Quando me pediram para escrever o meu testemunho para esta causa, logo me apercebi da grande responsabilidade inerente a este facto. Um testemunho é suposto ser algo importante para que quem o leia tenha consciência da realidade de um problema, neste caso a Infertilidade, em todas as suas vertentes, sem no entanto ser demasiado exaustivo nem lamechas. Sou a Stardust, tenho 35 anos, infertilidade desde há 5 anos pelo menos, e estou grávida de gémeos. Uso o meu nickname, não porque não assuma a minha infertilidade, antes pelo contrário! Mas acho que o ciber espaço não será o local adequado para divulgar a minha identidade. No ínicio era só uma suspeita, uma leve sensação de desconforto, cada vez que se falava do assunto “filhos”, cada vez que se escutava a notícia de uma nova gravidez de alguma amiga ou conhecida, ou que se ia visitar um novo bébé recém nascido. Com o passar do tempo, enfim dos anos, essa sensação ia-se tornando cada vez mais acutilante, e algures na nossa imaginação pairava já a palavra infertilidade teimava em aparecer. Acho que acontece com todas as pessoas que passam por este tipo de problema, ou pelo menos com a maioria, somos sempre tentados a pensar que isto não nos vai acontecer a nós, que a “desejada” gravidez não acontece pelos mais diversos motivos, e nunca, nunca, porque existe algo de nós que não está a funcionar como devia. Acho que é como o diagnóstico de uma doença grave, há uma percepção da nossa parte de que algo não está bem (então nós mulheres temos muitas vezes uma intuição muito forte), mas adiamos, quantas vezes erradamente, a procura da resposta para aqueles sintomas que sabemos não serem normais. Com a infertilidade também, esperamos sempre mais do que deviamos para tomar uma decisão, buscar uma resposta para as nossas dúvidas… Mas tememos sempre a ouvir o veredicto. É claro, que na infertilidade temos os extremos, temos aquelas que como eu “deixam andar”, e aquelas que ao contrário de mim começam logo ao fim de alguns meses a entrar em depressão profunda. Nenhum dos casos é bom. Tudo deve ter peso conta e medida. É hoje mais do que sabido, de que um casal deve procurar ajuda após 1 ano de relações sexuais desprotegidas sem alcançar uma gravidez. Acho honestamente que este é um “timing” ideal. A ansiedade, é, acredito, umas das causas principais dos fracassos dos tratamentos. Fazendo um pequeno retrocesso na história, tenho a certeza que a nossa história se identifica com a de qualquer um de vós. Um dia começamos a namorar, quando iniciamos a vida sexual, procuramos ginecologista para nos aconselhar o melhor método para evitarmos os filhos naquele momento indesejados. Iniciamos a toma da pílula e quando se passa algo de anormal quase morremos de susto ao pensarmos que uma criança que não queremos de maneira nenhuma, naquela fase da nossa vida, pode estar a caminho. Enfim, e assim se vai passando um ano atrás de outro. Depois vem o casamento, e continuamos a adiar, porque agora não é o momento, porque queremos viajar, porque queremos sair à noite, porque queremos crescer profissionalmente, porque ainda não estão reunidas as condições ideiais para se dar um passo tão sério como esse, etc. etc etc. É irónico, mas às vezes penso se não seria muito mais fácil para nós mulheres, fazermos logo uma parafernália de exames antes de começarmos a tomar a pílula, assim já saberíamos se podemos ou não ter filhos e poupavamos uma quantidade de dinheiro, tempo, e todas as maleitas que as pílulas contraceptivas trazem no pacote. A verdade é que provavelmente há dez anos atrás a realidade seria outra, e que as criancinhas se as não tivessemos evitado teriam nascido como cogumelos, mas a verdade é que não sabemos, e nunca viremos a saber. Depois vem a fase em que deixamos de tomar os contraceptivos, fazemos as análises a tudo e mais alguma coisa, tomamos o folicil (Ah!Ah! a quantidade de caixas que eu tomei) e começamos a fazer contas. Sim contas! “Os dias fertéis são a partir de quando até quando?” (Há quem faça mapas de temperaturas, testes de ovulação, etc.), programamos a nossa vida conjugal ao pormenor: “tem de ser hoje, depois de amanhã e depois de depois de amanhã!” – Deixa de existir o “agora porque me apetece”, é o “agora porque tem de ser!” A seguir a esta fase vem a fase do adiamento, vem a fase que não se faz ginásio porque temos medo que o esforço físico esteja a prejudicar a nossa capacidade reprodutiva e impeça uma gravidez, vem a fase que esperamos ansiosamente pela menstruação e que todos os meses achamos que não irá surgir, e com isto se passam anos. Sim anos! A verdade é que andamos tão entretidos que a nossa vida profissional e pessoal nos toma tanto tempo, que vamos adiando o que sabemos não ser normal, e de alguma forma vamos arranjando desculpas para o que não acontece. Entretanto, vamos navegando na internet e nos motores de busca do PC não é dificil encontrar as palavras; “infertilidade”, “ovulação”, Etc. Vamos tomando consciência dos números (que são alarmantes), vamos ouvindo outras amigas com esse problema falarem, contarem as experiências, vamos morrendo um pouco todos os dias, e vamos negando sempre. Quando o tema é filhos dizemos sempre que “logo se vê”, “Vamos ver se tratamos disso para o ano”, etc etc. A verdade é que chega uma altura já não sabemos o que havemos de dizer. Até que chega o momento, aquele que não podemos nem queremos adiar mais e lá vamos nós aquele médico recomendado por alguém para vermos se de facto existe ou não algum problema. Foi em meados de Março. A data não vou precisar, sei que foi depois do meu aniversário que é a 12, foi a minha promessa dos 34 (ui!34!). Marcamos a consulta para o Dr. e lá estavamos nós ás 18h00. Depois de uma espera de quase duas horas fomos atendidos. O médico, depois de um questionário exaustivo, esteve a ver umas análises minhas (hormonais), fez uma ecografia, e prescreveu uma quantidade de análises para mim e espermograma para ele. E muito gentilmente disse que quando tivessemos os exames todos lá voltassemos para chegarmos a uma conclusão. Confesso que depois desta consulta até á realização dos ditos exames se passaram uns meses, principalmente para o A. que só quando já tinha a segunda consulta agendada é que foi passar pelo grande sacrificio de fazer o espermograma. A razão deste lapso de tempo foi a do costume: Ora agora temos muito que fazer, ora porque compramos uma casa nova, ora porque agora vamos de férias e talvez aconteça qualquer coisa… Fomos lá a segunda vez no dia 19 de Setembro (sim agora sei a data, também é mais recente), aí já munidos dos ditos exames e com a esperança de ser algo que se resolva com uns comprimidos (Ah!Ah!). O Dr. como de costume faz-se esperar, não tem pressa no atendimento, isso é bom quando estamos lá dentro é claro! Mas enquanto estamos há espera é deseperante (porque será que em todos os consultórios médicos é isto?). Lá entramos, ele examina todos os exames, é objectivo em dizer que nada de errado se passa, nem com os espermatozóides, nem com a ovulação. Logo a causa terá de ser outra, faz-se mais uma eco, “existe ali algo no ovário esquerdo, umas aderências talvez”, isto a juntar com as menstruações super dolorosas, faz surgir algumas dúvidas diz “Endometriose?”. Enfim, sugere-nes uma laparoscopia, exame com anestesia geral, no qual insere um laparoscopio pelo umbigo e tem de fazer uma incisão (o meu umbigo? Que desgosto!), para ver o aparelho reprodutor por dentro, ver se as trompas estão desobstruídas, etc. Eu concordo imediatamente, estou por tudo! Marca-se a data, 17 de Outubro de 2005. A parte pior vem a seguir: Informar a família (sim eles desconfiam, mas não sabem ainda!), informar os colegas de trabalho (os mais chegados), todos são solidários (ai que raiva ! Detesto piedade!). Acham que devo pedir uma segunda opinião, que sou maluca, “afinal quem é esse médico?” “Tem de se ir ao Prof. Dr. não sei das quantas, e mais aquele outro..” A páginas tantas desligo! É importante estabelecermos uma base de confiança, é uma grande erro (no meu entender) andar a saltar de médico em médico, estes processos são dolorosos demais para ouvirmos 15 opiniões diferentes. Deve-se procurar um profissional credível, e lá seguir as directivas que nos der. Andar a saltar de um lado para o outro, só servirá para dilacerar a nossa parte psicológica, de “per si” tão frágil, e em casos extremos (que infelizmente não são incomuns) prejudicar a nossa saúde. É importante para quem se inicia nestas “andanças”, a procura de profissionais de saúde credenciados. Tirem referências, informações! Existe muito negócio sujo na infertilidade, por uma razão: É um negócio altamente rentável!” Tive uma claque inteira no hospital, ainda bem que a maior parte das minhas amigas não sabem (custa sempre falar disso) senão então é que era, a N. (irmã da minha amiga I.) foi uma grande ajuda, ela é enfermeira, sossega-me e diz que não vai custar nada, explica detalhadamente os procedimentos, diz-me o que posso esperar e o que vou sentir, fico mais sossegada (mas pouco). É bom ter alguém assim próximo de nós que perceba, porque os médicos acham que isto é tudo muito banal e não vale a pena entrar em explicações muito demoradas acerca dos procedimentos, devem achar que somos todos muito burros e que não vale a pena perder muito tempo a explicar-nos as coisas (que raiva!). A noite da véspera da cirurgia foi sem dormir. A cabeça estava a mil, medo, muito medo, não só da operação em si, das dores…Mas sobretudo do diagnóstico: E se estiver tudo bem? Qual será a causa? E se estiver tudo mal? Será que isto é o que eu devia estar a fazer? Quando acordei, a primeira coisa que tive consciência de fazer foi apalpar a barriga, sabia que se só tivesse um corte no umbigo, só tinha sido realizada a laparoscopia, se tivesse um corte mais abaixo, tinha sido necessário fazer alguma cirurgia de correcção. Tinha dois cortes… Tinha sido necessário fazer cirurgia. Estava cheia de curiosidade para saber o resultado, pedi para me levarem do recobro. Queria ir para junto dos meus! Mais tarde soube pelo médico que tinha corrido tudo bem, não havia nenhum problema de maior, estava tudo muito bem encaminhado, tinham sido feito algumas correcções, mas não se especificou muito naquela altura. E Agora? Entrei então numa nova fase. Fez-se a cirurgia, correu bem, mas que se passava de facto, que se tinha corrigido? Durante a última consulta antes da cirurgia tinha surgido a palavra “endometriose”, estava preocupada. Não minto se disser que até aquele momento (em que o médico me falou disso) não fazia a idéia do que fosse semelhante coisa, creio que nunca tinha sequer ouvido essa palavra. Evidentemente, quando foi referida, fui logo pesquisar para ver o que era (não gosto de ser ignorante). O que descobri aniquilou-me, completamente. Não é possível! esse é logo o pensamento que nos vem à cabeça, não pode ser verdade, eu não posso ter isto. No entanto, quando lemos a sintomatologia, de repente tudo se enquadra: Os períodos muito dolorosos, o período pré menstrual muito dorido, a infertilidade, enfim, tudo o que realmente acontecia comigo há muito tempo. Não pode ser! O que eu pretendia realmente saber depois daquela cirurgia era se realmente existia adoença ou não. A espera de uma semana para ir tirar os pontos foi terrível, não queria estar a massacrar o médico a fazer-lhe esta e outras questões pelo telefone, tinha de estar cara a cara, não podia estar em casa, um dia depois da cirurgia já estava a ir trabalhar se ficasse em casa entrava em parafuso. Fui tirar os pontos! Ia tão nervosa! Queria saber se tinha endometriose ou não. “Sim! Muito pouco, mesmo muito pouco mas tem! Por isso o ideal é conseguir uma gravidez no mais curto espaço de tempo possível.!” É evidente que este não é o cenário ideal, e que ninguém está à espera de um diagnóstico destes, na nossa cabeça fazemos logo um “bicho de 7 cabeças”. Mais tarde pude constatar que este problema da endometriose era insignificante e que o médico nem sequer contava com ele para definir a causa da infertilidade, mas na altura caiu como uma bomba na minha vida. Depois desta fase, as relações conjugais sofreram uma pressão acrescida. Reconheço agora, que realmente nós conseguimos martirizar as nossas caras metades, e que realmente só relaçóes muito bem estruturadas sobrevivem ao desafio da infertilidade, e das relações cronometradas. A partir daqui iniciamos uma novo ciclo nas nossas vidas. Encetei então uma série exaustiva de pesquisas, acerca do tema. Acho que deve ser normal, todas as mulheres infertéis se preocupam com isso e procuram absorver tudo o que lhes “vem à mão” sobre o tema. Então com as novas tecnologias e a internet, os resultados são vastissímos, e temos é dificuldade em conseguirmos consultar tudo a que temos acesso. Claro que deve existir um elevado bom senso, para não absorvermos informação deturpada que existe, devemos sempre procurar fontes de informação mais ou menos credíveis, e nós próprias fazermos uma depuração de tudo aquilo que interessa ou não absorver. Entrar em paranóia e decorar informações desconexas não leva ninguém a lado nenhum, só servem para confundir. Nessas minhas pesquisas encontrei, uns blogs sobre o tema, escritos por outras mulheres com problemas idênticos, que estavam a fazer tratamentos de fertilização, que me comoveram imenso. Realmente a infertilidade é um drama e só consegue perceber isso realmente quem se encontra no meio dele. Os sacrificios que se conseguem fazer, a dor que passam, o desrespeito pelo próprio corpo até, por que passam as mulheres para terem um filho. O que vale é realmente o preceito “tudo por um filho”. Neste contexto, é realmente importante reflectir sobre tudo isto, será que vale a pena tanto sacrificio, sujeitar o nosso corpo a agressões fortissímas de drogas para induzirem a produção de óvulos, anestesias gerais para a recolha dos mesmos, dor, mais dor e mais dor? Será que nós ao estarmos a dar ao nosso hipotético filho uma mãe, não lha estaremos a tirar também cedo demais? Quais serão as consequências de tanta agressão, a médio prazo, para o nosso organismo? Será que vamos viver para ver o nosso filho crescer? Parece-me importante reflectir sobre isto. Que se dê uma chance, ou duas, tudo bem! Acho que todas as mulheres se devem dar essa chance, agora continuadamente durante anos? Não sei se será o correcto. Mas também quem sou eu… Mas isto de lidar com prazos é delicado, é mesmo muito delicado. E desiluda-se quem pense que a sua vida depois de um diagnóstico de infertilidade continua a ser a mesma. Não é! E calculo que nunca voltará a ser. A nossa vida vira do avesso, altera-se a relação que temos connosco, alteram-se as relações com os familiares, amigos e sobretudo entre o casal. Acredito que muitos casamentos não sobrevivam a este problema. A relação entra as duas pessoas passa a ser gerida em função de um único objectivo, que é muitas vezes inalcansável. Para os homens, acho que é pior, eles não têm uma noção muito clara sobre o que se passa e sobre o que se poderá passar a seguir, têm a noção de que têm de fazer algo, e sobretudo que podem falhar, e muitas vezes isso acontece… Eles não conseguem pura e simplesmente fazer amor com as suas mulheres porque têm medo de falhar. Tentam fingir que está tudo bem, e pura e simplesmente não sabem o que fazer quando nós desabamos. Claro que nesta fase, repensamos toda a nossa vida, revemos todas as nossas atitudes perante a vida, temos sentimentos de revolta intensos. Precisamos enfim de um tempo para nós. Baseada neste pressuposto, meti-me num avião e lá fui rumo ao outro lado do oceano, sem marido, por vezes é preciso estar sozinha sem ele para poder pensar. Ora, e nada melhor que uns passeios à beira mar e uns banhos de sol em pleno mês de Dezembro. Isto sim é vida! Esta viagem fez-me bem, realmente deu para ponderar, para pensar, andava num estado de hiper agitação, à noite o sono não vinha, de manhã acordava cedo, não conseguia estar muito tempo parada, andava super impaciente. O pior, é que a pilha parecia não se esgotar. Uma noite atrás da outra de insónia e o corpo não a reclamava quando devia reclamar. Nesta viagem tomei algumas resoluções: A minha vida tinha de mudar no próximo ano, tinha de relaxar mais, não viver as coisas tão intensamente, trabalhar menos, não aturar mais desaforos, “que se matem todos”. Verifiquei que a minha vida era de uma estupidez alucinante: Trabalho, trabalho, casa, casa, ginásio, trabalho, casa, ginásio, almoços de Domigo (porque ao Sábado trabalha-se), ainda o trabalho e a rotina de um casamento de 8 anos. Andava a fazer pouco por mim nos últimos tempos essa era a verdade. É impressionante como aquela semana passou rápida, e na véspera do regresso, já tinha a carga toda em cima dos ombros outra vez, estava acabrunhada, queria de qualquer maneira ficar lá porque de alguma maneira me sentia longe dos problemas e isso não era uma sensação má de todo. Na viagem de volta, vem-me o período, sempre a horas (que bom!), mais uma machadada. Entretanto o tempo passa a correr, vai-se vivendo em função de contar os dias do próximo período fértil, aquilo que antes era um acto de amor e prazer passa a ter dia e hora marcada, faz-se só com um objectivo (quando se consegue fazer), não pode durar muito tempo esta pressão, as relações entre as pessoas desgastam-se muito, a vida afectiva e sexual do casal ressente-se e não é pouco. Francamente não sei se uma relação bastante estruturada e de muitos anos aguentará esta pressão. Tenho algumas amigas cujas relações terminaram depois de problemas de infertilidade, no meio dos tratamentos e masturbações e do acto de tentar fazer um filho em público, perde-se muita coisa, e o pior ainda, não sei se tudo aquilo que se perde volta a ser recuperado. Em Janeiro 2006, voltamos ao médico para uma consulta de rotina, aí, falamos das diversas alternativas de tratamentos, decidimos dar andamento a um possível “plano B”, entretanto íamos tentando uma gravidez natural, a curto prazo claro, a idade não ajuda! Estabelecemos prazos, não se pode adiar para sempre! Por esta altura comprei um livro sobre a infertilidade em Portugal, “Tudo por um filho”, de uma jornalista portuguesa. Confesso que a abordagem dos tratamentos e exames e consultas e toda a parafrenália envolvente deste processo, descrito neste livro, me fez ficar muito céptica. Acho que realmente todo o processo de se conceber um filho em público, quando esse é um processo que deveria ser efectuado na maior das privacidades, não será de facto muito interessante. Para a maioria das pessoas, o problema da infertilidade, não é problema nenhum. Ninguém entende como, e de que maneira, esse problema afecta a vida das pessoas que nele estão envolvidas. A acutilância da sua dimensão, e a corrosão interior que ele provoca às pessoas afectadas. Ninguém consegue perceber o que sente uma pessoa que quer ter um filho à visão de uma criança que chama pela sua mãe, por exemplo, ou o simples facto de ter de felicitar alguém que nos comunica a notícia de uma gravidez, ou anuncia o nascimento de um novo rebento, o qual temos de ir ver e admirar. Ninguém consegue perceber o esforço, que temos de fazer para sermos simpáticos e tentarmos ficar alegres com as notícias, mesmo quando por dentro estamos a sentir os piores sentimentos do mundo, todos em sintonia apostados em acabar com a nossa sanidade mental. E temos de reagir, e temos de sorrir e temos de tentar passar uma imagem de normalidade, quando tudo o que nós não nos sentimos é normais (acho que se calhar uma visita à psicologa não fazia mal!). O tempo foi andando, desde Janeiro, a gravidez normal nunca chegou a acontecer. Entretanto, fui entrando num novo mundo. “O pequeno mundo da blogosfera”. Fui lendo os dramas de vida de muitas companheiras de luta, e admirando a cada passo a coragem de muitas mulheres que fazem o que for preciso para alcançarem o sonho de serem mães. Assisti a muitos negativos e a positivos, a fins e a recomeços. Em Junho parti para a FIV, 26 de Junho, acho que nunca mais na minha vida vou esquecer esta data. A minha primeira injecção de Suprefact, à qual se seguiram mais uma quantidade delas. O tratamento é doloroso, primeiro as injecções que nos põem as hormonas completamente malucas, na segunda fase a estimulação ovárica que nos deixa para além de malucas inchadas. Depois toda a carga psicológica que estes tratamentos acarretam, é um processo muito muito duro. Um mês exactamente depois do início do tratamento fiz a transferência de 2 lindos embriões que ainda estão comigo, são os meus Pipis. A infertilidade não está vencida, mas já demos um grande passo (num universo de pequenos passos), para a concretização de um sonho. Por isso deixo o meu testemunho para que saibam que com muita paciência e apesar de ser longo o percurso, é possível atingir o objectivo. |