Testemunho

Setembro 30th, 2009 Posted Testemunhos, e-letter # 12

A minha história começou em 2000, quando eu e o meu marido pensámos que era uma boa altura para sermos pais. Depois de um ano de tentativas procurámos ajuda, primeiro num ginecologista e depois num especialista em infertilidade.

Já nessa altura tinha medo de que o meu receio de não conseguir ser mãe fosse real. Chorei muitas lágrimas de revolta, raiva e tristeza. Não foi uma época fácil porque eu não sabia como enfrentar o problema e vivia angustiada, frustrada, triste e desanimada. Os tratamentos eram muitos caros e a minha vida mudou a todos os níveis. Deixei de ser um ser humano para passar a tentar fazer o meu corpo funcionar de forma mecânica. E continuava sem conseguir.

Desisti. Decidi que ia esquecer os tratamentos e acreditei que ia engravidar. Mas já era tarde; eu estava doente e a minha relação com o meu marido estava mal (eu queria desistir e ele não, pois achava que devíamos tentar mais uma vez). Perdi o emprego, mudei de médica e numa laparoscopia descobri que tinha endometriose.

Fiz preparação para quatro FIV mas nenhuma resultou. Desisti mais uma vez. Em Agosto de 2005 quis fazer uma nova tentativa: uma ICSI num hospital público. Contudo não a pude fazer, pois os valores de FSH estavam muito elevados e o processo não foi aceite. Mais uma vez quis desistir, não queria voltar a criar expectativas e depois ter de gerir mais uma perda de “nada”, porque era assim que me sentia: todos os meses num cantinho muito secreto de mim engravidava e sonhava como iria contar ao meu marido. Todos os meses sentia que tinha perdido mais uma oportunidade de gerar um filho.

Depois de uma longa pausa fiz um tratamento com doação de ovócitos. Primeiro reagi mal à ideia da doação mas a verdade é que essa era a única possibilidade de ser mãe. O meu marido deu-me muita força e avançámos para o tratamento no final de 2008. E em Junho abraçámos finalmente a nossa filha. Que felicidade, que momentos mágicos! Se o olhar do meu marido quando viu as duas riscas do teste já tinha deixado o meu coração a transbordar de alegria, o olhar dele quando olhou pela primeira vez para a nossa filha deixou-me extasiada.

Se penso muitas vezes que ela só existe porque outra mulher me deu a possibilidade de ser mãe? Algumas vezes, mas sei que foi um acto de amor. A minha filha teve várias pessoas do lado dela, o que a torna ainda mais especial. Se a amo tanto como amaria se não tivesse recorrido a este tipo de tratamento? Com toda a certeza que sim. Se me incomoda que ela não seja parecida comigo? Nada, ela é linda como o pai.

Para mim este era o único caminho para poder realizar o sonho de ser mãe e ainda bem que a ciência o permitiu. Agradeço muito aos profissionais da clínica, à dadora e ao meu marido que nunca me deixou desistir. Todos os dias olho para a minha filha e fico comovida. Foi uma longa luta mas sem dúvida que valeu a pena!

Avalon

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