Chamo-me Susana Pina, casei com 20 anos e o meu marido com 29 e pensamos logo em ter um filho, até porque o meu desejo sempre foi ser uma mãe jovem, e como somos ambos filhos únicos, queríamos muito aumentar a nossa família. Só que a vida pregou-nos muitas partidas e ao fim de 6 meses, o filho tão desejado ainda não tinha chegado.
Recorri a médicos particulares e durante os 4 anos seguintes, segundo as palavras dos especialistas, seria só uma questão de tomar uns comprimidos para ajudar a ovulação e treinar, treinar muito. E nem mesmo com a nossa sexualidade feita com dias e horas marcadas assim conseguimos.
Já tinham passado 4 anos a ouvir dos amigos, colegas, familiares e até vizinhos frases como:
- Então? Não achas que já é tempo?
- Estás a guardar-te para velha?
- Estas meninas de agora não querem prisões!
Confesso que é muito difícil, ouvir tais palavras, mas nunca escondi a minha infertilidade. Quando me confrontavam com tais afirmações, só lhes respondia que não é quando nós queremos, é quando Deus quer, e Deus ainda não tinha querido. Esperava por alguma palavra, mas simplesmente se ouvia um silêncio, não sabiam o que dizer. Compreendo que quem não passa por este drama não saiba encontrar as palavras certas de forma a me poderem ajudar, mas mesmo assim nunca tive vergonha de dizer “Sou infértil”.
Decorridos estes anos e o nosso filho sem chegar, resolvemos inscrevermo-nos na Maternidade Alfredo da Costa. Lá existiam consultas da especialidade que nos podiam ajudar a resolver o nosso problema. Seguiram-se consultas, exames e mais exames, alguns dolorosos, e o diagnóstico chegou: não tínhamos nada, sofríamos de infertilidade inexplicada. Na MAC estive 10 anos, dos quais 7 foram passados em tratamentos: fizemos 4 Inseminações Artificiais (IA), 2 Fertilizações In Vitro (FIV), 1 Microinjecção (ICSI) e 2 Transferências de Embriões Congelados (TEC), sempre com resultados negativos; já não conseguia ouvir mais aquele telefone a tocar e a Enfermeira a dizer-me que ainda não tinha sido desta. Esse dia era terrível, entre choro, revolta e uma enorme vontade de continuar os tratamentos, o mais rápido possível. É muito difícil descrevermos as emoções por que passamos.
Decorridos esses anos chamaram-me à MAC para me dizerem que já não nos podiam fazer mais nada; as listas de espera eram muito grandes e tinham que dar vaga a outros casais. Senti-me um "lixo", saí do Hospital com um relatório na mão, como se tivesse sido despejada.
Com 34 anos, na altura senti-me perdida, revoltada, por terem fechado as portas ao meu sonho, mas sabia que tinha que dar a volta à situação, tinha que fazer algo, pois sabia que um dia iria realizar o meu (nosso) sonho.
Então continuei a minha luta, e com todas as minhas forças, procurei Hospitais no País onde houvesse listas de espera pequenas, pois a idade estava a avançar e sabia que o meu limite num Hospital Público seriam os 37 anos. Inscrevi-me no Centro Hospitalar de Gaia (a 280 km da minha área de residência), no Hospital de Santa Maria e também na Adopção. Tive sorte, apesar de ser um Hospital Público, passados 4 meses tinha a minha 1ª consulta no Centro Hospitalar de Gaia, e seguiram-se mais tratamentos.
O meu médico acreditava que íamos conseguir, e nós também. Veio a 1ª FIV naquele Hospital, e a 2ª, e a 3ª, e os resultados sempre negativos. A esperança continuava, mas as hipóteses começavam a escassear. Com um total de 12 tratamentos e 36 anos de idade, começávamos a reflectir, mas queríamos muito continuar, a nossa força cada vez era maior, mas o tempo cada vez menor. E o médico lá me propôs o 13º Tratamento de todo o meu percurso, mais uma FIV. E foi com uma enorme ALEGRIA que no dia 15 de Maio de 2006, sem esperar, e completamente convencida de que mais uma vez sofria uma desilusão, lá estava o meu resultado - POSITIVO, com um valor de beta hcg de 550 ml. Não acreditei, pensei que se tinham enganado no relatório das análises, e fui repeti-las, mas não havia engano, estava mesmo grávida, que felicidade... Já com 6 semanas de gestação, faço a 1ª Eco e... Gémeos... São dois, a felicidade dobrou, e a emoção era enorme.
Ao fim de 16 anos, eu com 36 anos e o meu marido com 45, vamos ser pais de 2 gémeos, que resultaram de 13 tratamentos de infertilidade. Só conseguimos realizar o nosso sonho, porque nunca desistimos, e fomos muito fortes para aguentarmos tantas pressões, tantas angústias, e tantas desilusões, mas também porque acreditámos que era possível. NUNCA DESISTAM dos vossos sonhos, e lutem até à exaustão, um dia todos seremos recompensados.
Susana Pina |