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O homúnculo: entre o desejo e a ficção

Publicado em Mitos & Lendas por Nicolau Gomes em 11 Janeiro 2010

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Numa passagem célebre do livro De Natura Rerum (1537), Paracelso imagina a possibilidade de um ser humano criado artificialmente:
«Tem-se discutido muito a idéia de que a natureza e a ciência nos teriam proporcionado meios para criar um ser humano sem a interferência da mulher. Quanto a mim acho que isto é completamente possível e não é contrário às leis da natureza. Dou aqui as normas que deverão ser observadas para que se atinja esse objectivo. Põe-se num alambique a porção suficiente de sémen humano, sela-se o alambique e este é conservado durante quarenta dias à temperatura semelhante à que prevalece no interior dum cavalo. Ao fim de este prazo, a semente humana começa a crescer, a viver e a mover-se. Já então deve possuir forma humana, embora pareça transparente e imaterial. Durante mais quarenta semanas, deve ser cuidadosamente alimentada com sangue humano e guardada no mesmo local aquecido. Torna-se então uma criança viva, com todas as características de um recém-nascido de mulher, porém menor. A isso se dá o nome de homúnculo. Deve ser tratado com todo o cuidado, até crescer o necessário e começar a evidenciar sinais de inteligência.»

(2) O Sonho de Kokopelli

Publicado em Mitos & Lendas por Nicolau Gomes em 20 Abril 2009

(1) A história de Kokopelli

Publicado em Mitos & Lendas por Nicolau Gomes em 20 Abril 2009

Kokopelli é um deus da fertilidade, originário dos povos nativos da América do Norte, geralmente representado como humilde tocador de flauta, com penas exuberantes na cabeça. Eis umas das muitas versões sobre a origem de Kokopelli, o deus que preside ao nascimento das crianças e também à fertilidade dos campos:

Monsanto: Lendas e Festas da Antiguidade

Publicado em Mitos & Lendas por Anna Pires em 19 Julho 2008

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«As ruelas tornam-se mais estreitas e quase capilares, aproximando as muralhas do castelo. Deste ponto alto da serra a aldeia é só já um conjunto de telhados incrustados em declive rochoso. Obeliscos graníticos irrompem na paisagem grandiosa. As serras, os vales e uma vista quase infinita sobre a terra e o céu, o espaço…

Pela porta arqueada do castelo, onde outrora existiu um fosso com ponte levadiça, segue a procissão. No pátio, o rancho folclórico inicia a penúltima fase deste ritual milenar. Ao som do acordeão, as bonecas marafonas não param de dançar.

Adoradas como símbolo, amuleto ou potestade, não há noiva que ao casar não a coloque sobre o leito na noite de núpcias. Funciona então como a deusa da fertilidade. Não tem olhos, nada vê do que se passa na cama. E se não tem olhos, como dizem com ironia as mulheres, não pode ver a «badalica» do noivo.

Não tem boca nem ouvidos, nada ouve, nada conta. Deidade silenciosa e cúmplice que, em troca do seu silêncio, garante a continuidade da família.

Ao fim de hora e meia extenuados, músicos, bonecas e mulheres dão por finda a actuação. Mais um lanço de escadas e o bezerro chega finalmente ao destino. A amurada mais alta do castelo. Num ri-tual pagão é dita a reza e agrupados junto à muralha os lançadores esperam o momento do arremesso. Em gritaria colectiva, os objectos rituais são atirados «borda fora» e, ao embaterem nas escarpas rochosas, quebram-se abandonando as flores ao vento.

Os adufes calam-se suavemente. Debaixo do braço das mulheres repousam no regresso a casa. Instrumento de origem árabe, toda a aldeã que se preze sabe executá-lo.

Adufe é isso: uma caixa musical cujo som vai bem ao modo do cantar das gentes da Beira Baixa e das melodias ritmadas, ao «jeito» da terra cantaroladas, para exaltar a Virgem Maria, a mulher desposada, o castelo da terra ou a Senhora do Almortão.

A brisa traz o aroma de churrasco. Está na hora de descer para a aldeia. O caminho torna-se mais fácil e a arquitectura mais definida.

A construção das habitações, térreas ou de um só piso, são de traço típico popular beirão e apresentam uniformidade de estilo. Sobressaem na paisagem morena os solares pertencentes à fidalguia. Nos pátios das casas de pedra que parecem nascer entre rochas e flores assam-se febras, frangos e bacalhau. O vinho não se faz por esperar. A euforia das festas continua tarde fora até ao anoitecer pelas ruas de Monsanto: O burgo mais português.»

http://www.rotas.xl.pt/0300/a03-01-00.shtml

Viva o Stº António

Publicado em Mitos & Lendas por Anna Pires em 13 Junho 2008

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«As festas juninas guardam sinais de tradições. Inúmeros povos da Antiguidade, como os celtas, os egípcios e os persas, celebravam Juno, o deus da fertilidade, durante o solstício de verão – o dia mais longo e a noite mais curta do ano, que no hemisfério norte ocorre em junho. Ao pé da fogueira, eram feitas oferendas para garantir a boa colheita, espantar os maus espíritos e trazer a prosperidade. Com o tempo, a Igreja Católica aliou essas tradições a seu calendário.

Por aqui [Brasil], as comemorações do mês de Junho foram trazidas pelos portugueses e se uniram aos costumes indígenas (que também cultuavam o fogo) e aos dos negros. Desse caldeirão de culturas, veio o nosso jeito de festejar, com dança (quadrilhas), bandeiras coloridas e comida à base de amendoim e milho. Para agradar a Santo Antônio, que recebeu o título de casamenteiro, em seu dia, 13 de Junho, é erguido um mastro com sua imagem na ponta. Quem quer encontrar seu par tem que colocar a mão nele. Essa e outras simpatias fazem parte da festa. »
http://bonsfluidos.abril.com.br/livre/edicoes/0098/03/03.shtml

S. Pedro de Rates

Publicado em Mitos & Lendas por Anna Pires em 09 Junho 2008

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«S. Pedro de Rates é a maior freguesia do concelho da Póvoa de Varzim (com uma área de 1.383 ha). Desconhece-se a sua origem: a maior parte dos estudiosos afirma-a anterior à ocupação romana ou, pelo menos, do tempo desta (o que o termo “ratis” parece comprovar).»
www.cm-pvarzim.pt/municipio/juntas-de-freguesia/s-pedro-de-rates

 «Conta a tradição que S. Pedro de Rates foi convertido ao Cristianismo pelo Apóstolo S. Tiago, aquando da sua peregrinação pela Hispânica, no século I. Durante essa viagem, cumprindo a missão de difundir a mensagem de Cristo, morto e ressuscitado havia pouco tempo, foi deixando sementes que germinaram e fortaleceram as raízes da Igreja Católica Apostólica Romana, num império hostil à nova Fé. Pedro seria um dos 7 varões ordenados pelo Apóstolo, em Santiago de Compostela, e nomeado bispo de Braga.

Na lenda, o episódio que fez dele um mártir teve origem num milagre: solicitado para curar de doença fatal a filha de um poderoso pagão, S. Pedro de Rates conseguiu-lhe tal dádiva. Reconhecida, converteu-se ao Cristianismo, o que causou a ira do pai e consequente desejo de vingança. Avisado, o Santo refugiou-se em Rates, mas foi aí encontrado e assassinado. Ficou sepultado sob as ruínas da pequena capela onde tudo aconteceu, pois, à semelhança da vida do religioso, também foi destruída.

Tempos mais tarde, do alto do monte onde se refugiara, o eremita S. Félix vislumbrava uma luz na escuridão. Guiado pela curiosidade e pela convicção de um chamamento piedoso. Dirigiu-se ao local, procedeu à remoção das pedras e encontrou a causa de tal clarão: o corpo de S. Pedro de Rates.

A transladação do corpo intacto para a Sé de Braga faz, também, parte da lenda. Os factores reportam-se somente à transferência, no século XVI, pelo arcebispo Frei Baltazar Limpo, de relíquias do Santo (pequenos ossos que análises realizadas apontam ter pertencido a uma criança com cerca de 12 anos). O corpo, se alguma vez existiu, teria já desaparecido.

Muito devoto do seu Santo, a Vila de Rates colocou-se sob o seu cuidado. Nos limites definidos pelo caminho do cerco ele vela para que nem fome, nem peste, nem a guerra toquem nos seus protegidos. Para tal pode contar com o apoio de S. Sebastião, que é igualmente celebrado pela paróquia, a 20 de Janeiro.

Invocado para muitas graças, S. Pedro de Rates é, no entanto, associado à esterilidade. De uma antiga fonte com o seu nome diz-se que se poderia obter a cura da enfermidade, cumprindo o seguinte ritual: a mulher deveria sentar-se sobre uma pedra furada que aí existia. Talvez por ser mercê tão divina, tem o Santo fama de vingativo para com quem não cumpre o prometido. É, provavelmente por receio desse “humor”, que muitas mulheres grávidas guardam o dia do Santo – 26 de Abril – e até para os animais fêmeas no mesmo estado não é aconselhável a utilização nos trabalhos.»
www.cm-pvarzim.pt/turismo/conhecer-a-povoa/lendas-e-crencas

Kawasaki’s fertility festival

Publicado em Mitos & Lendas por Nicolau Gomes em 30 Maio 2008

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«Spring is in the air, and perhaps the joys of the season in the Kanto region are nowhere more lusciously expressed than in Kawasaki Daishi, Kanagawa Prefecture, which is bracing itself for its annual phallic festival. Shinto offers more titillating tumescent thrills than most world religions, at the Kanamara Matsuri (Festival of the Steel Phallus)»

Serra D’Arga

Publicado em Mitos & Lendas por Anna Pires em 26 Maio 2008

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«ARGA - Serra da provincia do Minho a pouca distância do rio Lima, que separa os concelhos de Viana do Castelo, Ponte do Lima e Paredes de Coura. No geral é de constituição granítica; o xisto, porém, forma alguns dos contrafortes orientais. Dos seus contrafortes, pelo Sul, nascente e poente, sobressai vivamente a lomba maior, com mais de 600 metros de altitude. No alto de serra, que pode escalar-se tanto pela portela do Cavalinho, a Oriente, como pelo povo do Cerquido (para quem parta do Sul e Oriente), desdobram-se três vastas chãs a de S. João, a de Cezeda, a Grande ou da Bica. Desta amplíssima agra (da qual procederá o nome da serra, corrompido na prosódia) desfruta-se magnífico panorama.

Onde hoje fica a popular capelinha chamada de S. João de Arga houve o chamado Mosteiro Máximo de beneditinos o qual no séc. XVI, já despovoado, passou a abadia secular e se converteu em reitoria no padroado dos marqueses de Vila Real. As notícias deste convento são muito vagas, nebulosas. A tradição põe no séc. VII a sua fundação. Na chá dum dos montes xistosos, entre o dorso da Arga e o castelo da Formiga, subsiste a capela de Santa Justa, à qual, em 19 de Julho, concorre muito povo em romaria, inclusive da Galiza. Como advogada da esterilidade feminina, oferecem-lhe principalmente frangos e frangas brancos.»

http://vianatrilhos.com/1999/19990619/texto.html

Lenda da Serra D’Arga

«Era uma vez um rei chamado Evígio, forte e severo, que ocupava o trono visigótico da Península Ibérica, parte do qual se estendia pelas terras férteis que, séculos mais tarde, iriam constituir Portugal. Evígio tinha uma filha única, de nome Eulália, muito bela, luz dos seus olhos, prometida por ele em, casamento ao valente guerreiro Remismundo, que desejava como seu sucessor. Mas Eulália amava outro.

Amava o jovem Egica, de nobre sangue real, também ele valoroso, é certo, mas cujos amores com Eulália o rei Evígio contrariava, preso ao compromisso tomado com Remismundo. Porque o coração se lhe negasse a aceitar a decisão paterna, Eulália resolveu fugir com Egica para longe do seu reino, onde encontrassem, juntos, a felicidade desejada.

E, numa certa noite escura, ambos, escapando à vigilância de servos e soldados, cavalgaram livres, para outros lugares mais amáveis. Ao saber da fuga dos jovens namorados, logo o rei enviou um poderoso exército em sua perseguição. Conscientes dos perigos que corriam, Eulália e Egica procuraram ocultar-se o melhor e o mais breve possível da ira de Evígio.

E, debaixo de uma violenta tempestade, chegaram à vista de uma alta serra, chamada Medúlio, próximo da Galiza, onde fora construído o Mosteiro Máximo, conhecido de Egica, pois ali residia um velho amigo seu, Frei Gondemaro, decerto pronto a acolher, com satisfação e carinho, o par de fugitivos.

Vencendo as fúrias do vento rude e da chuva insistente, não tardaram a bater às portas do Mosteiro e a cingir os braços generosos do monge, que prontamente lhes ofereceu uma mesa abundante e o repouso dos leitos. A manhã seguinte, trazendo consigo um Sol radioso, desvendou, aos olhos da princesa e do cavaleiro, panorama deslumbrante de campos semeados, densos e verdes arvoredos, águas rumorejantes de riachos, rebanhos brancos de ovelhas, o mugido melancólico dos bois, um pulsar de vida selvagem entre as brenhas, uma festa de pássaros nos ares.

E Eulália, encantada com o que via, exclamou:
- Porquê, chamar Medúlio ao esplendor e prosperidade desta serra, e não Agro como merece?

Respondeu-lhe o irmão Gondemaro:
- Razão tendes. Pois toda esta riqueza se deve ao trabalho agrícola, de Sol a Sol, dos nossos bons monges que a cultivam sem fadiga e com muito amor.

Rogou-lhe, então, o par de enamorado que, nesse dia magnífico, Gondemaro o casasse, antes que os homens de Evígio o descobrissem e levassem prisioneiro.

Fez-lhe o frade a vontade, no segredo do altar florido, ante a benção da cruz sagrada. Depois, Eulália e Egica partiram para novo reino, ainda mais distante do poder do rei ofendido. Mas Eulália, ainda junto do seu amado, sofria de saudade do pai e da sua pátria, e levava os dias em lágrimas. Até que chegou, por fim, ao castelo onde o casal morava, o velho monge do Mosteiro Máximo. Vinha exausto da viagem penosa, tão demorada e tão cheia de perigos.

Mas trazia boas notícias! O rei Evígio, também saudoso da filha querida, estava pronto a perdoar a desobediência e a fuga, se Eulália lhe desse um neto varão, para o perdão do rei e o regresso feliz dos exilados. Porém, antes de alcançarem o palácio de Evígio, perante a estima e o respeito de todos, quiseram voltar àquela altiva serra, onde haviam casado, chamada, agora, Serra de Arga, pois o povo, na sua ignorância, havia deturpado para Arga a palavra Agro, raiz da palavra Agricultura, com que Eulália justamente apelidara.

E assim a Serra ficou chamada até aos nossos dias, com a beleza da sua paisagem doce e agreste, cada vez mais fecunda e arroteada, com o bulício da sua fauna e pujança da sua flora, recebendo os louvores entusiásticos de quem lhe sobe aos altos e lhe desce aos vales, na devoção das romarias, escutando o balir manso dos rebanhos, o reboar dos sinos, o estrondo dos foguetes na lisura dos céus.»

VIANA, António Manuel Couto “Lendas do Vale do Lima”, (2002) Edição Valima - Associação de Municípios do Vale do Lima, Ponte de Lima,  pp. 82.

Ponte da Misarela

Publicado em Mitos & Lendas por Anna Pires em 21 Maio 2008

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“É uma ponte de arquitectura extravagante, louca, de um só arco, com mais de treze metros de vão, lançada com arrojo sobre dois rochedos, onde as águas do Rabagão se estreitam e despedaçam com fragor e saltam a grande altura, transformando-se em vaporosa chuva. O pavimento, abaúlado, mede 27 metros de comprimento. Fica no fundo de um desfiladeiro alcantilado, a um quilómetro da confluência do Rabagão com o Cávado. Tão medonho e agreste é o sítio e tão severo o aspecto da ponte, que a vivíssima imaginação do povo não tardou a tecer-lhe lendas.

Diz-se que um padre, querendo fazer uma pirraça ao Diabo, se disfarçou em salteador perseguido pelas justiças de Montalegre, e foi certo dia, à meia-noite, àquele lugar para passar o rio. Como o não pudesse passar, por meio de esconjuros, invocou o auxílio do Inimigo. Ouve-se um rumor subterrâneo e eis que aparece, afável e chamejante, o anjo rebelde:
- ‘Que queres de mim?’ - perguntou ele.

- ‘Passa-me para o outro lado e dar-te-ei a minha alma.’

Satanás, que antegozava já a perdição do sacerdote, estendeu-lhe um pedaço de pergaminho garatujado e uma pena molhada em saliva negra, dizendo:
- ‘Assina!’.

O padre assinou. O Demónio fez um gesto cabalístico e uma ponte saiu do seio horrendo das trevas.

O clérigo passa e, enquanto o diabo esfrega um olho, saca da caldeirinha da água benta, que escondera debaixo da capa de burel, e asparge com ela a infernal alvenaria, fazendo o sinal da cruz e pronunciando bem vincadas as palavras do exorcismo.

Lúcifer, logrado, deu um berro bestial e desapareceu num boqueirão aberto na rocha, por onde sairam línguas de fogo, estrondos vulcânicos e fumos pestilenciais. O vulgo das redondezas, na sua ignorância e ingenuidade, e não sabemos a origem, aproveitaa-se da ponte para ali exercer um rito singular.

Quando uma mulher, decorridos que sejam dezoito meses após o seu enlace matrimonial, não houver concebido, ou, quando pejada, se prevê um parto difícil ou perigoso, não tem mais que ir à Mizarela, à noite, para obter um feliz sucesso. Ali, com o marido e outros familiares, espera que passe o primeiro viandante. Este é então convidado para proceder à cerimónia, a qual consiste no baptismo in ventris do novo ou futuro ser. Para isso, o caminhante colhe, por meio de uma comprida corda com um vaso adaptado a uma das extremidades, um pouco de água do rio e com a mão em concha deita-a no ventre da paciente por um pequeno rasgão aberto no vestuário para este efeito, acompanhando a oração com a seguinte ladaínha:

Eu te baptizo
criatura de Deus,
Pelo poder de Deus,
e da Virgem Maria.
Se for rapaz, será ‘Gervás’;
se for rapariga, será Senhorinha.
Pelo poder de Deus e da Virgem Maria,
um Padre-Nosso e uma Avé-Maria.

O barulhar iracundo da cachoeira no abismo imprime a estas cenas um cunho de tétrica magia. Segue-se depois uma lauta ceia, assistindo, geralmente, o improvisado padrinho. E o êxito é completo: um neófito virá alegrar a família. Claro que se na primeira noite não passar o viandante desejado, a viagem à Mizarela repetir-se-á até o cerimonial se realizar nas condições devidas.

De um dos lados ergue-se um enorme rochedo que o povo denominou ‘Púlpito do Diabo’, por crer que o Demo vai ali pregar à meia-noite, quando as bruxas das redondezas se reunem em magno concílio…”

A ponte da Misarela em 360º (imagem lindíssima que dá parar rodar em 360º)

 [excerto do romance histórico “O mutilado de Ruivães - Das invasões francesas às lutas civis”, de Mário Moutinho e A. Sousa e Silva, Braga, 1980]

Akua’ba - Boneca da Fertilidade

Publicado em Mitos & Lendas por Anna Pires em 16 Maio 2008

akuaba3.jpgEsta boneca do Ghana representa um ser vivo que ainda não chegou - o filho que se deseja. 

Segundo a lenda, uma mulher chamada Akua era “estéril”, até que um curandeiro a instruiu para se fazer acompanhar de uma boneca e cuidar dela como se tratasse dum filho. Os vizinhos gozavam a pobre mulher, mas a sua fé foi recompensada com o nascimento duma filha - a “ba”, ou criança, era o nome da boneca.

Em África, depois de a boneca cumprir a sua tarefa, é entregue ao curandeiro, que a junta a todas as outras bonecas que lhe foram oferecidas, tal como sucede na nossa sociedade, ao enviarmos uma foto do nosso filho ao médico que nos acompanhou, para comprovar a sua competência.Para os homens, as bonecas são usadas para ajudar a encontrar uma esposa. 

É costume entre os Mossi de Burkina Faso uma mãe dar as primeiras gotas do seu leite à boneca que a acompanhou ao longo do tempo até ter o seu filho. Os Baule da Costa do Marfim “curam” a infertilidade também ao esculpirem uma boneca, para acalmar o espírito ciumento da esposa duma encarnação anterior.http://www.chron.com/content/chronicle/features/97/12/21/fertility.html