“Não SOU adoptada; as minhas origens são misteriosas.”
Como pessoa que foi adoptada, repeti esta frase inúmeras vezes ao longo da minha vida. Gosto tanto dela que a coloquei na boca de uma personagem no romance que estou agora a escrever. Tanto a personagem como eu própria temos orgulho nesta afirmação. Imaginamo-nos a viver nas páginas densas da ficção do século XIX, uma época em que a questão da origem – saber quem era o pai e a mãe – não era tão importante quanto as “circunstâncias” de cada um de nós.
Alguns dirão que cheguei a esta conclusão porque até há pouco desconhecia tudo o que rodeou a minha adopção. Mesmo a data da sua ocorrência era um segredo. (A funcionária disse-me ao telefone, “Esses são dados reservados”; e eu perguntei “Sei que não os posso ver, mas posso ao menos saber a data que consta nos registos?”. Ela responde: “Até isso está selado” – uma declaração perturbadora, pois fazia-me imaginar uma sucessão infinita de envelopes dentro de outros envelopes.
Claro, ter origens misteriosas é um assunto complicado nos dias que correm. Uma pessoa pode ser gerada num ventre desconhecido e os genes serem uma combinação entre os nossos pais e uma estranha; o ventre materno pode até misturar apenas os genes da mãe com os de um estranho – para não falar no caso dos irmãos desconhecidos que podem andar por aí, após uma doação de esperma. Existem pais adoptivos e pais biológicos, mães gestacionais e dadores de gâmetas – toda uma diversidade de adultos que podem reclamar a paternidade/maternidade com base no sangue, nos genes, no nascimento, na lei ou no afecto.
Temos direito a conhecer estas pessoas todas? Se assim for, terão estas pessoas também o direito recíproco de conhecer as crianças em cujo nascimento participaram?
Não vou sequer tentar responder a estas perguntas. Parece que estamos destinados a ter uma longa conversa sobre este assunto nos anos que aí vêm. É certo que tudo aponta para uma maior abertura, para um “direito” em conhecer. Não sou contra esta tendência. Apenas quero dar ao desconhecimento a atenção que lhe é devida.
Gosto de mistérios. Gosto do sentido absolutamente singular que advém de termos uma origem desconhecida (por mais falso que esse sentido possa ser). Tenho uma amiga próxima que também é adoptada. Trocámos umas ideias quando considerámos a possibilidade de inscrevermos os nossos nomes no registo de adopção do Estado de Nova Iorque, onde poderíamos saber algo mais sobre o nosso passado.
A minha amiga cresceu numa pequena vila perto de uma universidade. Ela tinha inventado para si própria uma fantasia satisfatória, segundo a qual a mãe e o pai tinham estado na vila como bolseiros do Banco Mundial, desempenhavam os papéis de “rei” e “rainha”, numa região remota em que toda a gente gozava de boa saúde e sobrevivia em regime dietético, baseado em iogurte de iaque, até aos 110 anos de idade. Ela decidiu não avançar com o registo. “Para mim uma família é mais do que suficiente”, disse-me.
As minhas fantasias eram mais difusas: o conjunto de pais incluía uma actriz, músicos populares, escritores e intelectuais. Tenho a certeza de que nenhum deles era como os especialistas em computação e ciência que correm nas veias da família do meu pai adoptivo. Creio que é por sua causa, por causa do exemplo destes engenheiros e professores de matemática, que eu própria entrei para engenharia informática, um campo para o qual não tenho uma inclinação natural (era suficientemente boa, mas tive de estudar bastante). Se eu tivesse sido educada por sonhadores compulsivos - escritores, leitores ou os que escrevem cartas sem fim – pessoas que certamente incluíram os meus pais “naturais”, jamais teria passado vinte anos como programadora de computadores.
E este é exactamente o meu ponto. Imagino logo a minha mãe biológica percorrendo as páginas de “Daniel Deronda” (Livro V, “Mordecai”), de George Eliot, dizendo “Querida, andas para aí a lutar com esses programas austeros e ainda nem leste ‘Middlemarch’”. E assim eu teria desistido precocemente de tentar o meu algoritmo da sorte, tal como teria passado ao lado da profissão que define a época em que vivemos.
Ninguém é o equivalente genético dos seus pais. A Natureza deu-se ao trabalho de garantir que somos diferentes (mais uma boa razão para lutarmos contra a hipótese de juntar a clonagem ao leque das opções parentais). Através do milagre da recombinação genética, cada filho, com excepção de um gémeo monozigótico, constitui-se como um indivíduo único. Até o ambiente do ventre materno opera as suas subtilezas, de modo que quando nos confrontamos com a luz do dia, estamos já por nossa conta. Conhecer cada um dos nossos antepassados jamais resolverá o mistério mais profundo, justamente o insondável que é conhecer aquilo que um dia seremos.
New York Times, 1 de Janeiro de 2009
http://www.nytimes.com/2009/01/02/opinion/02ullman.html?_r=1
[Ellen Ullman é autora de diversos livros de programação informática e de dois romances]
A tradução é do Marco, no Fórum APFertilidade:
http://forum.apfertilidade.org/phpBB2/viewtopic.php?t=22272
Poema de Natal
Para isso fomos feitos:
Para lembrar e ser lembrados
Para chorar e fazer chorar
Para enterrar os nossos mortos —
Por isso temos braços longos para os adeuses
Mãos para colher o que foi dado
Dedos para cavar a terra.
Assim será nossa vida:
Uma tarde sempre a esquecer
Uma estrela a se apagar na treva
Um caminho entre dois túmulos —
Por isso precisamos velar
Falar baixo, pisar leve, ver
A noite dormir em silêncio.
Não há muito o que dizer:
Uma canção sobre um berço
Um verso, talvez de amor
Uma prece por quem se vai —
Mas que essa hora não esqueça
E por ela os nossos corações
Se deixem, graves e simples.
Pois para isso fomos feitos:
Para a esperança no milagre
Para a participação da poesia
Para ver a face da morte —
De repente nunca mais esperaremos…
Hoje a noite é jovem; da morte, apenas
Nascemos, imensamente.Vinicius de Moraes
As crónicas do Padre Anselmo Borges continuam a ser dos melhores motivos para se comprar o “Diário de Notícias” aos Sábados. Podemos discordar (e discordo muitas vezes), mas a sua escrita alimenta a reflexão e, em dias como o de hoje, interroga o fundamento das posições da Igreja institucional. Ao comentar o livro “A Sexualidade, a Igreja e a Bioética. 40 anos de Humanae Vitae”, o Padre Anselmo Borges questiona o que terá “envenenado” a relação da Igreja com o corpo e a sexualidade, passando pela ideia de pecado original, pela imposição (oficial e tardia) do celibato e, importante para o que aqui interessa, sobre os limites incertos entre o que é biológico/natural e o que é artificial:
«Neste domínio da contracepção, o equívoco fundamental da encíclica Humanae Vitae encontra-se numa concepção de lei natural fixa, estática e centrada na biologia. Ora, por natureza, o ser humano é cultural e histórico e a própria realidade é processual. A sexualidade humana não pode ser vista apenas na sua vertente biológica. Como pode o Magistério fixar-se na biologia, esquecendo que, para ser verdadeiramente humana, a sexualidade envolve o biológico, o afectivo, a ternura, o amor, o espiritual? Por outro lado, na perspectiva bíblica, não criou Deus o Homem como criatura co-criadora? Não é o Homem, por natureza, interventivo, aperfeiçoador e transformador da natureza? Então, no juízo moral, o critério não pode ser o natural identificado com o bem e o artificial identificado com o mal, mas a responsabilidade digna e a dignidade responsável.»
Versão completa:
http://dn.sapo.pt/2008/11/29/opiniao/igreja_sexualidade_e_bioetica.html
Em 2007 tive oportunidade de ouvir o especialista Willem Ombelet falar sobre a infertilidade nos países em desenvolvimento. Nessa ocasião desfilaram perante a plateia números assustadores, representações cruéis da infertilidade noutras culturas, dificuldades em acomodar os tratamentos de PMA em países com inúmeras carências económicas, a necessidade de planos específicos e de formação básica em medicina da reprodução. Ora, o “Jornal de Angola” anunciava há dias a entrada da PMA no país, dando conta da ajuda decisiva de uma equipa de médicos brasileiros. O relato mostra-nos evidentemente o drama pessoal da infertilidade, mas acrescenta ao universo que nos é familiar outras percepções, relacionadas com a localidade angolana. Um excerto:
«Ciúmes, tristezas, traições, divórcios e desavenças tomam conta de muitos lares por falta de um herdeiro. Domingos Fernando, 41 anos, é apenas um, no universo de muitos parceiros, que luta dia e noite para manter o casamento. A infertilidade acomete a sua esposa há onze anos. (…) Domingos Fernando disse que já recorreu a pelo menos cinco ou seis terapeutas tradicionais, mas o tratamento não resultou na concepção de mais um filho por parte de companheira. “Já fui a Viana, Rocha Pinto, atrás da FTU, 1º de Maio, até Benguela e, por um fio, iria ao Dombe Grande, porque não imagina o sentimento de culpa e a pressão que recebo da parte da mulher”, acrescentou. A companheira de Domingos sentiu-se ainda mais revoltada quando este fez outros filhos com uma outra mulher. De lá para cá, segundo Domingos, “a minha mulher diz que não ligo à situação dela e para evitar dissabores tive de reduzir à ida a segunda esposa”. Estas histórias dramáticas relacionadas, quer com a infertilidade masculina, quer com feminina, a partir dos próximos tempos, terão solução. Uma equipa de médicos brasileiros especializados em reprodução assistida está a fazer as malas rumo a Angola para trabalhar no “Projecto vida”.»
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]]>Lady Saw
“No Less Than a Women”
NB: Lady Saw escreveu esta música especialmente para as mulheres que têm dificuldades em ter filhos.
«Especialistas em fertilidade da Universidade de Sheffield, na Inglaterra, desenvolveram um teste que prevê quanto tempo de fertilidade as mulheres ainda têm pela frente. O teste mede o número de óvulos nos ovários femininos e indica qual deve ser o nível dele dentro de dois anos. O exame já está disponível em serviços de saúde da Europa e dos EUA, com o nome de “Plan Ahead Test” (Planeje com Antecedência, em tradução literal). Veja o site do produto http://www.early-pregnancy-tests.com/planahead-test.html
O especialista em fertilidade Bill Ledger, que desenvolveu o kit para o exame, disse que está confiante de que o teste é uma previsão exata da fertilidade, e que ele espera que permita às mulheres planejar melhor seu futuro e decidir por quanto tempo elas podem adiar a decisão de ter um filho. “Se ter uma família é a coisa mais importante, é melhor você começar a tentar ter filhos na faixa dos 20 anos – não há dúvidas de que quanto mais você adia, maior a chance de decepção”, disse ele.»
Continua aqui: http://claudiacollucci.blog.uol.com.br/