Maria II (infertilidade masculina)

11-09-2006
Resolvemos ser papás no ano de 2001; pensava eu que era só escolher o dia e o mês e o tão desejado filho vinha logo. Tinha na altura 32 anos. A família e os amigos começavam a dizer que ia ficando «velha» para ter filhos (as pessoas às vezes não sabem o que dizem...). Feitos os primeiros exames ginecológicos, disseram-nos que estava tudo bem e que podíamos avançar. Os meses foram passando, mas o Mr. Red continuou sempre a «picar o ponto». Ao fim de seis meses, surgiram as primeiras perguntas e fui encaminhada para a consulta de infertilidade do hospital da minha zona. Fizemos as análises básicas, o espermograma (que se revelou mais tarde insuficiente), a odiosa Sra. Histerossalpingografia. Resultado: nada a registar, tudo em ordem! Então começaram os tratamentos, com 3 meses de Dufine, depois as Inseminaçoes Artificiais (3 no hospital da zona, com dois meses de estimulação com Puregon pelo meio) e também uma Laparoscopia de diagnóstico, que se revelou desnecessária (não estava tudo assim tão bem!).



Depois de conhecer o Fórum de infertilidade e conhecer outras colegas, em Outubro de 2004, tive a primeira consulta numa clínica particular da especialidade, em Lisboa, com o querido Dr. P. Desconfiado, mandou-me repetir o espermograma e entretanto tentar mais uma IIU (seria a 4ª). Comecei as picas (já amigas íntimas, depois do momento da estreia...) e o resultado do espermograma, dizendo que afinal o problema era masculino: 0% de espermatozóides móveis (classe A); a maioria era da classe D (oitenta e tal %); apenas 3% com formas normais! Diagnóstico: podia conseguir uma gravidez espontânea (já o tinha conseguido em Outubro/Novembro de 2003), mas só com ICSI é que as coisas podiam resultar. A IIU em curso foi até ao fim, com um resultado de Beta HCG positivo fraquinho que deu em nada. Em Janeiro de 2005 fiz a 1ª ICSI; a resposta à estimulação do Gonal foi rápida e boa, na punção recolheram-se 22 óvulos, transferiram-se 2 embriões Top e congelou-se um embrião. O resultado foi negativo. A transferência do embrião congelado decorreu em Abril desse mesmo ano e o resultado foi também o detestado valor de <1 Beta HCG. Em Junho fiz uma Histeroscopia de diagnóstico, também para certificar que não havia qualquer problema. Em Setembro de 2005 voltamos a tentar uma 2ª ICSI, com muita energia, revigorados pelas férias e muito pensamento positivo. Mudamos do Gonal para o meu antigo conhecido Puregon e diminuiu-se a dose diária. Na punção conseguimos 24 óvulos, com uma taxa elevada de fertilização. Escolhem-se os melhores dos melhores, transferiram-se 2 embriões Top e congelam-se 6. A noite após a punção foi passada em claro, pois andei perto da hiperestimulação.... O resultado foi o conhecido <1, mais uma vez.

Só quem faz estes tratamentos é que sabe o quanto custam a nível físico e sobretudo emocional! Nem vale a pena falar da parte económica, para quem anda em clínicas particulares! Fui-me abaixo com esta 2ª ICSI. Resolvemos dar um tempo, tanto para o corpo se recompor como para a alma renascer. Em Fevereiro de 2006, resolvemos fazer a transferência dos embriões congelados e alguns não aguentaram o descongelamento, acabando por se transferir dois também de boa qualidade. O resultado foi novamente um positivo fraquinho, que entretanto o corpo parecia estar a aguentar, mas de repente tudo terminou e desta vez a expulsão foi mais dolorosa e prolongada. Desilusão total! Estive mais uma vez tão perto!

Resolvi então dar um tempo a mim, reflectir e sobretudo valorizar o que tinha. Entretanto, em Janeiro de 2005 tinha feito a 1ª consulta num Hospital público em Lisboa, onde conheci mais um excelente médico. Tive também a sorte de encontrar excelentes médicos/pessoas nestas andanças; pessoas humanas, técnicos competentes, que são meio caminho para se ultrapassar as dificuldades de qualquer doença, principalmente no caso da Infertilidade. Este médico inscreveu-nos na Lista de espera e daí a 2 anos seríamos chamados para o tratamento de FIV/ICSI (faz em Janeiro de 2007 dois anos, neste momento tenho 38 anos e estou em suspense para saber se realmente me chamam!) No início deste ano de 2006 fui também ouvir a opinião de outro excelente médico/pessoa, da região do Porto, que disse que estava em «boas mãos», confirmando que tudo o que tinha feito estava a ser bem feito e ele pouco. Em Agosto último, em tempo de férias, resolvemos tentar uma última vez na nossa clínica de Lisboa, antes de passarmos para o Porto e fazermos o diagnóstico pré-implantatório, para ver se existia algum problema com o embrião. Fez-se então o tratamento, mas o teste de Beta HCG, ao contrário dos outros que fazia sempre ao 12º/13º dia, foi só ao 15º dia, completamente desanimada, pois seria igual a todos os outros. Devo dizer que fiz repouso total nos 5 dias após a transferência. Depois dos dias de repouso deitámos tudo para trás das costas (achando que era mais uma tentativa em vão) e voltei ao Algarve para mais uns dias de férias (praia, piscina, sol, mas sem esforços exagerados). De volta a casa, no dia 28 de Agosto (15º dia depois da transferência), lá fui ao laboratório do costume fazer a recolha do sangue para a Beta HCG. À tarde lá fomos nós buscar o resultado, que nem quisemos abrir de imediato: para saber que era <1, nem valia a pena ver...O tempo passou e só em casa, depois das 20h, é que abrimos o envelope com o resultado da Beta. Para espanto nosso, o valor era de 706!!! Positivíssimo!!! No dia seguinte telefonei logo cedo para a clínica e falei com a enfermeira, que disse que não era preciso repetir a análise pois não havia dúvida nenhuma! Marcou de imediato uma ecografia de gravidez para daí a 2 semanas (as mais longas que eu vi no calendário).

Se me perguntarem pelos sintomas, não tinha nenhuns! Mas uns dias depois do resultado, já a pensar no que deveria sentir ou não, entrei em pânico e pensava que tinha sido um sonho. O pânico foi tal que quase nem dormia e fartei-me de chorar. O marido chegou a acreditar que sim, que tudo tinha acabado! Foram horas muito sofridas. Telefonei para a clínica a pedir novo Beta. A médica do laboratório entregou-me pessoalmente o resultado, pois estranhou tantas análises. Eu expliquei-lhe tudo e ela disse «mas você está gravidíssima, tenha calma, relaxe e aproveite»! O resultado foi de 16819! O coração só acalmou mais um pouco quando fiz a 1ª eco, em meados de Setembro e vi e ouvi o coração a bater cheio de força! Foi um momento mágico que eu desejo que todas as meninas que ainda não tiveram sintam o mais breve possível! Neste momento já passaram 14 semanas, as ecos dizem que está tudo muito bem e aguardo com serenidade, esperança (embora com algum receio) que finalmente o sonho se torne realidade e que no início de Maio tenha finalmente nos meus braços o meu bebé.

Entretanto fiquei duplamente grávida, pois em Junho de 2005 entregamos os papéis para a adopção. Com a infertilidade tornou-se uma opção para sermos pais. Anseio e desejo tanto um filho como o outro. Quando me diziam que o amor que se sente por um filho biológico é igual ao que se sente por um filho adoptado, eu punha algumas reticências, mas agora sinto isso! É incrível! Nunca conseguiria abdicar de um ou outro e ainda não tenho nenhum nos meus braços! Um beijinho e um abraço muito apertado a cada uma das lutadoras que perseguem este sonho. Tive muitos momentos em que pensava que não ia ter forças para continuar, mas só o facto de pensar em desistir fazia com que essas forças voltassem em dobro. Não foi fácil erguer de novo a cabeça depois de cada tratamento falhado e iniciar tudo de novo. Mas voltava a fazer tudo o que fiz e, se pudesse, não escolhia outro caminho, porque pelo meio conheci pessoas que de outro modo nunca teria o privilégio de conhecer. Fiz opções de vida que de outro modo não faria e seria mais pobre. Agora, com o coraçãozinho palpitante aqui na barriga, outra aventura começa com um único desejo: que seja uma pessoa perfeita, saudável, com uma vida longa e feliz. Eis é a minha história de infertilidade, a caminho para do ponto final.
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