Uma mulher pode congelar gâmetas para os utilizar quando já não dispuser de óvulos viáveis. Na espécie humana, a fertilidade feminina sofre uma importante limitação temporal. Ao longo da quarta década de vida, a capacidade reprodutiva vai ficando, por norma, significativamente reduzida. Tal deve-se ao facto da mulher nascer já com o número total de óvulos (o gâmeta feminino) para toda a vida reprodutiva. Se nos homens pode muitas vezes observar-se a produção de novos espermatozóides até à oitava década de vida ou mesmo além, na mulher a população de gâmetas não é renovável. Como com qualquer bem não-renovável, o consumo leva ao fim da reserva. Para além disso, nos 10-15 anos prévios à chegada da menopausa, que ocorre, em média, aos 50 anos, os óvulos já apresentam uma menor qualidade. A esta contingência soma-se outra, no campo da criobiologia, ciência da congelação de materiais biológicos: quanto maior uma célula, mais difícil é congelá-la sem a danificar. Por serem células de grandes dimensões, há grandes dificuldades em congelar óvulos mantendo a sua capacidade de gerar uma gravidez saudável. Com os espermatozóides ocorre o oposto. As dimensões do óvulo e do espermatozóide não são arbitrárias: no processo de concepção natural, o gâmeta masculino faz uma longa viagem, e a prioridade é a mobilidade. Já o gâmeta feminino deve ser volumoso, porque tem de armazenar o material necessário para as divisões celulares dos primeiros dias de vida do embrião.
A diminuição da capacidade reprodutiva com o avançar da idade e a limitação técnica para congelar óvulos tiveram pouca relevância prática até meados do século passado. Até então, os filhos nasciam quando a mulher ainda estava no auge da fertilidade. A segunda metade do século testemunhou a inserção da mulher no mercado laboral e o aparecimento de ambições fora do seio familiar. Tal determinou o adiamento do projecto reprodutivo e a coincidência entre o início da tentativa de engravidar e a diminuição da fecundidade. Mas tanto a Medicina Reprodutiva como a Criobiologia evoluíram, o que tornou possível a criopreservação de gâmetas e abriu novos horizontes na solução dos obstáculos à preservação dos óvulos. Na última década, a metodologia para uma eficaz e segura congelação de óvulos foi dominada e as suas implicações são enormes. Hoje, se uma mulher jovem não pensa em engravidar, pode congelar gâmetas para os utilizar quando o momento chegar e a idade limitar a disponibilidade de bons óvulos. Da mesma forma, se se submeter a um tratamento médico que acelere a perda da reserva de óvulos (radioterapia ou quimioterapia), em algumas ocasiões pode, antes do tratamento, congelar os gâmetas para, no futuro, ter a possibilidade de engravidar. Está indicada a congelação dos óvulos também nos ciclos de fecundação in vitro nos quais se obtêm muitas destas células. A congelação dos óvulos excedentários nos ciclos de fecundação in vitro apresenta-se como uma interessante alternativa à congelação dos embriões excedentários, por levantar menos polémicas éticas. Também nos casos de doação de gâmetas, a criopreservação de óvulos constitui uma revolução: até hoje, o processo exigia que doadora e receptora fossem tratadas em simultâneo, pois os óvulos obtidos da primeira deviam ser postos em contacto com os espermatozóides no dia da extracção para que, já embriões, fossem transferidos para o útero da receptora poucos dias depois. A possibilidade de congelar óvulos abre portas à criação de bancos de gâmetas femininos, que vão facilitar a logística do processo. Num futuro próximo, não será necessária a coincidência temporal ou espacial de doadora e receptora. São muitas as situações em que a congelação de óvulos pode ajudar na optimização da capacidade reprodutiva feminina. É importante que estejamos informados sobre elas e que o Estado assegure condições legais para que os meios tecnológicos disponíveis se traduzam em melhoria da qualidade de vida, dentro dos parâmetros definidos pela bioética.
Artigo de Opinião publicado no Jornal Público |