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Em opinião publicada na edição de sábado, 27 de Maio, do "Público", Pedro Vassalo, economista, mandatário para o referendo sobre a Procriação Medicamente Assistida (PMA), despejou uma rajada de casos exemplares à cabeça dos leitores. Era seguramente sua intenção mostrar, pela abundância de situações «escandalosas», como a RMA põe novos problemas éticos ou morais. Ora, nada mais falso. De todo esse barulho, só fica o efeito de rajada. Vejamos, citando cada um dos casos que apresenta e opondo‑lhe contra-exemplos, como os problemas éticos postos pela PMA não constituem novidade alguma. Pelo menos, na forma apresentada por Vassalo.
Diz Vassalo:
«Depois de assistirem a uma sessão de esclarecimento, em Faro, Maria e Francisco perceberam o problema: o que fazer dos três embriões congelados há anos? A idade desaconselha a educação de uma nova criança (e há três embriões), e Francisco recusa-se que outra mulher possa receber o embrião. Explica que não quer dar de caras, no futuro, com um filho que não conhece. E destruí-los? Quem decide? O médico?» Contra-exemplo:
Depois de assistirem a uma sessão de esclarecimento, Maria e Francisco perceberam o problema: o que fazer do embrião gerado no ventre de Maria. A idade (má conselheira) não aconselha a educação de uma nova criança, e Francisco recusa que outro casal adopte o filho. Explica que não quer dar de caras, no futuro, com um filho que não conhece. E destruí-lo? Quem decide? O padre?
Diz ainda Vassalo:
«Carlos, lisboeta, concebido artificialmente, namora com Joana, também concebida da mesma forma. Querem casar, ou viver juntos, mas têm medo de fazer o teste não vá serem irmãos! É que eles não sabem, nem podem saber, porque o dador é anónimo.»
Contra-exemplo:
Carlos, lisboeta, concebido naturalmente, namora com Joana, também concebida da mesma forma. Querem casar, ou viver juntos, mas têm medo de fazer o teste não vá serem irmãos! É que nunca se sabe, nem eles podem saber: nos tempos que correm... (Veja-se, de resto, o enredo de "Os Maias"). Insiste Vassalo:
«António, portuense de gema, é meio psicopata. Como sabe que não há limite para ser dador tem um sonho (louco) de ser pai de mil crianças. Pode? Pode, porque não há qualquer limite para um homem ser dador.»
Contra-exemplo:
António, portuense de gema, é meio psicopata. Como sabe que não há limite de filhos para um homem procriar, tem um sonho (louco) de ser pai de mil crianças. Pode? Pode, porque não há qualquer limite para um homem procriar.
(Este contra-exemplo pode parecer exorbitante, fraco de tão forte, apenas pelo número de filhos. Mas, vendo bem, também a hipótese de um homem ser dador de mil filhos é perfeitamente extemporânea, e apenas justificada pela vontade do opinador Vassalo de tornar escandalosa a situação: para que um dador possa estar na origem da procriação de mil filhos, seria preciso permissão para tal, já para não dizer mil casais que o aceitassem. Assim como um procriador natural frenético só seria possível com a aceitação das mulheres-receptáculo.)
Diz, por fim, Vassalo:
«Teresa, alentejana de Évora, concebeu artificialmente, mas nada disse ao marido, porque a lei permite que a mulher possa conceber artificialmente quando quiser. E assim viveram anos. O filho/a é herdeiro/a?» Contra-exemplo:
Teresa, alentejana de Évora, concebeu fora do matrimónio, mas nada disse ao marido, porque a lei permite que a mulher possa conceber fora do matrimónio quando quiser. E assim viveram anos. O filho/a é herdeiro/a? Numa palavra: triste debate, quando se avançam «argumentos» destes, que só têm como fundamento a perversa imaginação delirante do preopinante, apostado em esmagar o adversário com cachaporradas de dissuasão maciça. Fica, de resto, a impressão de que Vassalo, em lugar de nos querer mostrar o caminho do bem viver, o bem dos pais e mães que querem ter filhos e não podem, e das crianças que poderão vir ao mundo (e, note‑se, desejadas, coisa de que nem todos temos a certeza), se compraz em imaginar cenários chocantes, ao estilo dos piores tablóides.. |