O meu nome é Manuela Pontes, algumas de vocês já ouviram falar, tenho 34 anos, sou Portuguesa e professora de Português e Latim. A minha fatal história começa da seguinte forma:
Casei em 1997, depois de um namoro de 2 anos e 8 meses, e casei com o desejo enorme e incontrolável de poder ver a minha barriga a crescer e dar à luz esse bebé. Como a vida não estava fácil nessa altura, esperei até Maio de 1999 para realizar esse sonho. Este foi precisamente o mês que começou o meu tormento. Os meses iam passando e eu não engravidava de jeito nenhum, consultei o meu médico e partimos para a realização de uma porção de exames, alguns deles bem dolorosos. Coragem não me faltava, e no meio de tanta ansiedade lá fui conseguindo superar essa dura batalha contra a natureza. Os exames não indicavam problema algum, portanto era imperativo continuar a tentar. Um ano e 4 meses decorridos, tenho a minha 1ª prova de fogo, a menstruação faltou. Os dias que decorreram ao exame da farmácia eram longos, queria esperar para fazer o exame, para ter a certeza de que iria dar uma resposta fiável, mas por outro lado, não aguentava mais estar na dúvida. Dia 12 de Setembro, 5 dias após o 1º atraso dirijo-me à farmácia e no meio de medo, incerteza e muito insegura, o farmacêutico trás a resposta: positivo! Queria chorar, rir, gritar, o meu marido quase nem se controlava nas palavras. O sonho começava a tornar-se realidade. Passava os dias a olhar a barriga, a conversar com o meu filho, a fazer planos. Dia 18 deste mesmo mês, numa consulta de rotina pré natal, faço a minha 1ª ecografia, foi a 1ª e a última vez que vi o meu filho. Vi o seu coraçãozinho, pequenino, mas a bater forte, com uma enorme vontade de viver, era um bebé com 6 semanas, indefeso dentro daquele aparelho ecográfico. Durou muito pouco essa alegria. Numa noite, mais escura que todas as noites que já tinha vivido, deparo-me com uma mancha rosa nas calcinhas… mas nada me afligia! Achei até natural, pensei que fosse algum esforço que tivesse cometido, mas para tirar a dúvida da cabeça do meu marido, telefono ao médico no dia seguinte. Por ordem dele dirijo-me ao seu consultório, alegre, sem dores, sem sangue, normalíssima. Como médico cuidadoso que é, fez nova ecografia, tinham passado 2 semanas desde a última vez que conheci o meu filho. Estaria, se tudo estivesse correcto, com 8 semanas de gestação. Mas não estava!... E por detrás de uma palavra seca e surda, ouvi dizer ao meu médico: Manuela, o seu bebé está desvitalizado! Que palavra tão suave para traduzir a morte. Desvitalizado! O mundo caiu, e eu fiquei por baixo dele. Sozinha, completamente sozinha, tive que ganhar força para sair dali, conduzir até casa e carregar o meu filho sem vida. Chegou a hora de dizer isso ao Miguel, sem muitas palavras para dizer, olhei-o e ele entendeu tudo, mas ainda perguntou: tens a certeza? Dei entrada no hospital com um aborto retido de 7 semanas, no dia 3 de Outubro de 2000 pelas 23 horas. Não vou esquecer esta data, jamais! Foi-me colocada uma laminária para me obrigar a fazer 2 cm de dilatação, para me obrigar a desprender-me do meu filho. Passei a noite sem dormir e aterrorizada. Às 12:30, do dia 4 de Outubro, entro para o bloco operatório, o lugar mais frio que algum dia conheci, para por fim àquele sofrimento, rectifico, para iniciar todo o meu sofrimento, que nascia ali, no local onde devia dar à luz. Iriam, finalmente, romper o elo que me ligava ao meu filho. Foi dolorosa a minha recuperação, vazio era só o que eu sentia. Quando me tiraram o meu filho, levaram um pedaço de mim. Fui proibida de engravidar nos 3 meses seguintes, o útero teria que cicatrizar, contei dia após dia, vivia em função de uma nova gravidez. Quando fui liberada para engravidar de novo, senti-me livre e pronta para começar a minha vida a partir daquele dia. Tudo começava para mim outra vez. 6 Meses decorridos, não me posso esquecer, dia 27 de Agosto, o dia em que me faltou a menstruação pela 2ª vez. Não podia esperar nem mais um dia para fazer o teste. No mesmo dia que me falhou a menstruação, no mesmo dia fiz esse bem dito teste. POSITIVO! Outra vez! Agora misturada à alegria, sentia medo. Muito medo. Quase que antevia o pesadelo que iria viver dali a uns dias. A minha família vivia uma alegria desmedida, e a verdade, é que pareceria tudo correr bem. Voltei ao meu médico para a consulta pré natal, foi feita uma ecografia que indicou 4 semanas e 2 dias de gestação, ainda não se via o bebé, era só visível o saco gestacional. Vim para casa convicta de agora era para valer. Fui vivendo com essa angústia, que nos atormenta quando algo parece não estar bem. Todos os dias pensava na hipótese de algo estar a correr mal...e não me enganei...dia 21 de Junho de 2001, numa nova consulta de rotina, fui atropelada pelas mesmas palavras do dia 3 Outubro: desvitalizado. Repetia-se o pesadelo, mas desta vez muito mais forte. O aniversário do meu marido era no dia seguinte, 22 de Junho, dia de Sº. João. O Miguel diz que este ano não fez anos, não se lembra de viver uma tristeza tão grande e profunda. Hospital, médicos, sofrimento, bloco operatório eram as palavras de ordem pronunciadas por todos. A revolta apoderou-se de mim e a reacção foi violenta. Não queria conversar, não queria ver ninguém, não aceitava o que me estava a acontecer. Hoje, mais estável, olho para trás com muita mágoa, mas feliz por conseguir superar este trauma e achar que sou capaz de conseguir de novo enfrentar uma gravidez. Quando saí do último aborto, neguei voltar a querer engravidar, excomunguei essa hipótese, filhos...nunca mais, dizia eu! Ainda bem que a força interior que temos guardada funciona e nos levanta para olharmos para a frente. Pensem que: quando nos sentimos mais fracos, é quando ficamos mais fortes. A vida tira um dia, dá no outro. Eu perdi duas batalhas com a natureza, mas não perdi a guerra. Continuei a acreditar que num amanhã alguém me iria chamar de mãe e esse dia chegou. Hoje, conquistei a minha Vitória, a minha filha, que valeu todo o sacrifício, todo o sofrimento, toda a luta. Um beijo para todas vocês. E nunca desistam daquilo que parece impossível, às vezes mesmo o impossível, pode ser a nossa maior verdade. Fiquem bem. |