A Respiração dos Poetas

Publicado em Artes por Ana Fonseca em 23 Dezembro 2008

A propósito do Natal… e dos desafios, sonhos e conquistas que um berço (cheio de esperança) é capaz de representar …

Poema de Natal


Para isso fomos feitos:
Para lembrar e ser lembrados
Para chorar e fazer chorar
Para enterrar os nossos mortos —
Por isso temos braços longos para os adeuses
Mãos para colher o que foi dado
Dedos para cavar a terra.
Assim será nossa vida:
Uma tarde sempre a esquecer
Uma estrela a se apagar na treva
Um caminho entre dois túmulos —
Por isso precisamos velar
Falar baixo, pisar leve, ver
A noite dormir em silêncio.
Não há muito o que dizer:
Uma canção sobre um berço
Um verso, talvez de amor
Uma prece por quem se vai —
Mas que essa hora não esqueça
E por ela os nossos corações
Se deixem, graves e simples.
Pois para isso fomos feitos:
Para a esperança no milagre
Para a participação da poesia
Para ver a face da morte —
De repente nunca mais esperaremos…
Hoje a noite é jovem; da morte, apenas
Nascemos, imensamente.

Vinicius de Moraes

A Respiração dos Poetas…

Publicado em Artes por Ana Fonseca em 09 Outubro 2008

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No coração da neve
e no espaço
no silêncio e na infância
no amor na solidão na liberdade
na gentileza na fraternidade
o mesmo puro delírio
de iluminar as trevas
sem diminuir o sonho
e fazê-las cantar
à luz do dia
[in À Memória de Paul Éluard]

NÃO POSSO ADIAR O AMOR
Não posso adiar o amor para outro século
não posso
ainda que o grito sufoque na garganta
ainda que o ódio estale e crepite e arda
sob montanhas cinzentas
e montanhas cinzentas
Não posso adiar este abraço
que é uma arma de dois gumes
amor e ódio
Não posso adiar
ainda que a noite pese séculos sobre as costas
e a aurora indecisa demore
não posso adiar para outro século a minha vida
nem o meu amor
nem o meu grito de libertação
Não posso adiar o coração
[in Viagem Através de uma Nebulosa]

PASSAGEM
(…)
É onde agora ninguém me vem chamar
e uma outra luta prossegue imponderável.
O tempo vai chegar mas eu aqui passei
ou algo em mim passou quando o final chegar
deste fim que escuto e sou no seu passar.
[in Terraço Aberto
]

A Respiração de António Ramos Rosa. Sobre o amor, nas suas múltiplas faces. Sobre a espera, a procura e o caminho. Sobre a virtude do silêncio e a exigência da voz. Sobre os retalhos das vidas de cada um(a) de nós, e sobre o que sentimos, enquanto sustemos a respiração.

Música às segundas…

Publicado em Artes por Nicolau Gomes em 06 Outubro 2008

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Jorge Palma, sobre ilusões e situações…

“O Centro Comercial Fechou” [Vôo Nocturno, 2007]
http://www.youtube.com/watch?v=XOkbBZNgskM

«O centro comercial fechou
E a Maria vai viver a vida mais longe
Longe das ilusões
Em cima das situações
Perigosas

O Toino não morreu no mar
Acabou de adquirir um castelo na Escócia
Enfim, não é bem na Escócia
É uma cave sombria
Em Gaia.

O passado já lá está
Raio de uma sorte cinzenta
E o presente é uma réstia de esperança enquanto houver saúde
Há que cuidar do aspecto
Fazê-lo parecer natural
Por mais que seja cruel não há ninguém que ajude

Ninguém nos ensinou a usar
Nada do que recolhemos pelo caminho
Perto das ilusões
Entre o amor e as razões
Perversas

O passado já lá está
Raio de uma sorte cinzenta
E o presente é uma réstia de esperança enquanto houver saúde
Há que cuidar do aspecto
Fazê-lo parecer natural
Por mais que seja cruel não há ninguém que ajude.»

Música às segundas…

Publicado em Artes por Nicolau Gomes em 29 Setembro 2008

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Dizem que é a melhor canção de amor…

Nick Kave, The ship song
http://www.youtube.com/watch?v=FdSzNPwILYA&feature=related

Come sail your ships around me
And burn your bridges down.
We make a little history baby
Every time you come around.

Come loose your dogs upon me
And let your hair hang down.
You are a little mystery to me
Every time you come around.

We talk about it all night long
We define our moral ground.
But when I crawl into your arms
Everything comes tumbling down.

Come sail your ships around me
And burn your bridges down.
We make a little history baby
Every time you come around.

Your face has fallen sad now
For you know the time is nigh
When I must remove your wings
And you, you must try to fly.

Come sail your ships around me
And burn your bridges down.
We make a little history baby
Every time you come around.

Come loose your dogs upon me
And let your hair hang down.
You are a little mystery to me
Every time you come around.

Cadeiras

Publicado em Artes por Anna Pires em 11 Junho 2008

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 «Esta pintura representa uma sala de espera, numa clínica de infertilidade; queria algo mágico. O quadro está cheio de símbolos. As abelhas são as pessoas que trabalham com o Doutor (a cadeira). As abelhas trabalham arduamente, levando o pólen de flor em flor, para as fertilizar.»

Carmen Martínez Jover é uma artista plástica que tem uma paixão por “cadeiras”. O seu trabalho desperta-nos sentimentos de felicidade, de estar-junto, de solidão, de tristeza. Utilizando cores vivas, as suas pinturas contam-nos histórias de muitas famílias e emoções. As representações de cadeiras começaram por ser a sua forma de expressar sentimentos pessoais de tristeza, frustração ou impotência em relação à infertilidade; graças a estes momentos de meditação interna, conseguiu assim criar novas formas de expressar o seu amor pela vida e de persisitir na vida.

www.carmenmartinezjover.com/index02.html

Infertility

Publicado em Artes por Anna Pires em 06 Junho 2008

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Samira Abbassy
Infertility, 1999-2000

“Passagem das Horas”

Publicado em Artes por Nicolau Gomes em 24 Maio 2008

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«Trago dentro do meu coração,
Como num cofre que se não pode fechar de cheio,
Todos os lugares onde estive,
Todos os portos a que cheguei,
Todas as paisagens que vi através de janelas ou vigias,
Ou de tombadilhos, sonhando,
E tudo isso, que é tanto, é pouco para o que eu quero.
(…)
A certos momentos do dia recordo tudo isto e apavoro-me,
Penso em que é que me ficará desta vida aos bocados, deste auge,
Desta estrada às curvas, deste automóvel à beira da estrada, deste aviso,
Desta turbulência tranquila de sensações desencontradas,
Desta transfusão, desta insubsistência, desta convergência iriada,
Deste desassossego no fundo de todos os cálices,
Desta angústia no fundo de todos os prazeres,
Desta saciedade antecipada na asa de todas as chávenas,
Deste jogo de cartas fastiento entre o Cabo da Boa Esperança e as Canárias. (…)»

“Passagem das Horas”, Fernando Pessoa/Álvaro de Campos

Childless Women

Publicado em Artes por Fernando M. Oliveira em 12 Abril 2008

 

Childless Women
SYLVIA PLATH

The womb
Rattles its pod, the moon
Discharges itself from the tree with nowhere to go.

My landscape is a hand with no lines,
The roads bunched to a knot,
The knot myself,

Myself the rose you achieve -
This body,
This ivory

Ungodly as a child’s shriek.
Spiderlike, I spin mirrors,
Loyal to my image,

Uttering nothing but blood -
Taste it, dark red!
And my forest

My funeral,
And this hill and this
Gleaming with the mouths of corpses.