Gostaria de deixar aqui o meu testemunho, que já deixei no fórum, apenas mais resumido.
Eu e o meu marido estivemos casados 8 anos até conseguirmos uma gravidez de sucesso, com muito sofrimento e muitas lágrimas pelo meio, como podem calcular. Durante esses 8 anos consegui engravidar 4 vezes, mas perdia sempre a gravidez entre a 5 e as 7 semanas. Passámos por inúmeros exames, testes e tratamentos, desde estimulação dos ovários com e sem IIU até FIVs (fizémos 5) e fomos considerados um caso de infertilidade inexplicada por todos os locais onde passámos (HSM, Clifer e Clínica do Prof Alberto Barros).
Dado que com o meu marido aparentemente estava tudo bem, a única hipótese era a de que os meus óvulos não tinham qualidade. Na verdade, apesar de todos os meus exames e análises hormonais estarem normais, os meus ovários não respondiam lá muito bem à estimulação, apesar de me terem alterado o protocolo por diversas vezes. Devo dizer que a meio deste processo inscrevemo-nos para a adopção, mas o processo era tão demorado que apesar de termos feito tudo o que havia para fazer (contactos, entrevistas com a psicóloga, documentos a arranjar, entrevista com a assistente social em nossa casa, mais entrevistas com outra psicóloga, etc, etc), decidimos continuar paralelamente com os tratamentos. Só que, após a 5ª FIV falhada e completamente exaustos, física e emocionalmente, achámos que talvez fosse uma boa hipótese tentar a doação de ovócitos em vez de continuar com os FIVs normais, que nunca produziam embriões de grande qualidade.
Eu sempre tinha tido o sonho de ter um filho e se estava entusiasmada com a ideia da adopção, mais entusiasmada fiquei com a ideia de poder vir a fazer, digamos, a adopção de um óvulo e poder assim vir a ter a experiência de estar grávida. Contactámos com o IVI em Madrid e após 2 meses de espera fizémos o nosso primeiro ciclo com ovócitos doados e dadora anónima. Não vos vou contar todo o processo, pois apesar de simples, torna-se moroso, mas posso dizer-vos que depois de muitos anos de sofrimento tive o meu primeiro positivo de 390 num BHCG (um número bem mais prometedor que os anteriores), 13 dias pós-transferência e na primeira ecografia verificou-se que eu estava grávida de gémeos... É impossível descrever-vos a alegria que senti naquele momento e que ainda sinto hoje todos os dias ao acordar, mesmo quando os meus filhotes acordam mal-dispostos (já têm 4 anos)! Não vou negar que durante a gravidez, depois de passados aqueles momentos de euforia, não tive dúvidas quanto a se teria feito a coisa certa... Tive mesmo dúvidas sobre se seria capaz de amar essas crianças que trazia na barriga como se fossem dos meus genes, mas durou pouco esse sentimento. De tal forma que hoje em dia quase nem me lembro, e quando me lembro, não é nada que me angustie ou me provoque qualquer sentimento estranho. Claro que além de sermos pais ser uma responsabilidade, sermos pais desta forma traz nuances que podem tornar essa tarefa ainda mais difícil ou mais complicada, mas sinceramente agora tudo isso me parece ultrapassável, de tal forma considero que estes são os filhos que eu estava destinada a ter e não os trocaria por nenhuns outros mesmo que tivessem vindo dos meus óvulos. Penso que acontece também isso aos pais adoptivos, pelo que tenho falado com as pessoas nessa situação.
O motivo porque decidi escrever deixar este testemunho é porque achei que seria importante para algumas pessoas saberem que existem mesmo pessoas que têm filhos de gâmetas doados e são felizes e estão encantados com os seus filhos e voltariam a fazer o mesmo. Antes de optar por este processo eu achava que era uma coisa muito esquisita e muito distante da realidade e muito complicada. É certo que é uma via que não serve para qualquer pessoa, tal como a adopção também não é uma hipótese para qualquer pessoa. Não é a mesma coisa que ter um filho com os nossos próprios genes, não porque não os amemos da mesma forma, mas porque implica que estejamos cientes de uma série de outros problemas que poderão surgir ao longo da vida e que poderão ser complicados. No entanto, penso que com amor e com uma relação de confiança, todos eles são ultrapassavéis.
Não estou a fazer a apologia da doação de óvulos só porque foi uma boa opção para mim, longe disso, e acho que todos temos que tentar primeiro tudo aquilo que estivermos dispostas a tentar, mas só queria deixar uma mensagem de esperança de felicidade a todas aquelas as pessoas que depois de terem tentado tudo, acham que já não há mais nada a fazer e qualquer "segunda opção" não as irá tornar inteiramente felizes.
Só me resta desejar boa sorte a todos os que se encontram nesta luta e que um dia venham a conhecer a felicidade de ser pais. |