremos a caminho do fim da IIU? Tratando-se da técnica mais ingrata quanto às possibilidades de sucesso, não seria por aqui que nos deixaria com saudades…
Alguns estudos:

