Artigo
Newsletter de Julho 2009
O Impacto Psicológico da Infertilidade e o Programa Mente Corpo
A infertilidade constitui, sem dúvida, um momento de crise e um acontecimento desencadeador de stresse psicológico (Wishmann, Stammer, Scherg, & Verres, 2001). As suas consequências manifestam-se a variados níveis, sendo de realçar o sofrimento pessoal que habitualmente acarreta e as repercussões sociais.
Alguns autores têm vindo a sugerir que uma das consequências emocionais mais difíceis da infertilidade se prende com a perda de controlo sobre a própria vida (Domar & Seibel, 1997 cit. in Cousineau & Domar, 2007), com a infertilidade a ocupar um lugar nuclear e a excluir outros aspectos importantes da vida, funcionando como uma experiência extremamente desorganizadora do sentido de ordem da vida conjugal.
O confronto com um diagnóstico de infertilidade pode apresentar-se como extremamente desorganizador da vida do casal, constituindo, para alguns deles, um verdadeiro desafio para o próprio casamento. Read (2004) refere que o stresse inerente à infertilidade e ao respectivo tratamento pode desencadear dificuldades sexuais, quer no homem, quer na mulher. Mas se as consequências de um diagnóstico de infertilidade são inequívocas em termos individuais e para o casal, há ainda a considerar o impacto social que estas assumem.
Os casais com infertilidade tendem, frequentemente, a isolar-se socialmente em resultado da experiência de uma não aceitação social, seja ela real ou imaginária. Para muitos deles, a infertilidade é mantida em segredo, pela vergonha que lhe associam, o que faz com que o sofrimento não seja partilhado, intensificando-se. Perante a perda ou a ameaça da possibilidade de procriar, nem sempre é fácil destrinçar o que desencadeia mais sofrimento: se a ausência do filho desejado ou os sentimentos de fracasso, perda e insegurança (Farinati, Rigoni, & Muller, 2006).
De facto, a infertilidade pode também acarretar consequências ao nível das relações familiares e de amizade, assim como ao nível do emprego e da carreira profissional dos casais.
Em função do exposto e atendendo ainda às implicações do tratamento médico, é recomendada a existência de acompanhamento psicológico ao longo de todo o processo de intervenção, o qual tem como principal finalidade assegurar que os doentes compreendem as implicações do tratamento escolhido, recebem suporte emocional e conseguem lidar, de forma saudável, com as consequências da experiência de infertilidade (Boivin et al., 2001).
Neste contexto, o Programa Mente-Corpo para a Infertilidade (PMCI), assume-se como um tipo de abordagem psicossocial estruturada, de natureza grupal, destinado a casais com infertilidade que se desenrola ao longo de dez sessões de periodicidade semanal. O seu desenvolvimento ficou a dever-se a Alice Domar que, desde 1987, tem vindo, conjuntamente com os seus colaboradores, a implementá-lo no Centro Domar do Boston IVF.
O PMCI pretende proporcionar a aprendizagem de várias técnicas de relaxamento, competências de gestão do stresse e obtenção de suporte social por parte de outras pessoas que partilhem a condição de infertilidade e, como tal, possam apresentar uma compreensibilidade do problema através da experiência. Para além deste tipo de aspectos, o PMCI aborda também estratégias para a identificação e alteração de hábitos que possam ter um impacto negativo na fertilidade. Uma outra vertente explorada pelo PMCI é a da reestruturação cognitiva, a qual se destina a identificar e a reformular padrões de pensamento disfuncionais. Por último, há ainda a referir a exploração de competências de auto-cuidado emocional, com vista a alterar aspectos da vida quotidiana e a incluir o mais possível momentos gratificantes.
Este programa de intervenção revelou-se eficaz no tratamento dos aspectos emocionais associados à infertilidade, mas obteve também resultados favoráveis no que toca ao aumento das taxas de concepção (Domar, Clapp, Slawsky, Dusek, Kessel, & Freizinger, 2000). Os casais que o têm realizado reportam uma diminuição significativa de sintomas físicos como a insónia, cefaleias e perturbação gastrointestinal, bem como um decréscimo de sintomas de ordem psicológica como ansiedade, depressão e irritabilidade. Sendo ainda de realçar que 45% das doentes que realizaram o programa conceberam num período de seis meses, comparativamente com 20% de mulheres do grupo de controlo (Domar, et. al 2002).
O PMCI está actualmente a ser implementado pela primeira vez em Portugal, tendo iniciado no passado mês de Maio com dois grupos em Lisboa e estando prevista para Setembro a sua realização no Porto.
Ana Galhardo
Psicóloga Clínica – Terapeuta do Programa Mente Corpo para a Infertilidade










