Vou tentar resumir os últimos 18 anos da minha vida: casei aos 19 anos (no ano 1989), com 21 tentei engravidar naturalmente durante 2 anos. Como não acontecia e a minha ginecologista não encontrava motivos para tal, recomendou que tentasse mais uns meses até fazer outros exames. Comecei a sentir-me demasiado ansiosa: até gravidezes psicológicas fiz. Engordei, fiquei sem menstruação, vomitava e os testes tinham sempre o mesmo resultado: NEGATIVO. Por sugestão do meu marido, resolvemos parar por uns tempos e aproveitar a vida.
Entretanto comecei a sentir a pressão habitual dos familiares e amigos, perguntando pelos herdeiros. Nunca tive coragem de dizer que estávamos a tentar, todos os nossos amigos que casaram depois de nós iam aumentando a família, e nós dizíamos que ainda era cedo… Em privado chorei, muito, revoltei-me, senti-me discriminada, comecei a evitar grávidas, bebés e os amigos com filhos.
Na altura não tinha acesso à informação que se tem hoje, não havia Internet, fóruns ou associações que nos apoiassem neste contratempo. Não se falava que fulana (ou fulano) era infértil, que havia consultas especializadas para estas dificuldades.
Apenas via olhares de piedade e histórias daquele casal que demorou 10 anos, foi de férias e conseguiu! Tantas férias que marquei e desfrutei em função de um milagre acontecer.
Em 1995 (2 anos depois) voltámos a tentar e nada. Passaram-se mais dois anos, a palavra infertilidade era verdadeiramente assustadora, e foi o meu médico de família que me esclareceu, e enviou para as consultas de ginecologia do Hospital de Stª. Maria.
Enquanto esperava pela 1ª consulta fui a um especialista particular, muito experiente, que ao examinar-me disse não ter os meios suficientes para diagnosticar o meu problema (que suspeitava ser uterino) e que seria conveniente inscrever-me nas consultas de infertilidade públicas. As clínicas privadas eram ainda escassas e muito dispendiosas.
Foi como se o mundo acabasse para mim; afinal eu tinha algum problema, nunca seria mãe… Senti-me inferior, menos mulher, achei que o meu marido não merecia ser privado da paternidade, enfim achei que era uma batalha perdida logo no início.
Temi pelo meu casamento, mas surpreendentemente, este imprevisto aproximou-nos ainda mais, lutámos juntos e tenho a certeza que foi o seu amor incondicional que me fez continuar, em vez de me resignar.
Na 1ª consulta do HSM o primeiro exame pedido foi a histerosalpingografia. Diagnóstico; septo uterino (uma pele que divide o útero, pode dar problemas no desenvolvimento de uma gravidez, mas não impede que se engravide).
Aconselharam-me a procurar ajuda psicológica, porque o problema podia ser apenas ansiedade.
Como não tinham psicólogos de acompanhamento à infertilidade, sugeriram-me tentar na Maternidade Alfredo da Costa. Entretanto, enquanto esperava pela inscrição, receitaram-me Dufine. Aguardei e tomei durante um ano, nada aconteceu.
Durante este ano de tentativas falhadas decidimos inscrevermo-nos para adoptar uma criança, foi uma decisão muito bem pensada e desejada, que também me ajudou a perder os medos dos exames e possíveis tratamentos sem êxito. Senti que de uma forma ou de outra eu iria ser mãe. Sim, porque para nós adoptar era engravidar, mas de coração. Andei muito entusiasmada com a ideia, mas verifiquei que o processo seria mais demorado do que pensava-mos…
Já estávamos no ano de 2000, quando, por indicação de uma amiga consultei uma médica particular que também trabalhava na Mac (mais uma tentativa de saber ao certo o que me impedia de engravidar). Claro que, após me esclarecer sobre o meu problema, também me aconselhou a inscrever nas consultas de infertilidade.
“Aquela” palavra outra vez! Perdi a pouca esperança que tinha, não conhecia ninguém que estivesse a passar pelo mesmo. Mas mesmo assim inscrevi-me. Em Agosto do mesmo ano tive a minha 1ª consulta. Foram pedidos os exames habituais; espermograma, análises hormonais e de rotina, ecografias, Histeroscopia e gráficos de temperaturas até ao final do ano.
Como estava tudo normal (excepto o septo), em Maio de 2001 fiz uma laparoscopia de diagnóstico, onde retiram o septo e confirmaram que estava tudo bem com as trompas e ovários.
Durante este processo tive acompanhamento psicológico, na MAC, onde nos apoiam e preparam para a eventualidade de não conseguirmos ser pais. Para recuperação da operação tomei a pílula durante 6 meses, após nova Histeroscopia, e por indicação médica recomecei a tentar engravidar, sem qualquer tratamento durante 8 meses: nada. Voltei à consulta, o mesmo diagnóstico: infertilidade inexplicável. Tratamento: psicólogo para ansiedade e depressão.
Em 2003 como não engravidava inscreveram-me em lista de espera para FIV, que seria aproximadamente de 2 anos. Desiludidos, concentrámo-nos no processo para adopção, que ainda demoraria cerca de 2 anos (!). Nunca mais tomei a pílula.
Nestes anos todos posso dizer que apesar de ser um pouco nervosa e receosa, nem os exames, nem a mini cirurgia me custaram fisicamente, mas psicologicamente foi muito doloroso. Não aguentei e em Junho de 2004 fui completamente ao fundo. Desisti de tudo, até de mim.
O meu marido, sempre o meu melhor apoio, levou-me a um psiquiatra que me diagnosticou uma depressão muito grave. Tratamento: baixa e medicação fortíssima, andei completamente “ausente”.
Em Novembro, durante o tratamento psiquiátrico tive uma dor fortíssima no ventre e perdi um pouco de sangue, só nesse dia me lembrei que o meu período, nem sempre regular, andava ausente…Entrei em pânico, não podia engravidar a fazer o tratamento da depressão! Fui logo à ginecologista, que após observação enviou de urgência ao Hospital D. Estefânia para fazer uma ecografia. Estava grávida, mas algo não estava bem: disse para não ter muitas esperanças… Nunca esquecerei esse dia 3 de Novembro de 2004, véspera do meu 15º aniversário de casamento. Nem me lembro do caminho que percorri até chegar ao hospital, ou do tempo que aguardei pela eco.
A eco revelou que estava grávida de 10 semanas, mas tinha a placenta descolada. Senti um calor dentro de mim e muito medo, ia perder o bebé? E quais as consequências dos medicamentos que tomei?
Tive uma gravidez de alto risco, em repouso, e fiz todos os exames possíveis para saber se o bebé estava normal, a medicação que eu tomara era altamente teratogénica (risco de mal formações congénitas). Não havia certeza de que não afectasse o bebé. Com muitos medos e ansiedade decidimos levar a gravidez até ao fim. Aos cinco meses de gravidez comecei com contracções: sequelas da operação ao útero; vivíamos um dia de cada vez, cada semana que o bebé ultrapassava era festejada por nós e pela obstetra!
Estava aproximadamente grávida de seis meses, quando fui chamada para a FIV! Quase em simultâneo o serviço de adopções contactou-nos dizendo que tinha chegado a nossa vez! Foi difícil a decisão, mas acordámos que não era o momento indicado para receber mais um bebé. “Não à fome que não dê em fartura”!
Em 23 de Maio de 2005, o dia mais feliz das nossas vidas nasceu o nosso menino, perfeitinho e saudável, por cesariana.
Pensei em deixar o meu testemunho para vos dar força e coragem, nunca percam a esperança. Mas também gostaria que soubessem que hoje, olhando para estes anos de espera, reconheço que desperdicei tanto tempo da minha vida por ser tão ansiosa!
Ter um filho é maravilhoso, mas a vida não é só isso e eu não desfrutei o resto, e agora não tenho tempo…Tenho 37 anos e a ginecologista diz que posso engravidar novamente, mas sinto que não estou preparada para eventualmente passar por tudo outra vez. As marcas foram profundas e algumas talvez nem desapareçam. A infertilidade continua a fazer parte da minha vida, não consigo ignorar os casos que surgem diariamente, que cada vez são mais.
O serviço de adopções tem bebé para nós, mas o meu filho só tem 27 meses, e apesar de ser o melhor que me aconteceu, ainda não recuperei de tudo o que passei. E infelizmente toda a minha ansiedade foi transmitida ao meu tesouro, é um menino super nervoso. Mas é a minha vida e pretendo dar-lhe um irmão/irmã, biológico ou não.
Desejo, do fundo do coração que alcancem o vosso sonho Boa sorte |