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04 de Outubro 2009 Uma norte-americana espantou a comunidade médica por estar à espera de dois bebés concebidos com 15 dias de diferença. Um caso raríssimo no mundo. Em Portugal, os médicos lidam com outras situações invulgares: gravidez ectópica e casos em que um feto absorve o outro gémeo. Em todo o mundo estão apenas descritos dez casos como o da norte-americana Julia Grovenburg, de 31 anos, grávida de dois bebés com tempos de gestação diferentes (ver texto ao lado). Em Portugal não são conhecidas gestações semelhantes, mas há outros casos invulgares. A gravidez que se desenvolve fora do útero ou um feto que absorve o outro gémeo são situações raras, que os médicos já tiveram de enfrentar. Armanda Tavares tinha 32 anos quando, ao engravidar pela segunda vez, descobriu que o embrião estava a desenvolver-se na trompa esquerda. Tinha, afinal, uma gravidez ectópica, que sucede em cada 100 gestações. "Acontece quando o embrião se implanta noutro local que não o útero", explica Ana Reynolds, especialista em ginecologia e obstetrícia, da Faculdade de Medicina da Universidade do Porto, sublinhando que a esmagadora maioria dos casos ocorre na trompa. "Nestas gravidezes, o ovo, nas suas fases mais precoces, não consegue percorrer o trajecto até à cavidade uterina", refere. Na origem desta anomalia estão normalmente a obstrução da trompa ou a diminuição da sua mobilidade. É a causa mais frequente de morte materna no primeiro trimestre da gravidez. Armanda Tavares conseguiu sobreviver, mas não ganhou para o susto. "Passei muito mal, principalmente porque o diagnóstico foi feito tardiamente, uma vez que, como tinha colocado o DIU (dispositivo intra-uterino para evitar a concepção), nem me passava pela cabeça que pudesse estar grávida", lembra a ex-funcionária pública, hoje com 59 anos. Aos três meses de gestação as dores eram insuportáveis: "Tinha um mal-estar enorme, fartava-me de vomitar e só estava bem deitada no chão da cozinha, onde me sentia mais fresca." A barriga estava disforme, crescia apenas para a esquerda, e todos os médicos lhe diziam que corria risco de vida. "Corri mais de 20 consultórios em Lisboa e nenhum queria submeter-me a um aborto. Há 27 anos ainda havia muito preconceito". Armanda tinha uma filha com dois anos e chegou a temer o pior. "Disseram à minha irmã para eu decidir com quem ela ia ficar porque eu não ia sobreviver." Com 11 anos de experiência em obstetrícia, Ana Reynolds já assistiu a cerca de duas dezenas destes casos. Diz que actualmente as mulheres já não correm tanto perigo. "Estes casos são diagnosticados mais precocemente porque os meios de diagnóstico são mais avançados", garante. A maioria é detectada entre as seis e sete semanas de gestação, antes de surgir sinais clínicos de maior gravidade, como a rotura de trompa, que põem a mulher em perigo de vida. "Em todos os casos, é sempre uma gravidez inviável", garante. O tratamento pode fazer-se com medicamentos, de forma a que o feto regrida, ou pode ser cirúrgico, tal como acabou por acontecer com Armanda, na altura já grávida de quatro meses. "Depois de muita insistência, consegui que um médico do Porto me tirasse o feto e recuperei.". Manuel Hermida, director do Serviço de Ginecologia do Garcia de Orta, em Almada, também se lembra de um caso com 20 anos. "Uma senhora chegou ao hospital de Santa Maria com uma hemorragia interna. Foi assim que se descobriu que tinha um feto no abdómen. Teve de ser operada de urgência." Situações em que um feto é absorvido por outro durante a gestação são ainda mais raras: em média, acontece uma em cada 500 mil gravidezes de gémeos. "Aparecem alguns casos. Um dos gémeos vai regredindo e, em vez de ser absorvido pelo organismo da mãe até desaparecer, aloja-se no corpo do outro", explica Manuel Hermida. O "feto parasita" aloja-se normalmente na zona abdominal do outro bebé, que se desenvolve normalmente e se transforma numa massa amorfa. "Há casos em que o bebé sobrevivente vive com o irmão toda a vida, sem haver necessidade de o extrair", conclui o especialista. por CATARINA CRISTÃO
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