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“Teste caseiro lê segredos dos genes”

Publicado em Ciência, Ética por Nicolau Gomes em 26 Julho 2009

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“Dizer ou não dizer” é um dilema que confronta as pessoas que recorrem a tratamentos de procriação medicamente assistida, em muitas situações concretas: dizer ou não à família, aos amigos, aos colegas de trabalho, à entidade empregadora, à companhia de seguros, entre muitos outros. Mas há entre estas hipóteses uma especialmente difícil: dizer ou não dizer aos filhos que resultam da doação de gâmetas. Apesar da abertura cada vez maior, apesar da opinião favorável à verdade por parte de especialistas, apesar de ser defendida pelos próprios filhos que nas últimas décadas nasceram com a ajuda da doação de espermatozóides e/ou óvulos, há ainda (demasiados) pais que resistem em contar. Em geral, estes pais assumem que a verdade poderia prejudicar a relação com os filhos, quando sabemos que os estudos sobre estas crianças nas últimas décadas mostram precisamente o contrário. Há já algum tempo que se especulava sobre o facto de a ciência acabar de vez com este tabú. E de facto, começam a aparecer no mercado testes caseiros, baratos e eficazes, que analisam centenas de marcadores genéticos, incluindo doenças e ancestralidade. O que a empresa 23andme actualmente vende por cerca de 200 euros, mostra-nos que o futuro é hoje, em 4 passos simples: 1) comprar o kit; 2) recolher saliva; 3) enviar para o laboratório da empresa; 4) colocar a password no site da empresa e desvendar os segredos dos seus genes.

PS: Segundo informa o Jornal de Notícias: «Há portugueses que já descobriram os segredos inscritos nos seus genes através de um teste caseiro, o “23and Me”, considerado o invento mais importante do ano passado pela revista “Time”.»

Voz emprestada: os limites e os motivos da maternidade

Publicado em Infertilidade, Ética por APFertilidade em 09 Julho 2008

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«Nesta semana, outro caso inusual de maternidade me chamou a atenção: uma indiana de 70 anos deu à luz um casal de gêmeos prematuros, na cidade de Muzaffarnagar (Índia). Ela já está sendo considerada a mulher mais velha do mundo a parir.  É verdade que ninguém pode provar a idade dela porque Omkari não tem certidão de nascimento e não sabe ao certo quando nasceu, segundo o jornal britânico Daily Telegraph.  Até então, a mãe mais velha do mundo era Adriana Iliescu, uma romena que deu à luz uma filha, aos 66 anos, em 2005.
A idade da indiana foi estimada em 70 anos porque Omkari disse que tinha nove anos quando acabou o governo britânico sobre a Índia e países vizinhos, em 1947. A aposentada, que tem duas filhas adultas e cinco netos, se submeteu a um tratamento de fertilização in vitro _com óvulos doados de uma mulher mais jovem, obviamente_ para gerar um herdeiro homem.

Seu marido, Charan Singh Panwar, 77, afirmou que o casal ficou endividado para financiar o tratamento. “Finalmente temos um filho e herdeiro”, disse ele. “Nós rezamos a Deus, visitamos santos e locais sagrados para rezar por um herdeiro. Posso morrer como um homem feliz e um pai orgulhoso”.

“Se eu sou a mãe mais velha do mundo, isso não significa nada para mim. Eu só quero ver meus bebês e cuidar deles enquanto eu ainda posso”, disse Omkari. “Minhas filhas ganharam um irmãozinho, meu marido e eu ganhamos um herdeiro - é tudo que sempre quisemos”, acrescentou.

Tanto esforço e risco para se ter um filho nessa idade tem uma explicação. A preferência por filhos homens está fortemente enraizada em muitos países asiáticos, como a Índia e a China, tanto por questões culturais quanto por questões econômicas. As filhas podem ser vistas como fonte de prejuízo, especialmente quando é preciso pagar dotes. Pais mais velhos usualmente esperam receber apoio de seus filhos e suas esposas. E filhos homens também podem ser necessários para realizar ritos funerários ou reverência a ancestrais.

Por isso, para eles, vale a pena o risco. A mãe indiana septuagenária, por exemplo, quase morreu. Chegou ao hospital inconsciente e sangrando muito. A ginecologista Nisha Malik afirmou que quando a viu, pensou primeiro que ela tivesse sofrido um acidente ou tivesse câncer. “Eu fiquei chocada quando esta senhora me disse que estava grávida. […]”»

Versão completa: http://claudiacollucci.blog.uol.com.br/

O sexo errado…

Publicado em Ética por APFertilidade em 07 Junho 2008

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As diferenças entre as legislações nacionais sobre a procriação medicamente assistida são um assunto cada vez mais crítico num mundo globalizado, onde o turismo na área médica se tem vulgarizado ao ritmo da mobilidade das pessoas, à custa das ‘low-cost” e de agências de viagens com nomes como tão sugestivos como ”Taki Talá”. Nos últimos anos têm aparecido relatos crescentes de práticas eticamente questionáveis em países algo “desregulados” no que diz respeito à PMA, como é o caso da Índia, onde os limites de idade para a adopção da gâmetas são extremamente “fluidos”. Notícias cruzadas em jornais do Reino Unido referem um casal de cidadãos ingleses (ela com 59 anos e ele com 72 anos), de origem indiana, que acaba de dar à luz gémeos que aparentemente não queriam levar para casa, por serem do “sexo errado”, uma vez que nasceram meninas em vez de rapazes. Ora, na tradição “macho” da sua comunidade de origem, apenas os homens garantem o prolongamento honrado do nome da família. Casos como este tornam mais premente que nunca a regulação internacional da PMA, mas ilustram sobretudo algo que a História recente tem sido pródiga a mostrar: não há tecnologia que por si só consiga reformar o atavismo das mentalidades.

Do “Pai” à “Figura Parental”

Publicado em Infertilidade, Política, Ética por APFertilidade em 18 Maio 2008

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Está neste preciso momento a decorrer um importantíssimo debate no Reino Unido sobre a alteração da lei que actualmente regula a investigação e a PMA (”The Human Fertilisation and Embryology Act, 1990). A proposta em discussão (“Human Fertilisation and Embryology Bill”), declara, entre outras coisas, que nos casos de doação de gâmetas deixa de ser obrigatória a existência de um “pai” e passa a defender que o casal ou pessoa receptora de gâmetas doados apenas tem de indicar e garantir à futura criança a existência de uma “figura parental”. Assim é porque se pretende acabar com a discriminação de casais do mesmo sexo no acesso a gâmetas doados.

Mas a discussão está ao rubro também por outras razões, relacionadas com a investigação (por exemplo para permitir que um irmão salve outro irmão e facilitar a investigação de certas doenças genéticas). O Arcebispo de Canterbury comparou entretanto a investigação com embriões à tortura e à violação.

A votação aproxima-se e as “sondagens” entre Membros do Parlamento mostram que será renhida, embora exista a convicção de que o Reino Unido acabará por ter uma lei tão progressista como a de 1990. Aguardemos.
 
Sobre este e outros assuntos fala também Simon Jenkins, no ‘The Times”:
http://www.timesonline.co.uk/tol/comment/columnists/simon_jenkins/article3953670.ece