Homossexualidade e parentalidade
Tem sido longo e acidentado o reconhecimento da comunidade homossexual. O activismo LGBT, a mudança progressiva de mentalidades, o contributo de estudos na área da Psicologia, da Sociologia e da Medicina têm vindo a produzir alterações legais em muitos países. Deste modo, a situação é hoje bem diferente do que era no início do séc. XX, para não recuar mais atrás. Tal não significa que o preconceito e a homofobia tenham desaparecido; longe disso. Se deixou de ser viável a acusação de doença ou perversão, existem ainda áreas de grande “sobressalto” público, como a possibilidade de os homossexuais serem pais ou de recorrerem à procriação medicamente assistida (o acesso à PMA é permitido a todas as mulheres em Espanha e proibido às mulheres singulares em Portugal). A questão só não é mais visível, porque nesta área é ainda mais difícil “sair do armário” e também porque historicamente a questão da parentalidade se coloca num segundo momento. Em Portugal assistimos à transição, porventura demasiado lenta, para este segundo momento histórico. A investigação recente de Vanessa Ramalho, realizada sob orientação científica do Psicólogo Eduardo Sá, vem confirmar entre nós a experiência de outras nações. Em síntese: partindo da análise de algumas dezenas de pais do mesmo sexo, a autora conclui que estes são «afectuosos, tranquilos, confiantes e firmes nas decisões», contrariamente ao que se especula. Quando os pais homossexuais decidem ter ou adoptar filhos, os inquéritos mostram que tendem a fazê-lo após um período de reflexão pessoal, com grande determinação. O que a investigação internacional nos diz também, em centenas de estudos e relatórios, é que o problema não está nos novos modelos familiares em si mesmos, mas no preconceito e na pressão que se geram à sua volta. Quando se comparam estas famílias com as heterossexuais, em vários aspectos críticos (qualidade da relação parental, medido em testes e inquéritos às próprias crianças; percurso escolar; atitude das crianças em relação à sexualidade; possível influência sobre a identidade sexual das crianças etc. etc.), o que aparece como mais difícil de gerir é portanto o que está fora de casa, não o que está dentro de casa. Dir-se-ia que o problema somos “nós”. Mesmo nos Estados Unidos, onde existem milhões de pais homossexuais, um dos aspectos que mais os preocupa é a escolha de um ambiente social tolerante e, com grande prioridade, de uma escola tolerante, como se pode ler aqui: “Is This the Right School for Us? A Guide to Assessing School Climates for LGBT Parents of Elementary-Aged Children.”
Voz com corpo…

“A voz da rádio” é uma daquelas expressões feitas que tendem a esconder o significado das palavras. A reportagem “Sementes de Esperança”, da autoria de Teresa Bizarro, na TSF, lembra-nos como a rádio pode de facto ser voz autêntica, uma voz absoluta, sem a dispersão causada pelas imagens que saturam o espaço mediático. É esta voz com corpo e respiração que se ouve ao escutarmos a Maria, o João, a Mafalda, a Gisela, a Kitty, o Pedro, a Filomena, e ainda outras vozes de médicos e psicólogos que nos últimos anos vêm lidando com a infertilidade em Portugal. Na memória fica o eco e os danos causados a muitas vidas suspensas: “somos tantos, porque tardam em olhar para nós?”; “esta doença foi deixada para trás”; “aí o mundo desabou”; “as mulheres culpabilizam-se muito”; “foi preciso bater no fundo para reencontrar o sentido da vida”; “perdem o sentido da existência”; “um coração que faz profissão de fé na ciência”; “passei a ver a infelicidade com outros olhos”…
A reportagem pode ser ouvida na íntegra aqui:
http://tsf.sapo.pt/programas/programa.aspx?content_id=917979
A minha vida secreta

“Não SOU adoptada; as minhas origens são misteriosas.”
Como pessoa que foi adoptada, repeti esta frase inúmeras vezes ao longo da minha vida. Gosto tanto dela que a coloquei na boca de uma personagem no romance que estou agora a escrever. Tanto a personagem como eu própria temos orgulho nesta afirmação. Imaginamo-nos a viver nas páginas densas da ficção do século XIX, uma época em que a questão da origem – saber quem era o pai e a mãe – não era tão importante quanto as “circunstâncias” de cada um de nós.
Alguns dirão que cheguei a esta conclusão porque até há pouco desconhecia tudo o que rodeou a minha adopção. Mesmo a data da sua ocorrência era um segredo. (A funcionária disse-me ao telefone, “Esses são dados reservados”; e eu perguntei “Sei que não os posso ver, mas posso ao menos saber a data que consta nos registos?”. Ela responde: “Até isso está selado” – uma declaração perturbadora, pois fazia-me imaginar uma sucessão infinita de envelopes dentro de outros envelopes.
Claro, ter origens misteriosas é um assunto complicado nos dias que correm. Uma pessoa pode ser gerada num ventre desconhecido e os genes serem uma combinação entre os nossos pais e uma estranha; o ventre materno pode até misturar apenas os genes da mãe com os de um estranho – para não falar no caso dos irmãos desconhecidos que podem andar por aí, após uma doação de esperma. Existem pais adoptivos e pais biológicos, mães gestacionais e dadores de gâmetas – toda uma diversidade de adultos que podem reclamar a paternidade/maternidade com base no sangue, nos genes, no nascimento, na lei ou no afecto.
Temos direito a conhecer estas pessoas todas? Se assim for, terão estas pessoas também o direito recíproco de conhecer as crianças em cujo nascimento participaram?
Não vou sequer tentar responder a estas perguntas. Parece que estamos destinados a ter uma longa conversa sobre este assunto nos anos que aí vêm. É certo que tudo aponta para uma maior abertura, para um “direito” em conhecer. Não sou contra esta tendência. Apenas quero dar ao desconhecimento a atenção que lhe é devida.
Gosto de mistérios. Gosto do sentido absolutamente singular que advém de termos uma origem desconhecida (por mais falso que esse sentido possa ser). Tenho uma amiga próxima que também é adoptada. Trocámos umas ideias quando considerámos a possibilidade de inscrevermos os nossos nomes no registo de adopção do Estado de Nova Iorque, onde poderíamos saber algo mais sobre o nosso passado.
A minha amiga cresceu numa pequena vila perto de uma universidade. Ela tinha inventado para si própria uma fantasia satisfatória, segundo a qual a mãe e o pai tinham estado na vila como bolseiros do Banco Mundial, desempenhavam os papéis de “rei” e “rainha”, numa região remota em que toda a gente gozava de boa saúde e sobrevivia em regime dietético, baseado em iogurte de iaque, até aos 110 anos de idade. Ela decidiu não avançar com o registo. “Para mim uma família é mais do que suficiente”, disse-me.
As minhas fantasias eram mais difusas: o conjunto de pais incluía uma actriz, músicos populares, escritores e intelectuais. Tenho a certeza de que nenhum deles era como os especialistas em computação e ciência que correm nas veias da família do meu pai adoptivo. Creio que é por sua causa, por causa do exemplo destes engenheiros e professores de matemática, que eu própria entrei para engenharia informática, um campo para o qual não tenho uma inclinação natural (era suficientemente boa, mas tive de estudar bastante). Se eu tivesse sido educada por sonhadores compulsivos - escritores, leitores ou os que escrevem cartas sem fim – pessoas que certamente incluíram os meus pais “naturais”, jamais teria passado vinte anos como programadora de computadores.
E este é exactamente o meu ponto. Imagino logo a minha mãe biológica percorrendo as páginas de “Daniel Deronda” (Livro V, “Mordecai”), de George Eliot, dizendo “Querida, andas para aí a lutar com esses programas austeros e ainda nem leste ‘Middlemarch’”. E assim eu teria desistido precocemente de tentar o meu algoritmo da sorte, tal como teria passado ao lado da profissão que define a época em que vivemos.
Ninguém é o equivalente genético dos seus pais. A Natureza deu-se ao trabalho de garantir que somos diferentes (mais uma boa razão para lutarmos contra a hipótese de juntar a clonagem ao leque das opções parentais). Através do milagre da recombinação genética, cada filho, com excepção de um gémeo monozigótico, constitui-se como um indivíduo único. Até o ambiente do ventre materno opera as suas subtilezas, de modo que quando nos confrontamos com a luz do dia, estamos já por nossa conta. Conhecer cada um dos nossos antepassados jamais resolverá o mistério mais profundo, justamente o insondável que é conhecer aquilo que um dia seremos.
New York Times, 1 de Janeiro de 2009
http://www.nytimes.com/2009/01/02/opinion/02ullman.html?_r=1
[Ellen Ullman é autora de diversos livros de programação informática e de dois romances]
A tradução é do Marco, no Fórum APFertilidade:
http://forum.apfertilidade.org/phpBB2/viewtopic.php?t=22272
“A Igreja, a sexualidade e a bioética”
As crónicas do Padre Anselmo Borges continuam a ser dos melhores motivos para se comprar o “Diário de Notícias” aos Sábados. Podemos discordar (e discordo muitas vezes), mas a sua escrita alimenta a reflexão e, em dias como o de hoje, interroga o fundamento das posições da Igreja institucional. Ao comentar o livro “A Sexualidade, a Igreja e a Bioética. 40 anos de Humanae Vitae”, o Padre Anselmo Borges questiona o que terá “envenenado” a relação da Igreja com o corpo e a sexualidade, passando pela ideia de pecado original, pela imposição (oficial e tardia) do celibato e, importante para o que aqui interessa, sobre os limites incertos entre o que é biológico/natural e o que é artificial:
«Neste domínio da contracepção, o equívoco fundamental da encíclica Humanae Vitae encontra-se numa concepção de lei natural fixa, estática e centrada na biologia. Ora, por natureza, o ser humano é cultural e histórico e a própria realidade é processual. A sexualidade humana não pode ser vista apenas na sua vertente biológica. Como pode o Magistério fixar-se na biologia, esquecendo que, para ser verdadeiramente humana, a sexualidade envolve o biológico, o afectivo, a ternura, o amor, o espiritual? Por outro lado, na perspectiva bíblica, não criou Deus o Homem como criatura co-criadora? Não é o Homem, por natureza, interventivo, aperfeiçoador e transformador da natureza? Então, no juízo moral, o critério não pode ser o natural identificado com o bem e o artificial identificado com o mal, mas a responsabilidade digna e a dignidade responsável.»
Versão completa:
http://dn.sapo.pt/2008/11/29/opiniao/igreja_sexualidade_e_bioetica.html
Há momentos em que a gente se lembra da Deolinda…
Agora sim, damos a volta a isto!
Agora sim, há pernas para andar!
Agora sim, eu sinto o optimismo!
Vamos em frente, ninguém nos vai parar!
Agora não, que é hora do almoço…
Agora não, que é hora do jantar…
Agora não, que eu acho que não posso…
Amanhã vou trabalhar…
Agora sim, temos a força toda!
Agora sim, há fé neste querer!
Agora sim, só vejo gente boa!
Vamos em frente e havemos vencer!
Agora não, que me dói a barriga…
Agora não, dizem que vai chover…
Agora não, que joga o Benfica…
e eu tenho mais que fazer…
Agora sim, cantamos com vontade!
Agora sim, eu sinto a união!
Agora sim, já ouço a liberdade!
Vamos em frente, é esta a direcção!
Agora não, que falta um impresso…
Agora não, que o meu pai não quer…
Agora não, que há engarrafamentos…
Vão sem mim, que eu vou lá ter…
Ter filhos (2)
O Artº 16 da “Declaração Universal dos Direitos Humanos” (1948) afirma que todo o indivíduo tem direito a «casar e constituir família». Este direito, inscrito num texto que reflectia o espírito gregário do pós-Guerra, tem sido nas últimas décadas abordado de diversas formas, mas algo parece reunir o consenso: é extremamente difícil conceber a existência de um direito à procriação, pois trata-se de um terreno onde as questões políticas, simbólicas e pessoais se cruzam a todo o momento, de forma intensa e por vezes contraditória. Talvez por isso a pergunta sobre o direito de ter filhos seja tão frequente. Não só as pessoas e os casais são questionados enquanto indivíduos, como a própria procriação medicamente assistida (PMA) é por vezes posta em causa.
Boa parte desta oposição social e moral à PMA assenta em valores profundamente enraizados na sociedade. Estas atitudes e valores poderiam ser associados a um misto de comunitarismo conservador e de naturalismo essencial: as pessoas acreditam que a procriação humana é algo que acontece e deve continuar a acontecer naturalmente, no contexto da vida social e familiar. A PMA deveria ser recusada porque pretende “controlar” este mundo em que as coisas acontecem simplesmente, segundo os desígnios da natureza e do acaso. Em geral, as mesmas pessoas não pensam o mesmo relativamente a outras condições médicas. Por exemplo, seria impensável deixar a natureza seguir o seu curso perante um problema cardíaco ou perante uma alergia persistente.
(continua)
Freakonomics
Medicine and Statistics Don’t Mix
Stevin D. Levitt - New York Times
Some friends of mine recently were trying to get pregnant with the help of a fertility treatment. At great financial expense, not to mention pain and inconvenience, six eggs were removed and fertilized. These six embryos were then subjected to Pre-Implantation Genetic Diagnosis (P.G.D.), a process which cost $5,000 all by itself.
The results that came back from the P.G.D. were disastrous.
Four of the embryos were determined to be completely non-viable. The other two embryos were missing critical genes/D.N.A. sequences which suggested that implantation would lead either to spontaneous abortion or to a baby with terrible birth defects.
The only silver lining on this terrible result is that the latter test had a false positive rate of 10 percent, meaning that there was a one-in-ten chance that one of those two embryos might be viable.
So the lab ran the test again. Once again the results came back that the critical D.N.A. sequences were missing. The lab told my friends that failing the test twice left only a 1 in 100 chance that each of the two embryos were viable.
My friends — either because they are optimists, fools, or perhaps know a lot more about statistics than the people running the tests — decided to go ahead and spend a whole lot more money to have these almost certainly worthless embryos implanted nonetheless.
Nine months later, I am happy to report that they have a beautiful, perfectly healthy set of twins.
The odds against this happening, according to the lab, were 10,000 to 1.
So what happened? Was it a miracle? I suspect not. Without knowing anything about the test, my guess is that the test results are positively correlated, certainly when doing the test twice on the same embryo, but probably across embryos from the same batch as well.
But, the doctors interpreted the test outcomes as if they were uncorrelated, which led them to be far too pessimistic. The right odds might be as high as 1 in 10, or maybe something like 1 in 30. (Or maybe the whole test is just nonsense and the odds were 90 percent!)
Anyway, this is just the latest example of why I never trust statistics I get from people in the field of medicine, ever.
My favorite story concerns my son Nicholas:
Relatively early on in the pregnancy we had an ultrasound. The technician said that although it was very early, he thought he could predict whether it would be a boy or a girl, if we wanted to know. We said, “Yes, absolutely we want to know.” He told us he thought it would be a boy, although he couldn’t be certain.
“How sure are you?” I asked
“I’m about 50-50,” he replied.
Voz emprestada: Antes de adotar…

Antes de adotar, é preciso elaborar o luto pelo filho não-gerado
«Aproveitando a proximidade do Dia das Mães e o recém-aprovado cadastro único de adoção no país, a psicóloga Luciana Leis nos escreveu um artigo muito interessante sobre o tema. Assino embaixo as colocações, especialmente quando ela diz que, antes de partir para a adoção, é preciso elaborar o luto pela perda do filho biológico que não foi gerado.
Penso que elaborar esse luto não significa, muitas vezes, enterrar em definitivo o sonho de gestação. Conheço dezenas de histórias de gravidezes improváveis após uma adoção. O importante, porém, é reconhecer que as tentativas frustradas de gravidez implicam luto e elaborá-lo é fundamental para o exercício de outras formas de maternidade.»
Versão completa: http://claudiacollucci.blog.uol.com.br/
Tudo por um Filho…
A capa do P2 da edição de hoje do jornal Público (17/06/2008; ed. online, 5h:33m) abre com a imagem que se supõe ser do rosto algo macerado, embora ainda jovem e inocente, da mulher que raptou um bebé no Hospital Padre Américo,
http://jornal.publico.clix.pt/
Do macho e da (in)fertilidade
O macho tem pénis e testículos. Se na mulher o orgão sexual está escondido, num trajecto interior e discreto, o macho “é” macho porque tem e mostra que tem. Isso deixa-o seguro de si: “Tê-los lá no sítio”, como se costuma dizer. É isto uma certa maneira de ser homem, que é também uma certa maneira de (não) entender as mulheres. O que acontece a um homem assim quando lhe dizem que os testículos não estão a “produzir” em condições? Ora,… é o mundo macho que desaba, e com ele pode desabar tudo o que está à volta, incluindo a mulher do macho. É urgente educarmos com (im)paciência infinita este macho fálico, passe a redundância, mostrando-lhe que há vida para além dos testículos…
Nota: A imagem ao cimo mostra uma das muitas manias “macho” que existem por esse mundo fora. É um adereço que começava a andar pendurado nas pick-ups da Flórida, até que um senador achou que era testículo a mais para andar a distrair o trânsito e a coisa está em tribunal. Quem mostrar os testículos pode vir a pagar 60 dólares de multa, mas para alguns o preço vale sempre a pena, até porque é toda uma indústria macho que agora está em perigo: http://www.yournutz.com/


