Infertilidade: ministra confiante na resolução de diferendo com privados
10-03-2009

A ministra da Saúde, Ana Jorge, lamentou hoje a posição de alguns centros privados que se preparam para recusar casais inférteis enviados pelo Estado e espera que, depois de conhecerem a proposta do Governo, tudo se resolva.

"Espero que essas reacções do sector privado, o qual nós consideramos importante para complementar um serviço público, sejam muito emotivas e não reais. Obviamente que lamento algumas das posições mas espero que com alguma capacidade de diálogo, e depois de conhecerem a nossa proposta, que as coisas se resolvam no bom caminho", disse Ana Jorge.

Em Julho deverá estar já em funcionamento o sistema informático que distribuirá os casais pelos centros com menos tempo de espera, públicos ou privados. Alguns profissionais destes centros privados falam em "atentado à liberdade" e alertam para a "perversidade" do sistema. Discordam ainda da tabela de preços apresentada pelo Governo, adiantando que não estão dispostos a contratualizar com o Ministério da Saúde e a receber os casais que forem encaminhados pelo Estado.

Falando à margem da inauguração da Unidade de Saúde Familiar de São Marcos, Sintra, a ministra da Saúde referiu hoje que a infertilidade "é um problema que atinge algumas dezenas de milhares de portugueses" e que gostaria que "houvesse colaboração para se encontrar a forma que beneficiasse principalmente os utentes". Sublinhando que em Portugal existem actualmente 26 centros privados de reprodução medicamente assistida, a ministra desvalorizou ainda as críticas que consideram excessivo o número actual destes centros.

“Crescimento desenfreado”

A Sociedade Portuguesa de Medicina da Reprodução (SPMR) e a Associação Portuguesa de Fertilidade (APF) consideraram hoje preocupante o "crescimento desenfreado" de clínicas privadas nesta área, não encontrando razão para a abertura de novas unidades. O presidente da SPMR, João Silva Carvalho, disse que dentro de pouco tempo "teremos 35 a 40 centros para dez milhões de habitantes, o que é muito mais do que os nove que existem na Bélgica" (que tem a mesma população), e que "dão uma resposta mais eficaz" do que a dada actualmente em Portugal, onde os centros públicos acumulam uma lista que obriga a tempos de espera superiores a dois anos.

Também a APF disse estar preocupada com "a multiplicação indiscriminada e geograficamente irracional das clínicas de fertilidade, em especial no sector privado", lembrando que "todos os estudos internacionais, em qualquer área da saúde, demonstram que a dispersão de meios humanos e técnicos resulta em desvantagens para os doentes, em todos os planos". "Isso é um receio do sector privado que está com receio que abram muitos privados. Nós temos que reforçar o sector público, é isso que estivemos a fazer durante o ano de 2008", disse aos jornalistas Ana Jorge.

"Estamos a reforçar o sector público que, mesmo reforçado, não vai ter capacidade para responder a 100 por cento [às listas de espera de casais inférteis] e, portanto, aquilo que pretendemos é que o sector público responda pelo menos a 50 por cento das necessidades e que tudo o resto fosse feito em colaboração com o privado", garantiu a ministra, destacando que o Governo está "a criar um sistema informático que vai permitir dar a todas as pessoas, de uma forma igualitária, acesso aos tratamentos".

Ana Jorge destacou também que em 2008 foram abertas vagas para as especialidades de obstetrícia e ginecologia, processo que disse ter sido feito com dificuldade pois "houve algum obstáculo a que abrissem capacidades formativas nos hospitais para formar especialistas".

Lusa

 

 

 

Associação Portuguesa de Fertilidade

 


 

 

 

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