Congelar óvulos para adiar a gravidez é a última promessa da procriação medicamente assistida, mas ainda está em fase experimental. Por ano nascem em Portugal cerca de mil bebés como resultado destas técnicas, pelo menos metade depois de recursos a centros privados. Nos sites das clínicas há slogans como "Trazemos esperança", "damos vida aos seus sonhos", uma delas escolhe algo mais pragmático: "Linha de crédito. Facilidade de pagamento". Já surgiram notícias de quatro gémeos em Singapura e mais alguns nascimentos isolados na Austrália e na Europa. Mas são casos esporádicos e os médicos admitem que as técnicas de congelação de óvulos continuam muito falíveis. Estão dedicadas à carreira profissional ou acham que ainda não encontraram o homem certo, mas não querem abdicar da experiência de ser mães. O problema é que o relógio biológico não pára: em cada dia que passa o número de óvulos diminui a um ritmo impressionante e os que sobram têm cada vez menos qualidade. E se houvesse forma de atrasar aquele tic tac? E se fosse possível fintar o declínio da fertilidade, adiar a gravidez até aos 50 anos com a garantia de gerar um bebé saudável? Conseguir congelar óvulos de uma forma satisfatória, à semelhança do que se faz há décadas com o esperma e os embriões, é uma espécie de Santo Graal da reprodução assistida. "Seria fantástico", antevê o presidente da Sociedade Portuguesa de Medicina de Reprodução, Silva Carvalho, que há mais de uma décadas abriu uma clínica, o Centro de Estudos e Tratamento de Infertilidade, onde cada vez aparecem mais mulheres com 40 anos desesperadas para ser mães. Seria mesmo uma "revolução", admite. Porque, além de permitir ultrapassar problemas reprodutivos em mulheres com patologias (que podem pôr em risco a sua fertilidade, como o cancro), possibilitaria a resolução dos problemas éticos decorrentes do congelamento de embriões. E porque permitiria ultrapassar os actuais constrangimentos das mulheres que tantas vezes têm que "acabar licenciaturas, mestrados, comprar casa e carro, ter estabilidade antes de ter um filho". Mas deve usar-se apenas o condicional: "seria", porque, por enquanto, a criopreservação de ovócitos ainda é "uma técnica experimental", defende. O mesmo afirma Alberto Barros, que criou o primeiro banco de esperma em Portugal na Faculdade de Medicina do Porto e é proprietário da Clínica de Genética com o seu nome. É necessário "ser cauteloso", avisa. O que não passa de uma hipótese de futuro para Silva Carvalho já é porém conjugado no presente em Espanha. O Instituto Valenciano de Fertilidade (IVI) - com clínicas espalhadas por vários países, incluindo uma unidade em Portugal (Lisboa) - tem vindo a anunciar a possibilidade de congelar óvulos numa idade fértil como uma espécie de seguro de maternidade. "Pode parecer frívolo, mas a possibilidade de adiar a maternidade é muito importante para algumas mulheres", justifica Sérgio Reis Soares, director do IVI de Lisboa. Não disponível por enquanto em Portugal, o congelamento de ovócitos em Espanha custa "metade de um ciclo de fertilização in vitro, cerca de dois mil euros", adianta. A técnica (vitrificação) não é nova. O que é novo é o método que tem sido publicitado. Em Julho, o IVI anunciou à imprensa o nascimento dos primeiros bebés gerados graças à vitrificação pelo método Cryotop, inventado por um especialista japonês que garante semelhantes às dos tratamentos com óvulos frescos. Mas Silva Carvalho contrapõe: um outro centro de tratamento de fertilidade espanhol, o Cefer, já tinha utilizado a criopreservação de ovócitos em 2001, graças à qual nasceram cinco bebés em 2002. E, além de o número de casos ser ainda demasiado baixo, não sabe quais serão as consequências genéticas da experiência. Por isso mesmo defende que, por enquanto, não se deve propor o método individualmente, mas apenas "em casos desesperados". "Falsas expectativas" "Anunciar isto desta forma pode criar falsas expectativas e fazer com que as mulheres adiem a reprodução", corrobora Alberto Barros. Se a técnica ainda parece tirada de um livro de ficção para quem a olha a partir do minúsculo Portugal, nos Estados Unidos há muito que especialistas ou até outsiders com olho para o negócio decidiram investir neste interessante nicho de mercado. Desde que, em 1986, se conseguiu congelar óvulos com sucesso, em vários pontos do mundo foram surgindo notícias de centros de reprodução que iam conseguindo a mesma façanha: quatro gémeos em Singapura e mais alguns nascimentos isolados na Austrália e na Europa. Mas eram casos esporádicos e os médicos admitiam que as técnicas de congelação de óvulos continuavam muito falíveis, recorda Débora L. Spar, no livro O Negócio de Bebés. O problema é que os óvulos têm um teor de água muito elevado e, durante o processo de congelação, esta tende a cristalizar, destruindo o veio que contém o citoplasma. No início dos anos 90, investigadores italianos experimentaram técnicas de desidratação, adicionando sacarose durante o processo de congelamento. As técnicas não pararam de evoluir desde então. E se inicialmente o objectivo era o de congelar óvulos de doentes que iam ser submetidas a quimioterapia, rapidamente se percebeu que esta seria uma forma de atrasar ou até parar o relógio biológico. Num país de empreendedores, com o mercado praticamente desregulado, como o dos EUA, era de esperar que os bancos de óvulos fossem aparecendo. Em 2002, no Milwaukee, um especialista em fertilidade lançou o Egg Bank USA, enquanto, em Los Angeles, o CHA Fertility Center anunciava um serviço semelhante. Dois anos mais tarde, Cristhy Jones, formada em Gestão por Harvard, avançou com a Extended Fertility, oferecendo um serviço de extracção e preservação de óvulos por 15 mil dólares, mais uma taxa anual de armazenagem. "Aqui não há uma doença, é um mercado. Estamos a induzir, a criar uma necessidade. A novidade é que o mundo mudou. E agora os médicos são comprados por empresas e passam a comercializar estes produtos como pastas dentríficas", lamenta Mário Sousa, o investigador do Instituto de Ciências Biomédicas Abel Salazar que se propôs avançar com o primeiro banco de esperma público e base de dados de dadoras de óvulos no final do ano passado, mas foi travado pelas autoridades porque a lei da Procriação Medicamente Assistida continua por regulamentar, apesar de já ter sido aprovada em Julho de 2006. Para o cientista, a palavra criopreservação não tem nada de novo. Desde 2000 tem congelado ovócitos e tecido ovárico de doentes oncológicas, ainda por utilizar, diz. E atira: "Eles têm o Criotop? Pois nós temos o Criotip e nos EUA há o Crioloop". De resto, garante, em Portugal faz-se tudo o que se faz no estrangeiro, ainda que a doação de ovócitos, por rotina, seja assegurada apenas pelas duas clínicas estrangeiras instaladas em Portugal - além do IVI, a Ava. Recentemente, Alberto Barros também o começou a fazer na sua clínica. "Se não temos doação de gâmetas é porque os privados portugueses nunca se atreveram a pôr anúncios" a pedir dadores, nota Mário Sousa. Ao contrário, sem problemas, o IVI tem, nos últimos meses, colocado anúncios na imprensa a pedir doação de sémen e óvulos, oferecendo uma compensação pelos incómodos. Alternativa ao sistema público de saúde Lisboa concentra o maior número de clínicas privadas "Trazemos esperança", "damos vida aos seus sonhos", "centro de vida" são apenas três dos slogans com que as clínicas de tratamento da infertilidade implantadas em Portugal anunciam os seus serviços na Internet. Nas ilustrações figuram quase sempre bebés sorridentes ou mãozinhas de recém-nascidos, num deles aparecem os três reis magos a mirar o menino Jesus. Um outro tem como banda sonora uma canção de embalar, e uma clínica escolhe uma página de entrada mais pragmática: "Linha de crédito. Facilidade de pagamento". Portugal tem, segundo a Associação Portuguesa de Infertilidade (API - que defende os direitos de pessoas que sofrem deste problema), 17 clínicas de procriação medicamente assistida e 11 centros públicos. De acordo com contas feitas pela Sociedade Portuguesa de Medicina de Reprodução, em conjunto foram responsáveis por perto de mil nascimentos no ano passado. Sem haver números exactos estima-se que 45 por cento tenham nascido como resultado de tratamentos no sistema público e 55 por cento no privado, calcula o responsável pela consulta de fertilidade do Hospital de Santa Maria, em Lisboa, Calhaz Jorge. Com uma lista de espera de dois anos nas unidades públicas da capital (em contraste com os três a seis meses da região Norte), não é de estranhar que seja em Lisboa que se concentrem mais clínicas (nove são na cidade e uma em Cascais). Fazem face à incapacidade de resposta do Santa Maria e da Maternidade Alfredo da Costa (MAC) que servem tanto a região de Lisboa, como Açores e Madeira e toda a zona Sul do país, nota Calhaz Jorge. No Alentejo e Algarve também não existe qualquer centro privado e não são poucos os casais que mais depressa rumam a clínicas em Sevilha do que a Lisboa, explica a presidente da API, Cláudia Vieira. Mesmo as pessoas sem grande capacidade económica começam a ver o tempo a passar e com ele a hipótese de engravidar e "acabam por vir tentar pelo menos uma vez no privado", nota Madalena Barata, obstetra e directora de duas unidades privadas, o Centro de Medicina da Reprodução (Cascais) e o centro do British Hospital. Além do tempo de espera, quem recorre ao público encontra outras limitações: não são aceites mulheres com mais de 38 anos, refere Cláudia Vieira. Nas clínicas privadas as regras não são tão restritas. Por exemplo, a Ava Clinic desaconselha tratamentos a mulheres com mais de 40 anos, porque as taxas de sucesso dos tratamentos baixam muito a partir desta idade, mas aceita-se casais até aos 45 anos, explica o responsável clínico da Ava Clinic, Cândido Tomás. "As pessoas têm direito a tentar", diz Madalena Barata, que dirige duas unidades privadas que também aceitam mulheres acima dos 40. Se nas idades as clínicas são mais liberais, a lei veio dizer preto no branco que a procriação medicamente assistida se destina a casais casados ou que vivam em união de facto há mais de dois anos. "Não aceitamos mulheres sozinhas", refere Madalena Barata. Já a lei espanhola aceita mulheres sozinhas. No site da clínica espanhola IVI em Portugal lê-se que as mulheres sem parceiro "também poderão beneficiar da inseminação artificial com sémen de dador". A Ava Clinic, que tem sede na Finlândia e está em Portugal desde 1999, dá a possibilidade a mulheres solteiras portuguesas irem aos seus centros de fertilidade na Finlândia e na Letónia para fazer inseminação artificial com esperma de dador anónimo, lê-se. Preços levam a desistir E se no público os custos já podem ser incomportáveis para muitas famílias - só em medicação gasta-se entre 600 a 1500 euros por cada ciclo de tratamento e muitas vezes são necessários três ou quatro ciclos - no privado há muitos casais que ficam de fora, admite a responsável da Associação Portuguesa de Infertilidade. É que a somar à medicação, uma fertilização in vitro (um dos tratamentos mais comuns) pode andar entre os 3000 e 3750, estima. Falhada uma tentativa pode-se ir insistindo. "Um casal pode fazer três fertilizações in vitro num ano", explica o responsável clínico da Ava Clinic. Por constatar o problema, Madalena Barata decidiu negociar com um banco uma linha de crédito, com juros mais baixos, dedicada a estes casais. É o site do Centro de Medicina da Reprodução que abre com as "facilidades de pagamento". Mas sem recorrer ao crédito há outras hipóteses que se colocam, repara Cândido Tomás. Não tirar férias, não mudar de carros, não mudar de casa são alguns dos sacrifícios dos candidatos a pais, afirma o responsável clínico da Ava. Há casais mais jovens que contam com a ajuda monetária dos pais, com mães e sogras muito receptivas a contribuir, por estarem ansiosas por ter netos. Catarina Gomes Alguns dos tratamentos de reprodução medicamente assistida mais frequentes Inseminação intra-uterina Introdução de espermatozóides directamente no interior da vagina ou no útero, com o uso de um cateter. É um procedimento relativamente simples realizado no consultório médico. Numa técnica denominada inseminação intra-uterina (IIU), o médico insere os espermatozóides directamente no interior do útero, próximo do momento da ovulação. Algumas vezes, mais de uma inseminação é realizada para garantir que a inseminação coincida com a ovulação. Geralmente é indicada para casais com infertilidade masculina, como baixo volume de sémen, baixa concentração ou mobilidade diminuída dos espermatozóides bem como para problemas de desempenho sexual. Mas a inseminação artificial também pode ser utilizada para tratar alguns casos de infertilidade feminina, como problemas do muco cervical ou factores imunológicos. Há alguns casos em que é necessário recorrer à doação de sémen. A taxa de sucesso anda pelos 20 por cento. Preços: ronda os 500 euros quando é feita usando esperma do marido, ronda os 800 quando é necessário usar esperma de dador. Fertilização in vitro (FIV) Expressão latina que designa todos os fenómenos biológicos que têm lugar fora dos sistemas vivos, no ambiente controlado de um laboratório. Significa "em vidro". É a técnica mais amplamente utilizada e resolve vários distúrbios da fertilidade, particularmente problemas nas trompas uterinas e deficiências dos espermatozóides. Nesta técnica um óvulo é fertilizado fora do corpo da mulher em meio laboratorial. É um processo de várias etapas. Na primeira delas há uma estimulação do ovário com hormonas para permitir o crescimento do maior número de óvulos possível. Tal desenvolvimento múltiplo aumenta as chances de fertilização e de gravidez. Na segunda etapa é introduzida uma hormona para estimular a libertação dos óvulos maduros que são retirados dos ovários por via vaginal, utilizando-se uma agulha fina visualizada por ultra-som. Na terceira etapa, os óvulos são transferidos para uma placa no laboratório, na qual são colocados juntamente com os espermatozóides para que ocorra a fertilização. Na etapa final, alguns óvulos fertilizados ou embriões são transferidos para o interior do útero por meio de um cateter. Depois da transferência do número de embriões adequado a cada caso, os restantes embriões viáveis são submetidos a um processo de congelação para poderem ser conservados durante algum tempo. Este procedimento permite a disponibilidade destes embriões no momento em que forem precisos pelo casal. A taxa de sucesso anda pelos 40 por cento. Preços: pode andar entre os 2500 euros e os 3300. O congelamento de embriões ronda os 200 euros mas há clínicas que cobram um suplemento de 100 euros por períodos superiores a seis meses. Micro-injecção de espermatozóides (ICSI) Consiste na introdução/injecção de um só espermatozóide dentro do ovócito. Só é necessário um espermatozóide vivo para cada ovócito pelo que, contrariamente à FIV, pode-se efectuar com amostras de sémen de baixa qualidade, e até mesmo em casos de ausência total de espermatozóides na ejaculação, dado que nestes casos se pode obter espermatozóides directamente a partir do testículo mediante uma pequena intervenção praticada no homem, chamada biopsia testicular, que pode ser feita uma vez obtidos os ovócitos. A Intracytoplasmic Sperm Injection (ICSI) possibilita a fertilização com espermatozóides não-móveis (espermatozóides que não nadam efectivamente em direcção ao óvulo). O embrião é, então, transferido para o útero. Os casais submetidos à ICSI são os que têm dificuldade de fecundação com os espermatozóides do homem. A taxa de sucesso pode andar pelos 40 por cento. Preços: pode andar entre os 3250 e 3750. Doação de ovócitos Processo de colecta de óvulos de uma doadora anónima. Estes são fertilizados com o espermatozóide do cônjuge da receptora em laboratório. Os embriões são depois transferidos para a receptora que toma uma medicação que proporcione ao seu útero a capacidade de implantação dos embriões transferidos. Às doadoras de ovócitos são-lhes feitos os mesmos controlos dos doadores de sémen para se poder descartar a existência de doenças congénitas, de malformações e de doenças sexualmente transmissíveis. É indicado para casos em que as doentes atingiram a menopausa de forma prematura ou lhes foram tirados ambos os ovários, quando têm anomalias cromossómicas que transmitem aos seus descendentes, ou quando não respondem bem à medicação estimuladora do ovário ou a FIV fracassa de forma repetida. A taxa de sucesso pode chegar aos 55 por cento. Preços: 5700 (inclui ICSI mais congelamento). *Dados retirados do site da Associação Portuguesa de Infertilidade (www.apinfertilidade.org) e de algumas clínicas que fornecem os seus preçários; taxas de sucesso fornecidas são para mulheres abaixo dos 39 anos. |