| 22-03-2008 |
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A infertilidade é actualmente reconhecida pela OMS como uma doença e um problema global de Saúde Pública. Embora não existam estatísticas específicas para Portugal, a generalidade dos trabalhos publicados refere uma prevalência de cerca de 14% entre a população dos países ocidentais, o que corresponde a um em cada sete casais, um número que, segundo todas as projecções publicadas, tenderá a aumentar nos próximos anos. Por outro lado, e especialmente nos países desenvolvidos, tem-se assistido a uma evolução em sentido negativo da maioria dos indicadores demográficos: o nível de substituição da população de 2,1 filhos por mulher é actualmente considerado como uma realidade distante e um objectivo difícil de alcançar. Entretanto, os tratamentos de infertilidade que envolvem a fecundação in vitro já permitiram o nascimento de mais de 3 milhões de crianças em todo o mundo e são responsáveis por 1 a 5% dos nascimentos em alguns países da Europa ocidental.Ou seja, para além dos evidentes argumentos morais a favor da necessidade de tornar os tratamentos de Procriação Medicamente Assistida (PMA) acessíveis a todos os casais que deles necessitem (veja-se o artigo 16.1 da Declaração Universal dos Direitos do Homem: "Os homens e as mulheres maiores de idade têm o direito de casar e constituir família, sem quaisquer limitações de raça, religião ou nacionalidade"), começam a surgir outro tipo de razões (demográficas e, como se discutirá mais adiante, também económicas) que devem levar os Estados a encarar de frente o problema do tratamento da infertilidade. Hoje em dia é consensual que o objectivo do tratamento da infertilidade deverá ser o nascimento de uma única criança saudável (Sociedade Europeia de Reprodução Humana e Embriologia, 2002), tendo esta questão sido alvo de um amplo debate científico nos últimos anos. Desta definição resulta que as gestações múltiplas devem ser encaradas como uma complicação dos tratamentos, o que atinge em cheio o tratamento da infertilidade. De facto, entre 1987 (ano seguinte ao do nascimento da primeira criança após a aplicação de uma técnica de PMA em Portugal) e a actualidade, o número de partos duplos aumentou 46% e o de partos triplos 500%. Além disso, entre as grávidas de PMA a incidência de gestações duplas e triplas é respectivamente 25 e 160 vezes mais elevada que nos casos em que há concepção natural, sendo que a estes números há ainda a acrescentar os provenientes de outros tratamentos da infertilidade, como a indução da ovulação seguida de inseminação intra-uterina (IIU) ou coito programado. Há vários factores que podem determinar o aparecimento de gestações múltiplas. No entanto, no caso dos tratamentos de PMA, é hoje consensual que o principal aspecto que influencia o aparecimento de gravidezes de mais que um feto é o número de embriões transferidos em cada ciclo de tratamento. O reverso da medalha é que, quanto mais embriões se transferirem, maior é também a probabilidade de se conseguir uma gravidez, pelo menos até ao limite de quatro embriões. ">A única forma de evitar que ocorresse este abaixamento da eficácia dos tratamentos seria proporcionar aos casais a realização de mais ciclos (com embriões frescos ou congelados, conforme os casos), de modo a que a percentagem cumulativa de gravidez possa ser comparável à que ocorreria caso se não se adoptassem medidas restritivas da gestação múltipla (transferência de menor número de embriões, menores doses de gonadotrofinas) na primeira tentativa. Deste modo, seria possível manter o grau de probabilidade dos casais conseguirem realizar o sonho de ter filhos e simultaneamente diminuir a incidência de gravidez múltipla. No entanto, quando são os casais quem paga directamente e na totalidade o tratamento da infertilidade, dificilmente existirão condições para que as tentativas de tratamento sejam feitas de outra forma que não a maximização da probabilidade de sucesso imediata. Vladimiro Jorge Silva (Farmacêutico - Ferticentro, Coimbra)
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