Anna (infertilidade, gravidez ectópica e heterotópica)

02-02-2007
Casei muito nova, com 21 anos. No início o meu marido não queria ter filhos tão cedo, mas eu, não sei bem porquê, sempre temi a infertilidade, e, sem ele saber, não tentei impedir a gravidez. Pouco tempo depois engravidei, mas não o sabia porque comecei logo a ter perdas de sangue e dores horríveis, pensando tratar-se da menstruação. Quando me dei de conta que as hemorragias não paravam fui ter com a minha ginecologista. Ela não fez um diagnóstico correcto do meu abortamento e acabei por ter uma infecção grave. Entretanto, não conseguia engravidar e comecei a temer o pior: sofrer de infertilidade.

Mudei de médico. Foi a minha sorte, para além de ser um excelente profissional, foi um grande amigo que me apoiou ao longo de 12 anos de infertilidade. Ele fez os exames todos e aconselhou-me a ser operada para desobstruir uma trompa (provavelmente danificada pela infecção). Para além da cirurgia à trompa, retiraram-me um quisto e parte do ovário direito. Entretanto fiz estimulações com Dufine e como nada resultava ele encaminhou-me para a consulta de esterilidade no Hospital São João no Porto, onde fui seguida pela Drª Mª Adelina Nunes. Mais um batalhão de exames e um diagnóstico: infertilidade inexplicada.

Fiz então a primeira inseminação. Tive logo um positivo. Não é preciso descrever aqui a minha felicidade, acrescentando que nesta altura já estava casada há 7 anos. Mas foi alegria de pouca dura, pois comecei a ter dores horríveis e perdas. Na ecografia viram o embrião, que estava bem, mas detectaram um "quisto" no ovário. Fui fazendo a monitorização semanalmente e curiosamente o "quisto" ia crescendo ao ritmo do bebé. As dores continuavam, sempre de cada vez pior, e as perdas de sangue também. Perdi o bebé às 8 semanas. No entanto, eu estava a ficar cada vez mais debilitada e as dores sempre a aumentarem, até que descobriram que afinal o tal "quisto" era um embrião que ficara preso na trompa. Tinha tido uma gravidez heterotópica, coisa raríssima, segundo eles, e que nunca tinha acontecido naquele hospital. Fui operada de urgência e perdi a trompa.

Depois fiz mais 2 IIUs, enquanto aguardava a minha vez na lista de espera para a FIV. Foram 2 resultados negativos. Ao mesmo tempo vivia aterrorizada com a ideia de fazer uma FIV, porque naquela altura ainda não se usava anestesia para a punção. Na sala de espera ouvíamos as mulheres aos gritos enquanto faziam as punções a sangue frio. Era digno de um filme de terror. Felizmente, já se usava anestesia quando chegou a minha vez. Fiz duas FIVs sem resultado.

O meu marido e eu resolvemos então passar para à adopção e tentaríamos a 3ª FIV antes de desistir definitivamente de tratamentos. O meu sonho era apenas o de ser mãe, fosse biológica ou adoptiva. Fomos fazer umas férias ao Algarve e visitamos o refúgio Aboim Ascenção, para nos inteirarmos um bocadinho mais do que nos esperava no processo de adopção. Viemos de lá encantados, e passadas umas semanas descobri que também tinha vindo de lá grávida. Sol de pouca dura, porque comecei a ter logo os mesmos sintomas da gravidez anterior. Eu já sabia que ia ser outra ectópica. Foi um diagnóstico muito complicado, porque não detectavam o embrião, embora soubessem que estava algures. Pelos vistos o embrião pode alojar-se em qualquer parte. Entretanto fizeram-me uma biópsia e depois uma raspagem (as duas piores intervenções piores que fiz). Continuava na mesma e quando se preparavam para passar à cirurgia exploratória, lá detectaram o embrião na trompa. Fiz então uma nova cirurgia, na qual perdi a 2ª trompa.

Morriam assim todas as minhas esperanças de algum dia ter um filho. Bati no fundo do poço e fiquei sem vontade de seguir em frente com a minha vida. Ainda estava em casa a recuperar da cirurgia quando me ligou uma médica amiga a perguntar se ainda queria adoptar, porque tinha conhecimento de uma adolescente com uma menina de 1 mês e que queria dar a criança a um casal para adoptar. Disse logo que sim. Ainda não tinha removido os pontos e já ia ter uma criança. Felizmente, o meu marido teve o bom senso de investigar o lado legal da situação e acabamos por desistir com medo de nos acontecer algo semelhante ao caso que recentemente tem andado nos média. Perder aquela menina foi a gota de água que fez transbordar o copo já muito cheio. Por vezes o desespero é tão forte que a nossa vida perde sentido.

Tentei ganhar forças e agarrei-me à possibilidade da adopção. Fui recuperando lentamente o meu optimismo e parti para a última FIV; não queria mais passar por toda aquela dor e angústia. Foi o tratamento que menos me entusiasmou e parti sempre do princípio de que não iria resultar, tanto mais que só havia um embrião para transferir e recusei fazer o repouso de 15 dias, como me tinham recomendado. Resultado: tive uma gravidez fantástica e hoje tenho o meu milagre: o Zezé, um lindo menino que preenche a minha vida. Tenho 38 anos, 12 dos quais em busca deste sonho. A vida é realmente feita de altos e baixos, mas também de pequenos milagres. Jamais tentaria o segundo filho, porque foi um capítulo da minha vida que encerrei. Não teria hoje forças para nova caminhada. Vamos agora passar a ser família de acolhimento para meninos à espera de serem adoptados.

Boa sorte a todas.
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