Ana (atrofia dos ovários)

16-01-2007
Sou a Ana, tenho 32 anos e vou ser mãe brevemente. Aos 16 anos foi-me diagnosticada uma atrofia dos ovários (nunca tinha tido período), de causa desconhecida e ouvi, pela primeira vez, o médico dizer que nunca poderia ter filhos. Claro que não pensava nisso na altura, mas todos os problemas associados a esta situação não me permitiram ter uma adolescência "normal". Os meus pais foram extraordinários (um grande beijinho para eles), fizeram o possível e o impossível por mim. Durante anos, consultamos vários especialistas, fiz várias tentativas de estimulação hormonal, para vermos se havia qualquer resposta. Nunca houve!

A dada altura cansei-me e desisti. Estabeleci outros objectivos de vida e abstraí-me deste problema. Até que conheci o meu marido. Quando decidimos partilhar uma vida, confrontei-o com esta situação. Foi uma sensação que não consigo descrever, um sentimento de vergonha, medo e de certa forma humilhação, ainda maior do que aquela que senti perante os meus colegas de escola, que senti por ser diferente, e que rapidamente desapareceu (pela atitude que o F. teve). Deixou de ser um problema meu para ser um problema nosso.

Organizamos a nossa vida em função da enorme vontade de sermos pais. Consultamos vários especialistas, ouvimos várias opiniões e todos foram unânimes ao dizerem que a única alternativa seria uma doação de óvulos. Ao fim de cinco anos, depois de mais ou menos termos estabilizado a nossa vida e porque sempre contamos com o apoio dos que gostam de nós, fizemos a primeira tentativa. Foi na Ferticentro, em Coimbra, que tudo começou. Em Janeiro de 2006 tivemos a nossa primeira consulta. Foram extraordinários connosco. Em Fevereiro 2006 tivemos a primeira consulta em Barcelona (centro de reprodução CEFER). O tratamento passou por estes dois organismos, por motivos que todas nós conhecemos (a nova legislação nem sequer tinha sido ainda aprovada). Tivemos um atendimento excelente, mesmo à distância. No dia dia 3 de Junho de 2006 fiz a transferência de embriões. Aquilo que desde a minha adolescência julgava impossível, aconteceu. Não há palavras que possam descrever a imensa felicidade que vivemos desde o dia 15 de Junho em que soube que estava grávida. A ansiedade foi tanta que me antecipei com um teste de gravidez de farmácia que 10 dias depois da transferência já deu positivo. Mas só acreditei a 100% depois da beta hcg.

O Francisco deve nascer no fim de Fevereiro. Não consigo perceber porque foi tão fácil para mim conseguir esta gravidez, logo na primeira tentativa. No fundo do meu coração estou grata a todos aqueles que a proporcionaram. Foi um Milagre! Nesta primeira tentativa gastamos quase 15.000 euros (a maior parte do dinheiro em Barcelona, obviamente). Por acaso, tive possibilidades económicas de o fazer. E quem não tem? Será que tem menos direito do que nós de serem pais? Será que não poderão ser tão bons ou melhores pais do que nós?

O meu marido trabalha na área de seguros, ambos temos seguro de saúde, e não houve um tostão de ajuda por parte de seguradora. Do Estado, nem comento. Para além dos tratamentos que fiz, nem me apercebi do dinheiro que os meus pais gastaram para ao tentar encontrar uma solução para o meu problema. Não foi um milésimo comparticipado.

Bom, mas quero terminar com uma palavra de esperança. Desde sempre que sou "perseguida" pelo pensamento de que nunca iria ser mãe. Por muito que me tentasse convencer a mim própria de que havia coisas piores na vida, nunca consegui. Tentei não fazer um drama e viver um dia de cada vez. Foi difícil... Um dia um médico disse-me que talvez com um milagre... pois é, esse milagre aconteceu. Aconteceu comigo e pode acontecer com qualquer uma de vós. Acreditem.

Boa sorte
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