“É preciso acabar com o silêncio da infertilidade”
24-10-2007

Associação Portuguesa de Infertilidade

"A infertilidade é uma incapacidade temporária ou permanente em conceber um filho e em levar uma gravidez a termo, ou seja, até ao parto. É um problema comum que ataca homens e mulheres, proveniente de motivos internos ou de contributos inconscientes do ser humano". Cláudia Vieira, da Associação Portuguesa de Infertilidade, fala deste problema em entrevista a «O Primeiro de Janeiro».

Com que objectivo(s) nasceu a Associação Portuguesa de Infertilidade?
A API resultou de um movimento cívico nacional, constituído por pessoas que têm problemas de fertilidade e que não tinham o apoio devido à sua doença. A associação nasceu fundamentalmente com o objectivo de apoiar, informar e representar todos os portugueses que vivem na 1ª pessoa a infertilidade e o enorme sofrimento a que a ela está associada.
O nosso trabalho passa essencialmente pela promoção de uma assistência médica e psicológica adequada. Atendendo ao aumento da prevalência da infertilidade (estima-se que em Portugal existam 500.000 casais em idade reprodutiva com problemas de infertilidade), lutamos para que todos quanto sofrem desta doença (reconhecida pela OMS) tenham direito a tratamento digno, acessível e atempado.
No nosso país existem 28 centros de tratamento, 10 dos quais públicos, embora nenhum localizado a sul de Lisboa ou nas Ilhas. Estes factos demonstram bem a insuficiência do nosso sistema de saúde, especialmente visível no número de ciclos de tratamentos por casal, que é muito inferior ao que se passa noutros países europeus. Na situação actual, muitos casais continuam a ver negado o direito à sua saúde reprodutiva, porque é disto que em primeiro lugar se trata. Só com este acesso à saúde reprodutiva podemos de facto decidir livremente ter ou não ter filhos, como as outras pessoas. As limitações actuais devem-se ainda à demora na resposta dos centros públicos de tratamento (listas de espera) e às inúmeras limitações económicas com que nos confrontamos diariamente (comparticipação dos medicamenteos muito baixa e falta de comparticipação por parte dos seguros de saúde).

Quais as principais causas da infertilidade masculina e feminina?
Entende-se que um casal é infértil quando não alcança a gravidez desejada ao fim de um ano de vida sexual contínua sem métodos contraceptivos.
A taxa de prevalência da infertilidade entre homens e mulheres é muito equilibrada (60 por cento feminina e 40 por cento masculina). Em média, 80 por cento dos casos resultam de problemas nos dois membros do casal, sendo, geralmente, um mais grave do que o outro.
Estima-se que a infertilidade conjugal atinja 10 a 15 por cento da população em idade reprodutiva, tendo vindo a aumentar nos últimos anos, devido a causas tão diversas como o adiamento da maternidade, o início de uma vida sexual precoce e com múltiplos parceiros (problemas de infecções), o sedentarismo, os hábitos alimentares, o consumo excessivo de tabaco, alcóol e drogas e ainda, muito especialmente, devido à poluição. (ver caixa)

De que forma promovem assistência médica e psicológica a pessoas com problemas de infertilidade?
A API, tendo como um dos seus principais objectivos promover a assistência médica e psicológica de todos os que sofrem de infertilidade, em apenas um ano de existência desenvolveu já actividades e parcerias com diversas instituições.
Destacamos alguns: os encontros nacionais que temos realizado no centro do país (Leiria), nos quais os participantes podem trocar experiências e falar sem qualquer constrangimento da sua infertilidade; os protocolos com centros de tratamento que prevêem a disponibilidade na resposta a questões médicas colocadas pelos doentes e, em alguns casos, descontos nos tratamentos; a linha de apoio, com a colaboração de uma psicóloga; a constituição de uma rede nacional de grupos de apoio (o projecto piloto arranca em Junho na cidade de Braga); a realização das Jornadas API (a 1º edição decorreu no passado dia 19 Maio, no Porto); o enriquecimento da informação prestada através do site, que dispõe já, entre outras informações, de um manual de infertilidade e de um fórum de discussão, onde as pessoas podem participar livremente; a elaboração do "Guia de Infertilidade" que pretendemos distribuir gratuitamente após o Verão, com revisão científica da Sociedade Portugesa de Medicina da Reprodução; e a publicação trimestral de uma Newsletter, com a colaboração de profissionais da área da infertilidade.

Excesso de exercício e desordens alimentares podem aumentar o risco de infertilidade. Como evitar uma infertilidade precoce?
Como associação de doentes, das nossas leituras e experiências resulta de facto a ideia muito clara de que há todo um conjunto de actividades na área da prevenção que se deveriam tomar, tanto na idade escolar como na idade adulta. Esta prevenção deveria incidir sobretudo na promoção de estilos de vida mais saudáveis (diminuindo a obesidade, o álcool, o tabaco), na melhoria da educação sexual, na prevenção de doenças sexualmente transmissíveis, no alterta para as consequências muito sérias do adiamento da maternidade (a idade ovárica é inexorável), entre outras.

Poderá haver uma esperança de cura para futuros casos de infertilidade feminina ou masculina?
Como doentes, sabemos que praticamente todos os meses há novidades nas técnicas de procriação medicamente assistida (PMA). Assumindo que a prevalência da infertilidade não vai diminuir e que não se perspectiva o fim das suas causas estruturais, todos os estudos apontam para uma generalização progressiva da PMA a um número cada vez maior de indivíduos. Aliás, neste momento não é apenas uma doença do Primeiro Mundo; há problemas muito sérios em países de África e da América Latina.
No entanto, a API tem esperança que a diminuição de casais inférteis seja uma realidade a médio prazo, originada, não só pelo recurso aos avanços científicos nesta área, mas também pela actuação de medidas preventivas. O aumento das taxas de sucesso dos métodos de Procriação Medicamente Assistida, a diminuição dos seus efeitos secundários, o aprofundamento do estudo de algumas doenças que geram infertilidade, são alguns dos avanços científicos que a API se congratularia de assistir a breve prazo.

Os custos dos tratamentos de infertilidade não são acessíveis a toda a gente. O Estado comparticipa de alguma forma esses tratamentos? Como poderá ser contornada a situação quando o problema não é resolvido de uma só vez?
Infelizmente, o acesso a tratamento está demasiado dependente da capacidade financeira de cada casal. No acesso à PMA, a igualdade entre os portugueses é uma ficção. Podemos mesmo afirmar que há casais que acabam sem filhos simplesmente porque não têm (ou não tiveram a tempo) capacidade económica para recorrerem às clínicas privadas, ou ainda porque o sistema público não admite mulheres com idade superior aos 38 anos. Sabemos de casos de casais verdadeiramente desesperados e atropelados por um sistema que os exclui e que os esquece. São traumas que ficam na maior parte dos casos para toda a vida.
Os que conseguem ser acompanhados num dos poucos centros públicos existentes em Portugal, têm ainda de suportar os custos altíssimos da medicação: atendendo à escassa comparticipação por parte do Estado, os valores para uma FIV podem atingir facilmente os 1.500 euros, dependendo da capacidade de resposta à estimulação ovárica da mulher. Quando falamos em tratamentos efectuados em centros privados, estes custos podem ascender aos 5.000 euros por ciclo. E podemos falar latamente numa média de 3 ciclos por casal. Ora, tendo em conta os valores médios dos salários auferidos pelos portugueses, é fácil de ver que estes tratamentos não são acessíveis a qualquer casal e que, pior, são um problema que os afecta numa fase crítica das suas vidas, com consequências económicas e psicológicas muito graves.
Contrariamente ao que já acontece em muitos países europeus, em Portugal o apoio do Estado é altamente deficitário e as próprias seguradoras continuam a recusar qualquer cobertura nos tratamentos, nos exames de diagnóstico e na medicação relacionada com a infertilidade. O nome "infertilidade" é interdito nas seguradoras. E bastaria copiar os bons exemplos da França e da Bélgica, para não citar outros casos. Sabemos hoje, pois é um facto economicamente demonstrável, que o financiamento público da PMA se traduz a prazo num benefício efectivo para as contas públicas. Na Bélgica, por exemplo, uma comissão de médicos e de economistas conseguiu provar isto mesmo, tendo conduzido a uma alteração radical no apoio à PMA. Enquanto não houver vontade política para resolver esta questão, para entender a racionalidade económica do apoio à PMA e para assumir que estamos perante a negação de um direito à saúde, muitos de nós ficaremos pelo caminho, infelizmente.

Qual o mais imediato desejo da vossa associação?
A nossa acção, por enquanto em regime de puro voluntariado, orienta-se para todas as áreas que nos permitam minorar o sofrimento causado pela sitação actual da PMA em Portugal. Muito especialmente, gostaríamos de ver concluído, o mais brevemente possível, o processo de regulamentação da Lei já aprovada mas, ainda à espera de aplicação efectiva.

Mensagem final.
A API gostaria, em primeiro lugar, que todos os cidadãos tivessem direito à saúde reprodutiva. A infertilidade é uma doença que, ao impedir a procriação, acaba por resultar num duplo prejuízo para o Estado e para as pessoas. Julgamos ainda muito importante lutar contra o tabú social que ainda está associado a esta doença, sendo aliás motivo adicional para a sua pouca visibilidade pública e política. É preciso acabar com o silêncio da infertilidade, porque todos os dias ocorrem verdadeiros dramas na intimidade familiar.

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Causas
da infertilidade

As principais causas femininas são:

  • Disfunção ovulatória;
  • Obstrução tubar;
  • Anomalias do muco cervical;
  • Anomalias do cariótipo;
  • Patologia uterina;
  • Tumores malignos;
  • Malformações anatómicas;
  • Gravidez ectópica;
  • Interrupção voluntária da gravidez;
  • Abortamentos de repetição;
  • Auto-anticorpos;
  • Causa desconhecida.

As principais causas de infertilidade masculina são:

  • Alterações do espermograma;
  • Criptorquidia;
  • Anomalias endócrinas;
  • Anomalias do cariótipo;
  • Ejaculação retrógrada;
  • Anejaculação;
  • Azoospermia obstrutiva;
  • Azoospermia secretora;
  • Lesões do escroto;
  • Tumores malignos;
  • Anomalias anatómicas;
  • Causa desconhecida.


Outras causas de infertilidade são:

  • Antecedentes familiares;
  • Hábitos alimentares, desportos violentos, stress profissional e medicamentos;
  • Doenças sistémicas;
  • Traumatismos e acidentes;
  • Stress ocupacional e stress associado à infertilidade e aos tratamentos de RMA
Entrevista publicada no jornal O Primeiro de Janeiro
 
 

 

 

Associação Portuguesa de Fertilidade

 


 

 

 

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