Tutto il resto è un rumore lontano…
Momentos (2): L. Cohen, sobre Kavafis
Loreena McKennitt - Penelope’s Song
A pedido da Anna Pires:
Now that the time has come
Soon gone is the day
There upon some distant shore
You’ll hear me say
Long as the day in the summer time
Deep as the wine dark sea
I’ll keep your heart with mine.
Till you come to me.
There like a bird I’d fly
High through the air
Reaching for the sun’s full rays
Only to find you there
And in the night when our dreams are still
Or when the wind calls free
I’ll keep your heart with mine
Till you come to me
Now that the time has come
Soon gone is the day
There upon some distant shore
You’ll hear me say
Long as the day in the summer time
Deep as the wine dark sea
I’ll keep your heart with mine.
Till you come to me.
Citações (3): Os Filhos São Figuras Estremecidas

«Os filhos são figuras estremecidas
e, quando dormem, a felicidade
cerra-lhes as pálpebras, toca-lhes
os lábios, ama-os sobre as camas.
É por mim que chamam quando temem
o eclipse e o temporal. Trazem nos cabelos
o aroma do leite e da festa das rosas.
Voam-me por entre os dedos, por entre
as malhas da rede de espuma
que lanço a seus pés. Reinam
num sítio de penumbra onde não
me atrevo sequer a dizer quem sou.»
José Jorge Letria, in: Os Achados da Noite
Citações (2): Havia uma mulher que não queria ter filhos de seu ventre
«Lugar 1 - nesse lugar havia uma mulher que não queria ter filhos de seu ventre. Pedia aos homens que lhe trouxessem os filhos de suas mulheres para educá-los numa grande casa de um só quarto e de uma só janela; usava um xaile preto junto de seu rosto; tinha uma maneira distante de fazer amor: pelos olhos e pela palavra. Também pelo tempo, pois desde os tempos de sua bisavó, voltar a qualquer época era sempre possível»
M. Gabriela Llansol, In: O Livro das Comunidades, Ed. Afrontamento, 1977, p. 11
Gattaca: a vida como (a)caso

Gattaca (1997) é um filme de ficção científica, atravessado por um conjunto de motivos a um tempo inquietantes e envolventes: uma sociedade dividida em “válidos” e “inválidos”; a genética como desejo incontido de superação do ser pelo ser; a força oculta do destino, trocando as voltas às certezas da ciência; uma sucessão quase bíblica de encontros e desencontros entre dois irmãos; momentos acompanhados pela música etérea de Michael Nyman; actores que o futuro confirmaria, como Ethan Hawke ou Uma Thurman; a presença episódica de Gore Vidal, o escritor que levou mais longe que nenhum outro a ideia do acaso e da sorte. E muitas cenas memoráveis, como a de abertura:
“Costumava-se dizer que um filho concebido com amor tinha mais hipóteses de ser feliz. Hoje já não é assim. Nunca entendi por que razão a minha mãe deixou o destino nas mãos de Deus, em vez de se dirigir ao geneticista da área de residência. Antigamente bastavam 10 dedos nos pés e outros 10 nas mãos. Hoje, apenas alguns segundos depois do nascimento, ficamos a saber o dia e a causa exacta da nossa morte.»
“Olá, mãe, eu ainda não existo”
Olá, mãe, eu ainda não existo
sou apenas o teu sonho de ternura
em busca da eternidade
Sei que me procuras com todo o risco
os teus dias são feitos de amargura
para que o destino seja natividade
Eu tenho um nome antes de nascer
e uma casa plena de afectos
para que, mãe, possas renascer
e eu seja o sentido
dos teus projectos.
Eu não desisto de ti, mãe
Sou apenas uma ideia quando olhas as estrelas
perdida no paraíso dos sonhos
Um dia serei alguém
a navegar nos teus braços como caravelas
no mar dos teus olhos risonhos
Eu sou o filho que te espera
no mundo desconhecido do além
farei parte de uma nova era
serei o filho sonhado de minha mãe.
Luís Filipe Sarmento escreveu especialmente para este dia e para este blog o poema acima transcrito. Poeta, jornalista, tradutor e realizador com trabalhos em televisão e vídeo, Luís Filipe Sarmento é autor de títulos como Trilogia da noite (1978), Nubens (1979), Fragmentos de uma conversa de Quarto (1989), Boca barroca (1990) e de A Crónica da Vida Social dos Ocultistas (2008).
“Sem um filho te apagarás no poente”

«A luz real ergueu-se a oriente
com a coroa de fogo na cabeça:
e o nosso olhar, vassalo obediente,
ajoelha ante a visão que recomeça.
Enquanto sobe, Sua Majestade,
a colina do céu a passos de oiro,
adoramos-lhe a adulta mocidade
que fulge com as chamas dum tesoiro.
Mas quando o carro fatigado alcança
o cume e se despenha pela tarde,
desviamos os olhos já sem esperança:
no crepúsculo estéril nada arde.
Assim tu, meio dia ainda ardente,
sem um filho te apagarás no poente.»
William Shakespeare (Soneto nº 7), em tradução de C. de Oliveira
Original + explicação:
http://www.shakespeare-online.com/sonnets/7detail.html
A propósito de segredos…
A Respiração dos Poetas
A propósito do Natal… e dos desafios, sonhos e conquistas que um berço (cheio de esperança) é capaz de representar …
Poema de Natal
Para isso fomos feitos:
Para lembrar e ser lembrados
Para chorar e fazer chorar
Para enterrar os nossos mortos —
Por isso temos braços longos para os adeuses
Mãos para colher o que foi dado
Dedos para cavar a terra.
Assim será nossa vida:
Uma tarde sempre a esquecer
Uma estrela a se apagar na treva
Um caminho entre dois túmulos —
Por isso precisamos velar
Falar baixo, pisar leve, ver
A noite dormir em silêncio.
Não há muito o que dizer:
Uma canção sobre um berço
Um verso, talvez de amor
Uma prece por quem se vai —
Mas que essa hora não esqueça
E por ela os nossos corações
Se deixem, graves e simples.
Pois para isso fomos feitos:
Para a esperança no milagre
Para a participação da poesia
Para ver a face da morte —
De repente nunca mais esperaremos…
Hoje a noite é jovem; da morte, apenas
Nascemos, imensamente.Vinicius de Moraes
A Respiração dos Poetas…
No coração da neve
e no espaço
no silêncio e na infância
no amor na solidão na liberdade
na gentileza na fraternidade
o mesmo puro delírio
de iluminar as trevas
sem diminuir o sonho
e fazê-las cantar
à luz do dia
[in À Memória de Paul Éluard]
NÃO POSSO ADIAR O AMOR
Não posso adiar o amor para outro século
não posso
ainda que o grito sufoque na garganta
ainda que o ódio estale e crepite e arda
sob montanhas cinzentas
e montanhas cinzentas
Não posso adiar este abraço
que é uma arma de dois gumes
amor e ódio
Não posso adiar
ainda que a noite pese séculos sobre as costas
e a aurora indecisa demore
não posso adiar para outro século a minha vida
nem o meu amor
nem o meu grito de libertação
Não posso adiar o coração
[in Viagem Através de uma Nebulosa]
PASSAGEM
(…)
É onde agora ninguém me vem chamar
e uma outra luta prossegue imponderável.
O tempo vai chegar mas eu aqui passei
ou algo em mim passou quando o final chegar
deste fim que escuto e sou no seu passar.
[in Terraço Aberto]
A Respiração de António Ramos Rosa. Sobre o amor, nas suas múltiplas faces. Sobre a espera, a procura e o caminho. Sobre a virtude do silêncio e a exigência da voz. Sobre os retalhos das vidas de cada um(a) de nós, e sobre o que sentimos, enquanto sustemos a respiração.
Música às segundas…

Jorge Palma, sobre ilusões e situações…
“O Centro Comercial Fechou” [Vôo Nocturno, 2007]
http://www.youtube.com/watch?v=XOkbBZNgskM
«O centro comercial fechou
E a Maria vai viver a vida mais longe
Longe das ilusões
Em cima das situações
Perigosas
O Toino não morreu no mar
Acabou de adquirir um castelo na Escócia
Enfim, não é bem na Escócia
É uma cave sombria
Em Gaia.
O passado já lá está
Raio de uma sorte cinzenta
E o presente é uma réstia de esperança enquanto houver saúde
Há que cuidar do aspecto
Fazê-lo parecer natural
Por mais que seja cruel não há ninguém que ajude
Ninguém nos ensinou a usar
Nada do que recolhemos pelo caminho
Perto das ilusões
Entre o amor e as razões
Perversas
O passado já lá está
Raio de uma sorte cinzenta
E o presente é uma réstia de esperança enquanto houver saúde
Há que cuidar do aspecto
Fazê-lo parecer natural
Por mais que seja cruel não há ninguém que ajude.»
Música às segundas…
Dizem que é a melhor canção de amor…
Nick Kave, The ship song
http://www.youtube.com/watch?v=FdSzNPwILYA&feature=related
Come sail your ships around me
And burn your bridges down.
We make a little history baby
Every time you come around.
Come loose your dogs upon me
And let your hair hang down.
You are a little mystery to me
Every time you come around.
We talk about it all night long
We define our moral ground.
But when I crawl into your arms
Everything comes tumbling down.
Come sail your ships around me
And burn your bridges down.
We make a little history baby
Every time you come around.
Your face has fallen sad now
For you know the time is nigh
When I must remove your wings
And you, you must try to fly.
Come sail your ships around me
And burn your bridges down.
We make a little history baby
Every time you come around.
Come loose your dogs upon me
And let your hair hang down.
You are a little mystery to me
Every time you come around.
Cadeiras
«Esta pintura representa uma sala de espera, numa clínica de infertilidade; queria algo mágico. O quadro está cheio de símbolos. As abelhas são as pessoas que trabalham com o Doutor (a cadeira). As abelhas trabalham arduamente, levando o pólen de flor em flor, para as fertilizar.»
Carmen Martínez Jover é uma artista plástica que tem uma paixão por “cadeiras”. O seu trabalho desperta-nos sentimentos de felicidade, de estar-junto, de solidão, de tristeza. Utilizando cores vivas, as suas pinturas contam-nos histórias de muitas famílias e emoções. As representações de cadeiras começaram por ser a sua forma de expressar sentimentos pessoais de tristeza, frustração ou impotência em relação à infertilidade; graças a estes momentos de meditação interna, conseguiu assim criar novas formas de expressar o seu amor pela vida e de persisitir na vida.
Infertility
Samira Abbassy
Infertility, 1999-2000
“Passagem das Horas”
«Trago dentro do meu coração,
Como num cofre que se não pode fechar de cheio,
Todos os lugares onde estive,
Todos os portos a que cheguei,
Todas as paisagens que vi através de janelas ou vigias,
Ou de tombadilhos, sonhando,
E tudo isso, que é tanto, é pouco para o que eu quero.
(…)
A certos momentos do dia recordo tudo isto e apavoro-me,
Penso em que é que me ficará desta vida aos bocados, deste auge,
Desta estrada às curvas, deste automóvel à beira da estrada, deste aviso,
Desta turbulência tranquila de sensações desencontradas,
Desta transfusão, desta insubsistência, desta convergência iriada,
Deste desassossego no fundo de todos os cálices,
Desta angústia no fundo de todos os prazeres,
Desta saciedade antecipada na asa de todas as chávenas,
Deste jogo de cartas fastiento entre o Cabo da Boa Esperança e as Canárias. (…)»
“Passagem das Horas”, Fernando Pessoa/Álvaro de Campos
Childless Women

Childless Women
SYLVIA PLATH
The womb
Rattles its pod, the moon
Discharges itself from the tree with nowhere to go.
My landscape is a hand with no lines,
The roads bunched to a knot,
The knot myself,
Myself the rose you achieve -
This body,
This ivory
Ungodly as a child’s shriek.
Spiderlike, I spin mirrors,
Loyal to my image,
Uttering nothing but blood -
Taste it, dark red!
And my forest
My funeral,
And this hill and this
Gleaming with the mouths of corpses.




