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Assistiu-se, nos últimos anos, a um aumento significativo na procura de serviços de tratamento de infertilidade. Em Portugal, o nascimento de Carlos Miguel (1985) - o primeiro bebé a nascer neste país com a ajuda da ciência -, impulsionou os mais cépticos, conduzindo inúmeros casais a recorrerem às novas tecnologiasreprodutivas. Mas quais as razões que conduzem os casais inférteis a frequentarem os serviços médicos de tratamento de infertilidade? Que motivações os levam a submeterem-se à técnica em vez de recorrerem à adopção? Afinal, esta parece apresentar-se como uma alternativa a quem, sendo estéril, deseja ter um filho sem ter de recorrer a técnicas científicas. Será a possibilidade, que confere aos casais, de ocultar a incapacidade reprodutiva? Ou será por lhes permitir ter o seu ‘próprio’filho? Que papel assume, actualmente, a filiação por laços sanguíneos? O facto deser um processo complexo, para além de moroso, é muitas vezes apontado como o principal motivo para a adopção ser preterida, mas não serão os tratamentos decombate à infertilidade igualmente morosos e difíceis, para além dos problemasfísicos e psicológicos adjacentes? Será que beneficiam verdadeiramente os casais inférteis? O que acontece quando os tratamentos não sucedem? Qual é osofrimento de ser infértil?
Foram estas, entre outras, algumas das questões que estiveram na basedeste artigo, que sempre se assumiu como uma abordagem introdutória à questão da infertilidade. Ancorado em dois campos teóricos da reflexão sociológica, estetema nasce da confluência entre a sociologia da medicina e a sociologia da família. Isto porque, compreender um fenómeno complexo como a infertilidade e o recurso às técnicas reprodutivas como forma de a superar, passa necessariamente pela suacontextualização na área da medicina embora não deva ser dissociado das alterações ocorridas na família, sem as quais a sua implantação não teria sido possível.
Parece, então, ganhar importância uma análise mais detalhada dasalterações dos padrões familiares que é, exactamente, do que trata a primeira partedeste trabalho. Analisam-se as transformações no papel social da criança que é agora tida como um ser a valorizar; no papel social da mulher que conquistou os seus direitos de igualdade, embora, exista ainda um longo caminho a percorrer,principalmente, nos países não Ocidentais; e, na relação conjugal que se baseia, já, na igualdade entre os sexos, quebrando os tradicionais laços de superioridade masculina. Destaca-se, ainda, a entrada em cena da medicalização da procriação que, para chegar à reprodução medicamente assistida, atravessou um longo percurso de desenvolvimento relacionado com os progressos da medicina e da tecnociência.
Na segunda parte deste artigo enunciam-se os métodos e as técnicas utilizadas, quer para a recolha e tratamento dos dados, quer para a selecção erecolha da amostra, pois se, por um lado, este trabalho não tem pretensões em extrapolar as conclusões obtidas devido ao reduzido número da amostra, por outrolado, ele assenta em pilares minimamente científicos que poderão servir de basepara futuros trabalhos nesta área.
A terceira e última parte deste trabalho é inteiramente dedicada à apresentação dos resultados obtidos: para testar as hipóteses enunciadas, faz-se uma análise comparativa destes discursos de onde resultam algumasconsiderações acerca da importância do vínculo biológico, do estigma que aparece, quase sempre, associado à incapacidade reprodutiva e da vivência da técnica. |